Por( )que (h)a dúvida(?)

Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Brigar pra quê
Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter que responder
Pelos erros a mais
Eu e você?
(Será, Legião Urbana)

Família Buscapé

Nós estamos todos nos mudando.
E eu tô me borrando todo com as configurações da nova hospedagem, então o primeiro que conseguir ler este post, tenha a gentileza de comentar que a casa tá em pé, sim? Eu tenho três backups de tudo, just in case, mas sabe como é.

Audi Coelum na Basílica do Carmo

Programa
Monteverdi: Audi Coelum
Charpentier: Litanies de la Vierge
Schütz: Eins bitte ich vom Herren
Schütz: O Herr hilf
Charpentier: Laudate Dominum

+

Ceia & Canto no Convento do Carmo
Um jantar à luz de velas nos jardins de um Convento e a música do Audi Coelum: no próximo dia 30 a Basílica de Nossa Senhora do Carmo será palco desta maravilhosa combinação. O Audi Coelum dá início ao evento na Basílica, com entrada franca, em seguida as portas do Convento do Carmo se abrem e arcos, uma fonte, tocheiros e um quarteto de cordas aguardam os convidados para o jantar. Comparecendo ao Ceia & Canto no Convento do Carmo, além de participar de noite única, você ajudará nas obras de recuperação da fachada da Basílica de Nossa Senhora do Carmo, patrimônio histórico tombado da cidade.

Concerto: entrada franca
Jantar: R$ 150 (Convites pelo telefone: (11) 3289.2088, ramal 236, com Rosana)

Mais informações: www.basilicanscarmo.com.br

Valsa para uma menininha

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão…

Aniversário da linda-irmã.
And I’m not quite into the birthday mood, damn it!
Eu queria simplesmente explodir num dos meus abraços hoje, mas… cadê?
Orgulho pelas conquistas da caçula, preocupaçãozinha com os problemas, carinhos e irritações de praxe. Só que anda um quê de estranho e recluso aqui dentro. Respeito os meus processos, mas tinha de ser hoje?

Refrão, meu refrão

“Adeus, adeus
Meu pandeiro do samba
Tamborim de bamba
Já é de madrugada

Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada…”

“Mas a vida é real e de viés…”

O caos na minha escrivaninha já atingiu proporções cósmicas!
A parte boa é que eu não perdi meus óculos escuros. E vocês agora têm mais uma revelação bombástica, fantástica e absolutamente indispensável sobre mim.

É, nem eu.

+

Astral recebe bênção de Vênus, que, em Sagitário, sinaliza menos rancor e controle no amor e nas amizades. As suas finanças irão melhorar por causa de novas chances de sucesso de um parceiro de vida ou trabalho; confie nisso. Temas difíceis também poderão ser encarados com mais graça. (Folha)

Regente no meu ascendente… E isso é bom, Cérebro?

Mas vai, abençoe minha conta bancária, faz favor; eu ando mesmo querendo a minha parte em dinheiro. Não entendi bem essa parte das suas finanças (no caso, minhas) melhorarem por causa das novas chances de sucesso de um parceiro de vida (hein?) ou trabalho, mas eu torço pelo sucesso dos outros, e se vai sobrar pra mim, melhor ainda, agradeço.

Vem cá: parceiro de vida é piada, né? Ha! Muito boa, muito boa!

+

Eu ando sem a menor vontade de falar da vida — ela existe, ela anda, ela urge, ela é, e da conta de pouca gente. E mais, via de regra, escrevo, depois olho, leio e penso: que merda é essa, por que eu escrevi isso? Então eu acho melhor vocês irem ler um livro. Se gostar, me recomenda!

+

Vocês ainda estão aí? Andem, andem!

Guimarânico

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”
(João Guimarães Rosa)

Já não sei quantas vezes morri de amor — quantos dias, quantos segundos. A gente morre e vive de amor; de dor e de alegria. Pode a vida estar tão perto assim da morte? Como pode o brilho sublime dos olhos, que prende a suspiração, de tão distante no espírito se aproximar de um rasgo no peito, uma ferida que sangra e nunca sara — ela sara, marca, mas sara, a gente sabe, mas só sabe depois que sara; enquanto sangra, sangra pra sempre.

Eu acredito em amores. Acredito no poder transformador que o sentimento tem, mas não acredito (mais) em milagres, acho; é tão preciso querer quanto empenhar. As ondas de emoções que o alimentam são tão capazes de trazer tormento quanto felicidade, mas então por que não acreditar antes e principalmente na possibilidade de sucesso? Ah, todas as vezes em que eu tinha em mim a crença e no outro a dúvida! Nem por isso errei menos, vale lembrar. Mas fica um gostinho triste na sensação de, talvez, ter acreditado sozinho. Ou, quem sabe, o cego, iludido, fui eu.

Sim, eu sinto falta daquele amor que acredita, se entrega; um amor de vida e não de morte. Em mim, antes de mais nada. Um amor dentro do amor, mais puro. Fato é que cansei de procurar, tanto quanto cansei de promessas de amor baratas — qualquer amor. Cuido de mim, dos meus planos e sonhos. E tergiverso.

A paz de espírito não depende das ocorrências. Leve em conta que você existe num mundo atormentado, em agonia, e que por isso seria tolice esperar que esse produza a paz ansiada. Paz no coração é algo que você terá de cultivar. (Quiroga)

Eu eu tava ME achando fatalista… Ok, vamos parar por aqui. Eu ganho mais com o show da Bethânia, hoje, do que com essa ladainha. Mas é difícil desistir do que eu sinto (ou como sinto) por um punhado de emoções baratas, vez em quando ou freqüentemente. É difícil abandonar (ou transmutar) a própria essência, ser o que não se é. Sou construtivo, ergo catedrais, mesmo que sejam pra ecos e fantasmas.

Mas não pra quaisquer amores. Esses não, não mais.

Desafino

A lua tá fora de curso
ou fui eu que saí dos trilhos?

+

O mundo artístico é realmente um espetáculo. Não adianta, as pessoas não sabem mesmo o que é jogo limpo, clareza, fair process. É um balaio de egos, vaidades e inseguranças; arte vem em segundo plano. Quando não, falta profissionalismo mesmo, método, esmero, visão e, por fim, talento. Ai, isso me brocha tanto…

Quem assiste não sabe o suor que é caçar uma oportunidade aí no meio.
Um exercício de perseverança e paciência transcendental, é o que eu digo.

Sonhos sãos

Dias antes — uma semana? mais? — da tia Ignez morrer, ele, sobrinho-postiço de quem ela gostava muito, sonhou que minha avó, que já se foi há mais de oito anos, entrava num táxi daqueles pretos, grandes e antigões com a minha tia, que deitava a cabeça em seu colo. Minha avó então dizia calmamente que estava levando minha tia ao hospital porque ela estava muito doente. E de fato levou.

+

Na madrugada de terça-feira ela também sonhou. Viu nossa tia na primeira casa da vila em Santo Amaro, onde mãe, vó, primos e tias moraram. No sobrado, viu tia Ignez com uma blusa salmão e uma calça de um tecido nobre, quase um risca-de-giz. O tecido, minha mãe disse pra ela, tia Ignez ganhou da irmã mais velha e não chegou a costurá-lo; vestiu-o mesmo assim, linda. Estava bem, nutrida e saudável, sem o menor resquício de doença. Foi ali, na casa daquela vila onde tantos fins de semanas sorriram, tantos natais, tantos muros e quintais, tantos améns, que tia Ignez disse estar feliz e aprendendo muito.

+

Depois do velório, não sonhei; também não chorei mais. Se falaram comigo, não lembro. Mas acordei com uma certeza de paz no coração; paz e tranqüilidade, o alívio que vem depois da dor aguda e profunda, a dor que paralisa, a dor que revolta. E agora não há mais dor, a revolta é uma lembrança levemente ruim; tia Ignez venceu a doença, muito além do corpo padecido, e foi cuidar da outra vida. Aqui, acordei vivo e com saudade. Que venha a saudade, é sinal de vida vivida.

+

Eu sonho com dias dourados.

+

“Vivemos nossas vidas, fazemos nossas coisas, depois dormimos — é simples assim, comum assim. Alguns se atiram da janela, outros se afogam, tomam pílulas; muitos mais morrem em algum acidente; e a maioria de nós, a grande maioria, é devorada por alguma doença ou, quando temos muita sorte, pelo próprio tempo. Existe apenas isto como consolo: uma hora, em um momento ou outro, quando, apesar dos pesares todos, a vida parece explodir e nos dar tudo o que havíamos imaginado, ainda que qualquer um, exceto as crianças (e talvez até elas), saiba que a essa seguir-se-ão inevitalmente muitas outras horas, bem mais penosas e difíceis. Mesmo assim, gostamos da cidade, da manhã, e torcemos, como não fazemos por nenhuma outra coisa, para que haja mais.

Só Deus sabe por que a amamos tanto.”
(As Horas, Michael Cunningham)

Domingo no parque

Depois de “O Monge e o Executivo”, mais um best-seller da auto-falta-de-ajuda:
“O Tenor e a Consultora“. Breve, na sua livraria, ou no parque mais próximo.

Como é que pode? O cara consegue reger uma orquestra e nem achar difícil, mas não consegue rebater uma bolinha de frescobol duas vezes na mesma direção. :P

Da vida, dos céus e do adeus…

+

Olha só, minha tia querida,
É de madrugada ainda
Levei um susto danado
Com o telefonema
Assim nesse horário
E era você mesmo,
Que tinha ido embora.

Mas a passarinhada
Já tava lá fora,
Em polvorosa,
Piando bonito pra chuchu
Pra se despedir de ti.

E foi quase perfeito
Acordar assim cedinho
E ouvir sabiá, caga-sebo, bem-te-vi, sanhaço…
Todo aquele bando de passarinho
Piando junto em sinfonia,
Não fosse isso uma despedida.

Um beijo enorme!
Marina

Improvável

Ontem eu sonhei que me preparava pra reger um puta de um concerto (mas diante de uma orquestra com meia dúzia de músicos e uma trompa desafinada) num palco montado diante de uma praça imensa, num parque lotado de gente que mais parecia comício político, de tanta agitação. Lá nos cafundós da Rússia.

Hoje eu sonhei que tinha de provar que dada uma circunferência e um número “xis” de pessoas, sempre é possível colocar essas pessoas sobre a circunferência de modo que a distância entre uma das pessoa e as outras seja de pelo menos 200 metros. Mais alguma coisa a ver com o raio que eu já esqueci. E eu acordei pensando: “senão vejamos… se a área interna à circunferência é π*R² e o perímetro é 2π*R, então…”. Posso parar ou preciso explicar que não faz sentido?

Amanhã eu quero acordar sonhando que estou vendendo sanduíches na praia.
Ou flores, pra manter o ar poético-nonsense, mas que seja na praia.

Eleicéus!

Eu fico terrivelmente impressionado com a memória curta, a argumentação parcial, seletiva, tendenciosa, o medo parvo, o umbiguismo — isso é o pior de tudo, acho eu —, o preconceito arraigado por trás das opiniões que eu ando ouvindo e a incapacidade crônica das pessoas de observar as ligações e associações que ocorrem ali logo atrás do executivo; a teia que sustenta e limita a aranha.

É obvio que toda a merda que vem à tona me enoja, mas não menos nem mais se vem de direita ou de esquerda, e é muito pior ver as pessoas entrando no jogo. (Porque afinal é muito simples, a gente vota no que quer, né? Eu é que complico porque a gente vota nisso que tá aí, sendo mostrado. Pois sim!) As pessoas sempre entram no jogo. O conceito de “massa” é algo muito mais abrangente, subliminar, epidêmico do que se imagina. As eleições têm me lembrado o brilho alucinado nos olhos de uma horda de fanáticos. Santo Deus, danou-se! A razão já era.

Da minha parte, deu. Eu não vou tentar convencer ninguém a mudar seu voto, não vou entrar em nenhuma discussão que é intrinsecamente inútil pra não ter que ouvir argumentos cretinos que mais parecem picuinha da turma da rua de cima com a turma da rua de baixo. E se você não tem nada acima do óbvio ou do ridículo pra me dizer, então nem diga. Poupe-se; poupe-me. O cenário político já é deprimente o suficiente sem demonstrações míopes de “cidadania” e “consciência”. Se você só sabe fazer barulho durante as eleições, então, por favor, vote em silêncio.

Asperges me

“Ay mi Dios que cousa ha sido
Que sufrais frio y dolor
Todo lo haze el amor

Ay mi señor que os veo
Vuestra sangre derramar
Esto solo es començar
A cumplir con el deseo…

Um concerto maravilhoso; sacro, no meu sentido particular.
Mas a vida não dá mole e já me pega, cansado, pelo flanco.
Eu me pergunto: quando? E continuo, porque aqui não quero ficar.

…Ay mi Dios que cousa ha sido
Que sufrais frio y dolor
Todo lo haze el amor”

Eleichute

Quer saber? Povo burro! Estúpido! Demente! Não consegue ser coerente nem na hora de eleger seus candidatos, vai querer reclamar é do quê depois?

Queria ter nascido pescador em Fernando de Noronha! Ou mais: queria ter nascido golfinho — melhor que “anta”! Qualquer sistema tribal que tem um deus-vulcão no meio da sua ilha como divindade maior é mais decente que isso aqui. Valei-me!

(Maluf, São Paulo? MALUF??? Como é que vocês têm coragem?…)

Eleichão

O “povo”, essa entidade… ok, sem adjetivos, essa entidade, festejando o segundo turno à presidência — e quando eu digo festejar quero dizer depositar suas esperanças de correção, integridade e efeito — enquanto temos Maluf, Russomanno e Clodovil como deputados federais mais votados neste estado, Collor como senador eleito no Alagoas e outras barbaridades. Eu ia até reclamar do Serra ser eleito governador com o ex-mandato de prefeito nem na metade, mas o desgosto é tão grande que eu acho melhor ficar felizinho com o Suplicy no senado e olhe lá.

Pára o ônibus que eu vou descer; ou melhor, não pára, eu quero me jogar.

X-Dicionário

Meu mundo caiu. Muçarela???
Eu não como isso não, obrigado! Cê-cedilha me dá azia. Prefiro mozarela, sim?
Se possível, um pouco de mozzarella, por favor. Pode ser?

[Etimologia
it. mozzarella (1570) ‘id’, dim. de mozza ‘leite de búfala ou de vaca talhado com sp. de fungo chamado mozze’, do dial. napolitano]

Vai saber o que diabos seria “muça”. :P

Alô, Rio de Janeiro!

Dia 3 de outubro, terça-feira próxima, me apresentarei com o grupo de música sacra do qual faço parte, o Audi Coelum — Solistas, Coro & Orquestra. A apresentação abre a mostra do CCBB-Rio de Música Sacra e de Devoção, a mesma apresentada no fim do ano passado, no CCBB aqui de São Paulo, com muito sucesso.

O concerto, entitulado “Música Devocional na Espanha Renascentista”, conta com um octeto vocal de solistas do grupo, acompanhados por instrumentos de época, regência e direção musical de Roberto Rodrigues e com um repertório de expressiva relevância no período.

Por favor, compareçam e divulguem!

+

CCBB Rio de Janeiro
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro Rio de Janeiro RJ – CEP 20010-000
Informações pelo telefone (21) 3808-2020

Teatro II
Dia 3 de outubro, às 12h30 e 18h30

Devoção na Espanha Renascentista – Grupo Audi Coelum – A Espanha do século XVI e seu caráter multifacetado de estilos e tendências, marca do Renascimento europeu. No programa, interpretações de obras sacras ibéricas dos principais polifonistas espanhóis e singelas obras devocionais, com emoção e elevação espiritual. Regência: Roberto Rodrigues.

+

Música Devocional na Espanha Renascentista

Rosemeire Moreira, soprano
Juliana Damião, soprano
Fabiana Portas, mezzo-soprano
Guilherme Bracco, tenor
Rúben Araújo, tenor
Silas de Oliveira, baixo
Carlos Eduardo Vieira, baixo

David Castelo, flautas doce
Marcelo Queiroz, flautas doce, voz
Patrícia Michelini, flautas doce, voz e percussão
Rosimary Parra Gomes, alaúde
José Olmiro Borges, viola da gamba

Roberto Rodrigues, direção musical e regência

Programa

Ay mi Dios
Pedro de Cristo (c.1450-1618)

Virgen bendita
Pedro de Escobar (c.1465-após 1535)

Pues que tu, reina del cielo
Juan del Encina (1468-c.1529)

Asperges me
Hernando Franco (1532-1585)

Ave regina coelorum
Alonso Lobo (c.1555-1617 )

Regina Coeli
Cristóbal de Morales (c.1500-1553)

Peccantem me quotidie
Cristóbal de Morales (c.1500-1553)

Gaude Maria virgo
Tomás Luis de Victoria (1548-1611)

O magnum mysterium
Tomás Luis de Victoria (1548-1611)

Replet sunt omnes
Juan Esquivel (c.1563-após 1613)

Santa Maria
Anônimo (em língua indígena)

O virgen, quand’os miro
Francisco Guerrero (1528-1599)

Antes que comais a Dios
Francisco Guerrero (1528-1599)

Pues mi Dios ha nacido
Matias de Durango (1636-1698)

Convidando está la noche
Juan Garcia de Zéspedes (c.1619-1678)

Pega a doida!

Tá, eu sei que jardinagem tem lá os seus truques e caprichos. Também sei que minha mãe se empolga com as verdinhas (e amarelinhas e vermelhinhas e branquinhas…). Mas vocês conseguem imaginar a minha cara quando entro na cozinha e dou de cara com ela “cozinhando” vasos de barro e pedaços de madeira?

Horroróscopo

Astral contraditório beneficia estudos e considerações profundas e graves, mas não ajuda você em empreitadas arriscadas e ousadas. Mesmo que não seja do seu perfil fazer isso, talvez esteja inclinado a tomar atitudes apenas para se livrar de algo que incomoda e pesa. Campo amoroso caminha bem — pausa: hein? —, mas seja criativo e tope mudanças de planos sem reclamar. (Folha)

Argh.

O Espelho

Duas coisas. Coisa um: eu ando muito chato. Coisa dois: tenho achado o resto do mundo mais chato ainda; vazio, desinteressante. Vou vasculhando minhas gavetas porque é aqui nelas — é sempre nelas — que se encontra uma resposta, mas, ai… Algo emocionante, algo realmente inspirador, desafiador até — no bom sentido; tá, eu sei que reclamei, mas veja, desafio é diferente de roubada. Urgentemente!

Pode ser? Ou tá difícil?

Não votem em mim!

E por falar em voto, acho que o Brasil de hoje já atingiu um estágio de desenvolvimento político que permite um novo grau de evolução no sistema de sufrágio universal. Não, é sério! Eu tava aqui pensando: ao invés de incentivar o voto nulo, por que não criamos o não-voto e invertemos o processo todo?

Dessa maneira, eu votaria no candidato que eu NÃO QUERO DE JEITO NENHUM, NEM FODENDO, DEUS ME LIVRE. O candidato que fosse menos não-votado seria eleito. Diz aí se não é espetacular! Assim a gente acaba com essa viadagem de “ah, eu vou votar em fulano porque não quero que sicrano entre!” que vive pontuando os “debates” políticos e troca por uma eleição por exclusão; em caso de empate de menos não-votos, apenas, teríamos um segundo turno. Tudo muito simples, muito prático, você ainda pode descarregar toda a sua raiva e indignação num único voto e nem precisa ser criticado por desperdiçar o seu voto, já que está sendo um cidadão consciente. E eu já tenho meu NÃO-candidato a NÃO-deputado NÃO-federal (muitos nãos, por precaução, cruz-credo, bate na madeira): Paulo Maluf.

Eu sou um gênio. Não votem em mim. :P

Senso de noção

Hoje pela manhã, voltando do hospital com minha mãe, vemos a seguinte placa:

OFICINA NÁUTICA
MOTOR DE POLPA

Eu juro que a minha vontade era parar e perguntar que sabores eles tinham.

+

Daí que eu fui essa semana assistir a um masterclass com dois gringos fodidões; tão fodidões que eu me arrependi de me inscrever apenas como ouvinte — a grana, o tempo, o caralho a quatro. Daí que o gringo, habitué de palcos como o Metropolitan Opera House, de NY, fez toda uma preleção sobre como o cantor deve se apresentar a uma audição ou concurso e que isso é a primeiríssima coisa que qualquer pessoa presta atenção quando se põe o pé no palco.

Qual não é o meu desgosto ao ver que o primeiro cidadão a subir no palco veste uma calça social cinza-escuro, uma camisa social meio cinza, meio azul-quase-bem-claro e imperdoáveis sapatos e cinto ca-ra-me-los! O que foi feito do bom e velho preto, meu deus? Não consegui prestar atenção como queria, imaginando que a qualquer momento um celular fosse brotar como que por maldição, pendurado naquela cintura cor de doce-de-leite.

+

Hoje à noite, no metrô. Eu, me despedindo da colega e amiga que já tinha passado pela catraca, a última, a do canto, quando uma moça que, claro, queria passar por AQUELA catraca — as demais, vazias, certamente não serviam —, literalmente cospe um “DÁ LICENÇA!” às minhas costas. Eu não sei se ela percebeu a grosseria ou ficou com medo do “NÃO!” que eu mandei de bate-pronto, mas ela foi atravessar o bloqueio umas quatro catracas pra lá.

Depois apanha e não sabe o porquê.

+

E tem o Orkut? Tem lugar pra catalisar mais gente sem noção que o Orkut? Eu não me dou mais nem ao trabalho de perguntar de onde me conhece, etc. e tal; não fez uma apresentação mínima — dizer que eu estou na comunidade “Chico Buarque” não é apresentação mínima, é chover no molhado —, apago de vez; insistiu eu bloqueio. Ó, eu nem sou o ser mais anti-social da face da Terra. Mas ajuda, né?

E os candidatos mandando mensagenzinhas pseudo-íntimas pelos scraps? Eu não conheço maneira mais rápida de perder o meu voto, mas enfim, cada um é livre pra ir e vir, se expressar e queimar o próprio filme como quer, né? :P

+

Eu tô bonzinho, podem acreditar. Tô só cuidando do meu jardim.

XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

(Fernando Pessoa)

Por que tanta dor?

Ontem fui visitar minha tia. Não há o que dizer, não há muito o que fazer e eu tento não pensar em tudo o que talvez pudesse quem sabe e etc., mesmo porque isso envolve outras pessoas e suas dores não são menores que as minhas. E eu fui ser o que sempre fui, desde que me conheço por gente: sobrinho. Ela dormia com a mão (tão magra! céus, tão magra!) agarrada à grade da cama hospitalar levemente inclinada e instalada no seu quarto como quem se segura sem perceber, por medo de cair. Acordou num sobressalto mudo, e não sei se me via, mas voltou a dormir um sono estranho, contrariado. Há alguns meses ela dizia que se estivesse boa no fim do ano iria viajar com os amigos em mais uma das excursões que costumam organizar aos fins de mundo por aí afora; hoje ela quase não diz mais nada.

Chorei como sobrinho que vê a tia definhar sem poder fazer absolutamente nada. Cadê os milagres e misericórdias e o caralho que tantos dizem por aí?

Quando vai alta a madrugada

Eu penso nos dias de tom azul e deito minha cabeça no travesseiro. Fui atrás do meu velho travesseiro de penas, tão puído e tão mais velho do que eu, que as pluminhas precisaram de uma capa nova pra que não fugissem mais pela trama do tecido. Mas só este, magrinho, já tem a curva de tantos sonhos.

Durmo bem, sempre dormi, é raro eu perder o sono. Mas naquele momento de entrega ao sono e quando do seu abandono… Sabe quando não encaixa? Ando carente de aconchego, mas onde, como, quando? A gente sempre pode contar com velhos travesseiros. Porque os dias andam azuis, mas eu ando cinzento.

+

De tão infiel que fui a mim, me respeitei tanto e de tal forma que ora não sei o que sinto, ora sinto o que não devo e sei que minto, tentando em vão me desviar de conhecidas arapucas; me agarro a sentimentos conhecidos enquanto me desgarro de mim; perfilam memórias pelo meu corpo e ele responde prontamente, desrespeitosamente, anarquicamente. E às vezes há tão pouco de mim em mim que a solidão é algo que dói na alma. É como se entre eu e a casca e entre a casca e o mundo houvessem anos-luz. E eu cansei de (me) entregar e (me) perder. Amo meus amores; amo o amor, mas eu quero um descanso, uma boa sorte, uma brisa quente. Eu só quero esquecer de amar um pouco pra poder me lembrar em paz, pra poder me lembrar como se faz. Pois amar demais não é pecado, mas é tabu.

+

Acontece que eu ando assim, meio desgostoso, meio sem sentido e os equilíbrios são custosos e instáveis; pequenas camadas de um esmalte. As alegrias parecem não fechar a trama dos meus dias e eles vão, nascem, morrem, nascem, morrem, sem que saiam do lugar; parece que tudo foi esquecido por algum deus mais desatento e eu me sinto desatrelado, como um barco que não está ancorado no cais, nem navega, apenas flutua, sem rota, brisa, sem horizonte.

Take six (or seven)

Marie me jogou esta batata quente e ainda me elevou a padrinho, pra dificultar a recusa — ela me conhece suficientemente bem pra saber que eu dificilmente iria seguir o esquema, mas enfim.

Seis coisas sobre mim? Dignas de nota? E aqui? Senão, vejamos…

(i) Eu carrego comigo doses cavalares de um eu racional e um eu emocional; na verdade, eu oscilo pelos dois universos que sou apenas eu, em busca de equilíbrio. Eles brigam feito cães famintos por um osso; eu sou o osso. Cada qual já teve sua época menor de florescimento, decaimento ou reflorescimento, e crescer me trouxe algumas camadas de concreto, mas eu lembro muito bem quando foi que eu finalmente comecei a atentar pra força, importância e necessidade de não bloquear o que eu sinto — e que é basicamente, livre de construções complexas, estruturas e conceitos estagnados; sou eu, o que eu sinto me define e eu sempre sinto tudo e me entrego com uma intensidade que poucos agüentam —, mesmo que isso pareça não ajudar. Foi quando eu saí da USP, do curso de Matemática Aplicada e fui de vez pra UNICAMP, estudar regência e depois, juntamente, canto. Parece óbvio, não? Não é. Aquilo foi decorrência de um grito interno de vida e não o contrário.

(ii) Eu tenho uma capacidade assustadora, mas não freqüente, de amar o amor amante (e o amor-amigo, de forma mais tranqüila). Digo assustadora porque ela geralmente se pauta no que eu vejo dentro das pessoas. E embora isso soe prentencioso, na verdade é estúpido. É assustador porque assusta, simples assim; assusta quem não quer ser visto com os meus olhos, não com esses olhos. Eu me apaixono nem sempre pelo que os outros têm de melhor, mas pelo que podem ter, só que pra mim eles têm; aí reside o dilema, além de ser uma percepção completamente abstrata e nem um pouco prática. Apaixonar-se pelo casulo porque dentro se vê a borboleta pode ser muito bonito, poeticamente, mas um casulo é sempre um casulo; ele existe pra separar a borboleta do resto do mundo e só tem uma força da natureza capaz de fazê-lo romper: a vontade da própria borboleta de sair. Tenho aprendido essa lição, acreditem, a mui duras penas. Acho que há um boa dose de intuição e poder empático aí, meio desconhecido e mal administrado.

(iii) Tirando as questões amorosas, eu sei ser extremante prático, pragmático, o que me facilita na hora de dar conselhos; sou o famoso ombro pra todas as horas e adoro ajudar, adoro ser útil. Isso já me fodeu a vida um bom tanto porque eu usei da minha grande solicitude como forma de não olhar pra mim; vesti uma capa, fui super-homem, um prato cheio pra uma auto-estima e um amor-próprio que já foram mais baixos que o nível do mar. Ainda adoro ajudar, tenho certa facilidade em me colocar na posição do outro, ainda sou muito bom em dar conselhos e desmascarar mecanismos de auto-sabotagem alheios — venho treinando muito com os meus —, mas, bicho, eu não sou idiota, passei muito longe disso, na verdade. Então, não vem dar uma de coitadinho ou santo pro meu lado porque eu não escolhi não ser psicólogo à toa — talvez hoje eu tivesse a lucidez, a imparcialidade necessária à tarefa, mas não tenho mais as cascas protetoras; tô fora!

Voltando, eu sou prático — o que não quer dizer que eu seja organizado — e odeio tudo que é estupidamente elaborado, projetado ou construído, desde aparelhos ou programas que ne-ces-si-tam de manuais que expliquem seu obscuro modus operandi, até pessoas e relações que preferem dificultar, complicar ou retorcer, ao invés de seguir em linha reta; o bom e velho modo direto-ao-ponto de ser.

(iv) Isso não significa que eu despreze a doçura, o carinho, o cuidado pelos sentimentos alheios. Muito pelo contrário, até por isso acredito que os sentimentos envolvidos são o que há de mais importante e carente de atenção — e quando os sentimentos ali vigentes não são do tipo que deveriam ser, então devem ser separados da questão. Eu acho que nada justifica a violência sentimental, assim como a física, mas a dor de um sentimento é em mim muito mais torturosa e penetrante que uma dor física. Sentimentos são a maior riqueza do ser humano.

Estamos todos sujeitos à cagadas, mas não há uma só pessoa próxima a mim por quem eu não valorize seus sentimentos; já cuidei muito deles, mesmo quando tropecei miseravelmente nas armadilhas que os nossos quereres nos armam. Tenho muita consciência disso e enquanto eu acho que vale o esforço, vou atrás.

(v) Eu sou extremamente argumentativo e um tanto prolixo quando preciso explicar ou defender alguma idéia — resumir vem sempre depois. Eu listo, eu ordeno, eu organizo o raciocínio de uma maneira dissertativa. Quando a questão não pode ser tratada cartesianamente, aí me rendo, sinto mais e penso menos — lembra do primeiro item? Isso é fruto, acho, de uma necessidade de não explicar nem justificar nada pela metade. Eu gosto de deixar claro, de não largar brechas; mais que uma necessidade de controle, é uma necessidade de clareza e perfeição.

(vi) Ah, sim, eu sou perfeccionista. Não existe meio torto; tá, ou não tá torto! Não é quase o mesmo tom; é, ou não é o mesmo tom! Operadores de xerox me irritam — por que eles são incapazes de alinhar, copiar e encadernar direito? Eu odeio serviço porco! Qualquer coisa que eu compre é minuciosamente avaliada, verificada, as costuras conferidas, os encaixes testados, os detalhes observados. É normal eu experimentar ou pedir pra ver outra peça do mesmo modelo, igual àquele, seja lá o que for, e se eu não faço tudo isso, volta e meia me arrependo depois. Eu nunca compro alguma coisa que é quase o que eu quero; se é quase, não é o que eu quero, não compro. Vivo num mundo de detalhes que compõem o todo.

E eu sou auto-crítico, isso é uma merda. Gosto de cantar, adoro vencer minhas limitações, mas odeio me ouvir cantando gravado porque nunca acho que tá bom.

Um tanto obsessivo compulsivo, acho que vem daí a minha vontade de tomar as rédeas das coisas; não é por competição, não é uma vontade de mandar pelo mandar, é querer ver tudo harmoniosa e perfeitamente acontecendo. Me tirassem a auto-crítica e eu seria um ditador num mundo perfeito (aos meus olhos). Utópico, ainda bem. Que graça teria fazer qualquer coisa que (ou viver onde) não tem mais pra onde crescer, que não se desenvolve, não se expande, não é diverso.

Amo a beleza em suas formas e manifestações físicas, abstratas e emocionais (que pra mim é concreto e abstrato), triviais ou não; me comovo com ela.

(vii) E como eu não vou indicar ninguém, vamos a uma sétima. Eu sou preguiçoso. É sim, eu nado (quase) todo dia porque isso me faz bem, mas eu gosto mesmo é de fazer coisas por vontades e impulsos. Tá, eu gosto de nadar, mas eu preferia ficar de pança pro ar em casa, comendo várias coisas gostosas e, quando me desse vontade de nadar, pedalar, caminhar, subir uma montanha, voar, qualquer coisa — no dia, no mês —, que eu estivesse plenamente em forma. Adoro aprender, mas detesto estudar; é sério, acho um saco, quero passar logo pra parte de saber. Mas adoro pensar, penso o tempo todo e resolver coisas é estimulante.

Isso deve estar ligado à maneira como as mudanças se dão em mim. Eu não tenho medo de mudanças, mas veja, elas têm pouco a ver com vontades. As mudanças me vêm lentas, nunca furtivas ou volúveis, elas não surgem, simplesmente; eu preciso entender e sentir a mudança, olhar pra ela, tê-la ali, vê-la em mim — o que não necessariamente garante que seja uma mudança pra melhor —, isso pode até ser mais rápido ou mais lento, mas é maturado. A partir daí a mudança está instaurada; pode levar um dia ou um ano, mais, mas eu caminho irrevogavelmente — contrariado ou não, reclamando ou não, feliz ou não — rumo ao novo.

Pronto. Tá bom assim?

Puto. Sai da minha frente.

Se eu tivesse que listar uma coisa capaz de me fazer ferver vermelho-sangue hoje provavelmente seria depender da fórmula loucura-egoísmo alheia. Pessoas que dizem (ou pensam e não dizem) uma coisa e fazem outra, me tiram do sério em vários pontos na escala Richter. Vai ser incoerente lá na puta que te pariu!

Mas como derramar o sangue alheio (especialmente o próprio sangue) não é uma opção moralmente ou legalmente aceitável, eu fico aqui com a minha taça de vinho e a minha 5ª Sinfonia de Mahler pra fazer girar essa energia, pelo bem da nação.

Definitivamente, a independência e o individualismo absoluto podem não ser o caminho mais simpático, mas eu quero mais é que se foda, sabe?

+

Ah, sim, isso e, porém, sobrinhos. Crianças fofas fazem milagres.

Soupire

Dois terços (o que deve dar uns 500ml) de uma garrafa de vinho depois, pode-se dizer que tudo, absolutamente tudo se resume à falta que um abraço, o toque, a temperatura, o tato conhecido hoje me fazem. E embora eu saiba que o mundo, a vida, tudo o que me envolve, compreende e me surpreende pode ser maior que tudo isso, me pego, invariavelmente, querendo apenas o básico — eu quero aquilo que não aceita grandes e complexas construções; aquilo que brota sem porquê e está entre o fôlego contido e a confidência — com uma certeza de que me é essencial. O que eu quero é tão simples no conceito e, ainda assim, tão impossível na existência? Só sei que o caminho não é reto; suspeito que de tão torto não o compreendo — será que o retorço e me atormento? Eu me perco. E quando acho que me procuro, me encontro fora de mim. Por que, meu deus, eu sou assim?

Dilúvio

TÁ CHOVENDO!!! TÁ CHOVENDO, SIM!!! :D

Eu acho que vou chorar de emoção.

Pinga ni mim

TÁ CHOVENDO!!! :D

Quer dizer, parece que tá chuvendo, tem umas gotinhas caindo do céu. Isso é chuva? Tecnicamente, dizem que sim. Nem um “cabrum”, nem um “chuá”?

Tô começando a ficar com inveja de um bom furacão, em vários sentidos.

Tormento

É tanto e tão pouco o que se passa na minha cabeça e se enrola no meu dentro…

A sapa que virou príncipe que virou sapo?

(Ou: um não conto-de-fadas. Ou: um conto de não-fadas. Ou: um não-conto sem fadas. Ou: um não-conto de não-fadas. Ou: sei lá!)

Daí que eu tava lendo a Veja este fim de semana e, parênteses: putaquepariuderola, que revistinha ruim! Bicho, mas é muito ruim! É ruim em notícia, é ruim em opinião, é ruim em curiosidades, é ruim, é ruim, é ruim. Vou dar é pros sobrinhos recortarem enquanto eles mal sabem ler.

Mas voltemos. Tinha UMA matéria que me chamou a atenção, não pelo brilhantismo jornalístico, mas pelo assunto em si: a de uma lésbica cuja parceira fez inseminação artificial e teve um filho e que decidiu (ela, não a parceira) fazer tratamento e cirurgia de mudança de sexo. Resumo da história: a parceira não quis manter mais a relação porque não via nele — é, nele, até ela entedeu isso — aquilo que procurava em sua cara-metade. O casal se separou quando o bebê tinha cinco meses, mas continua amigo e tem a guarda conjunta da criança.

Tirando de fora toda a babaquice de Shane (ex-Sharon) ser chamado de traidora por estar passando pro outro lado (sic), o burburinho em sites e blogs (lésbicos) acerca do personagem transexual do seriado lésbico de TV, pra que este tivesse um fim trágico — francamente, hein, meninas! —, e os comentários muito valorosos sobre abraçar as diferenças de quem também é oprimido, vindo de dirigentes de algumas organizações pra lésbicas — caralho, que frase imensa é essa? —, eu acho que o fim do casamento era bem previsível, simplesmente porque ele deixou de ser, pra companehira, quem ela enxergava.

Sem juízo de valores aqui. Na verdade, acho que Shane está muito certo em querer deixar de ser Sharon se não era isso que ele gostava de ser. O argumento “queria que o bebê me visse como eu sou”, é também muito válido, embora desnecessário. Na minha cabeça (que não é deste planeta, vocês sabem), Shane queria simplesmente ser quem ele sentia ser e queria deixar de ser quem ele não se sentia como sendo. Ponto. Ser mulher e gostar de mulher é diferente de querer ser homem. Acontece que ele deixou de ser quem a parceira gostava que ele fosse.

É simples assim? É. É fácil? Não. Mas esqueçam por um momento o caráter trans-ex-lésbico-sexual da história. Quantas vezes vocês já não olharam pra alguém e se deram conta que ele(a) não é mais quem vocês conheceram. Ou se deram conta de que nunca foi — é mais difícil e mais doído, posso afirmar. Por que a “mudança” de sexo causa tanta celeuma e a de caráter não? Eu, por exemplo, preferiria mil vezes ter ouvido que um certo ex-amor iria trocar de sexo, o que certamente poria fim à relação, mas tudo bem, do que vê-lo trocar de máscara na minha frente — ou tirá-la, ainda não tenho certeza, mas que se foda. Veja, pense: onde você se sentiria mais traído, por si ou por outrem? Com alguém que põe o próprio corpo à prova pra se tornar o que é, ou com alguém (amor ou não) que se “transveste” de si mesmo e depois se despe, ou ainda o contrário? Ou, como eu citei ser mais difícil, dar-se conta de que o outro que você viu foi mais um outro que você queria ver do que qualquer coisa? Enfim, uma, contra mil possiblidades. E me espanta que tanta gente se ultraje quando não tem ligação direta com o caso. Não, não tem! Não é porque você é lésbica (feminista, fundamentalista, católica, de direita ou vegetariana) e a outra era lésbica e resolveu mudar de sexo que você tem alguma coisa com isso ou o caso, mesmo de longe, te representa. Isso é coisa de gente recalcada e insegura. Deixa de bancar a mal comida lambida.

No fim, traição ou não, simplesmente transmutação, tradução, transparência, transcendência, o que fica é a sensação de que, se algo existiu, não existe mais, mas de uma maneira um quê de traiçoeira apenas quando nos deparamos com a não-verdade (opcional ou quase) dos outros. De qualquer forma, que este algo tenha cumprido o seu papel e que seja possível aprender-se com isso. Mais: que o novo e o desmascarado, se não for bonito, ao menos seja exatamente o que é.

Bato palmas de pé ao Shane. Ele teve a coragem e a determinação de encarar o que era, coisa que muita gente que nem precisaria cortar o pau ou os peitos fora pra isso não tem a segurança e a retidão de fazê-lo.

Príncipe?

A pessoa enche a lata e depois não sabe por que acorda com voz, cara e se sentindo um sapo-boi. Atropelado. E eu que ia só tomar uma cervejinha…

+

Dois amigos e uma amiga na fossa. Eu queria ter estrutura (e ombro) pra todos eles. Mas a verdade é que hoje eu não tenho. Entre bravatas e lamentações, o que eu faço é tentar arrumar essa bagunça interna. Hoje eu sinto mais forte quando me falta energia, o corpo reclama mais alto; eu obedeço. Mas há que se cuidar das alegrias pelo caminho, como das flores e dos amigos, nem que seja com um simples copo d’água.

+

E hoje é sexta, né?

Recomeço

Escrevi um post imenso. Um post cheio de filosofias e quereres e vontades e decepções e iluminações e desejos e idéias e amores. E apaguei. Quem quer saber disso?* Eu não quero. Eu só quero saber de ver o sol nascer com o dia e a lua mudar e o capim entre os paralelepípedos da rua crescer, se chover. Por enquanto.

Cuidar da vida antes que acabe. Antes que ela perca suas cores. Antes. E depois.

* Isso é uma pergunta retórica. Leia de novo: pergunta retórica. Significa que não precisa de resposta. E num sentido um pouquinho mais pessoal, significa que não é pra deixar comentários do tipo “eu quero!”, porque eu não importo e porque vai me irritar. Capisce? (Também não precisa de resposta.)

Sambinha

Morre mais um amor num coração vulgar
Deixa desilusão a quem não sabe amar
E quem não sabe amar há de sofrer
Porque não poderá compreender
Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer

Um verdadeiro amor nunca fenece
E pouca gente ainda o conhece
Meu bem
Se o nosso amor morreu
É porque ninguém o entendeu
Deixa o teu coração viver em paz
O teu pecado foi querer amar demais
(Coração vulgar, Paulinho da Viola)

Não deixa de ser um tapa na cara. Pois é.

Carta do Dia: A Temperança

O momento da ação sensível

Existem momentos específicos em nossas vidas que demandam a utilização de empatia, Guilherme. A empatia nada mais é do que a capacidade, muitas vezes que nasce da simples boa vontade, de se colocar no lugar do outro e compreender as coisas a partir do ponto de vista alheio. Vivemos, em geral, voltados demais para nossas próprias perspectivas, e carecemos de uma avaliação mais fiel, justa e sensível da realidade das pessoas que estão ao nosso redor. Cultive uma postura mais compreensiva, e a recompensa virá na forma de amor, simpatia e colaboração. Você sofrerá testes claros em sua paciência, mas não deverá fracassar.

+

Os oráculos nunca dizem “foda-se”, não é impressionante?

É preciso paciência pra tanta empatia. Eu queria que um oráculo só uma vez me dissesse algo como “mano, vai lá e quebra tudo!”. Mas quem dá asa pra cobra?

Sight

You’re just too good to see, Mr. B. Yeah, I miss you.

Questionamento polifuncional

O que é que eu tô fazendo afinal?
Porque é que eu insisto [nisso | naquilo | em você | nele | nela | neles]?
Eu vejo muita coisa, talvez mais do que deveria, talvez mais do que gostariam.
Mas será que capto o limite entre a possiblidade (ou querer?) e a minha teimosia?

Parei, parei. Não, eu tô bem, ou não, sei lá, mas cansei, bicho, cansei…
Cada um com as suas escolhas e responsabilidades. Eu aqui com as minhas.
Mande lembranças, apareça, seja e faça. Feliz, eu espero.

Da série “Pensamentos subneuronais matutinos”…

Me pego pensando que “catléia” — mas eu li “catiléia” — é um bom nome. Ora, as pessoas não dão nomes de flores às suas rebentas? Por que não o nome de uma orquídea?… Ah, não? Ok.

+

O Sr. Inconsciente vai de vento em popa. Por enquanto, trivial nonsense.

+

Uma possível aluna queria ter aulas semanais de canto pagando R$50,00 ao mês. Eu não soube nem o que dizer. Quer dizer, eu soube, mas não seria muito educado. Ainda não tô na fase da vida ganha pra fazer caridade com o meu trabalho.

+

Ontem EU tive UMA aula — meu professor-fodão vem de tempos em tempos orientar e dar polimento em seus pupilos — e paguei R$150,00 por isso. Cash. Tem um masterclass aí que está pra acontecer, com um barítono super renomado do Metropolitan Opera House, NY: Sherill Milnes. Sabe quanto? R$350,00, dois dias. Um bom pianista de repasse pra repertório lírico? R$80,00. E por aí vai.

Sim, é caro, é específico e a gente tem que saber muito bem o que faz. Eu sei.

+

Minha testa voltou pra adolescência.
E trouxe suas amiguinhas com ela, as espinhas.

+

Esqueci o resto.

Prendam-me

Não, Guilherme! Não é porque você deu um mau jeito nas costas carregando sua tia e está doendo que você pode atacar o patê de gorgonzola da festa do teu pai! (Vocês queriam uma notícia esdrúxula? Ei-la.)

Segundo dia de dieta e eu me dei conta de que só há uma coisa capaz de atingir graus de carência mais altos do que os meus: minha boca. Sim, porque ela também, junto com o meu inconsciente, é uma entidade à parte.

Mas também, sintam o meu drama. Meu pai fez 60 anos, comemorados neste fim de semana. Tem restos de festa pulando pra fora da geladeira. Só patês são 3; carne-louca, carne-louca de pernil de porco (divina, aliás, minha mãe é foda); pão sírio, pão italiano e algum filho da puta fez o favor de comprar um pão sovado enorme justo ontem; antepasto de beringela; o vinagrete da minha mãe, que é imbatível; e como se não bastasse, 3 sobremesas, bolo de morango, bolo de chocolate e manjar de coco!

Estão atentando contra a minha sanidade.

+

E por falar no meu inconsciente, tempos atrás falei pro desgraçado parar de me fazer sonhar com… o passado. Sabe o que ele fez agora? Me fez sonhar que eu estou sonhando. É, você entendeu: eu sonho que estou sonhando, eu sonho que estou sonhando com sorrisos cândidos, cafunés e cachos de cabelos de meses atrás, eu sonho que estou sonhando que estou… enfim, tudo muito presente, em alta definição e riqueza de detalhes, tudo de uma vez! As ondas, de novo as ondas. E eu que pensava que era só um livro de Virgínia Woolf.

Piada de mau gosto? Não, imagina. Sadismo mesmo.
Preciso explicar como os sentidos (ou a lembrança dos sentidos) me pegam?

Sonhei também que uns probleminhas aí da minha tia, por conta da doença, eram em decorrência de um câncer de esôfago — que ela não tem, este ela não tem — e por causa de uma… espinha de peixe?

Hein?! Espinha de peixe?! Vai tomar no cu, inconsciente!

Sobre minha tia, não, ela não está bem; e sim, estamos fazendo tudo ao nosso alcance, cada um segurando as pontas (e surtando) como pode. Dá pra imaginar?

E pra completar, sonhei que estava cantando um dueto com uma soprano que eu nunca vi, acompanhado por uma pianista que eu também nunca vi (com um chapéu verde ridículo, aliás) e que olhava pra mim como se eu estivesse cantando errado. Não estava. Eu estava lendo a música na partitura. Meu inconsciente teve o trabalho de COMPOR uma música, ESCREVER as duas vozes mais o piano e eu LIA, nota por nota da PARTITURA direitinho ali na minha mão, tanto que acordei com um trecho da música na cabeça — o som e a imagem do papel.

Tudo isso hoje pela manhã. É ou não é bizarro?

Pílulas

Andei publicando as fotos que estavam entaladas. Eu deixo acumular e daí morro de preguiça de escolher — e vamos todos fingir que não há nenhum outro motivo pra não querer revirar imagens do passado. Quem sabe agora eu me animo pra bater mais fotos interessantes. (Se bem que o interesse está no olho, não no objeto, todo mundo sabe disso; ou deveria.)

+

Não dá pra querer o que eu insisto em dar e dar e empurrar. Se dou tanto é porque não me faz falta, diriam. (É um bom argumento, a olhos alheios, embora minha lógica interna não vá bem por aí.) Mas abracemos a causa. Alguém fala isso pra mim umas 583 vezes? Eu repito, eu escuto, mas por que eu me recuso a aceitar?

+

Eu estou nadando muito bem. O único problema é que estou comendo melhor ainda. E como eu trouxe 2Kg de Porto Alegre junto comigo e tô achando que banha é investimento, digam adeus pros carboidratos e olá pras saladas, até segunda ordem. Repitam comigo: o iogurte diet é meu pastor e nada me faltará!

+

Se eu não topasse volta e meia com os mesmos quereres e carências a vida seria bem mais fácil. O engraçado é ter de ouvir dizer que “você tem que aprender a sofrer menos” como quem sugere que roupa te cai melhor. O duro é que é verdade.

É que eu sinto na pele e através; me dói a carne e eu não consigo ignorar.
E às vezes é como se desse um nó nos sentimentos que me amarram.
Mas uma hora eu aprendo. Ou morro. Não tem erro.

O sono dos justos

Agora, senhores, dormirei feliz e contente porque amanhã… ah, o amanhã… Amanhã eu não preciso sair de casa. Amanhã, minha gente, tudo o que eu preciso fazer, e nem é pouco, não exige que eu ultrapasse as fronteiras do meu bairro. Vocês têm idéia do que isso significa numa sexta-feira dessa cidade? Não pegar trânsito, não entrar num carro, num ônibus, nada! Eu sou uma pessoa abençoada.

SLURP!

Neste exato momento eu estou com uma cumbuca de doce de banana e laranja — feito por mamã — ainda quente na minha frente, observando uma colherada pornograficamente generosa de requeijão gelado se ajeitar bem ali no meio.

Calorias medidas em megatons. Regozijai-vos, ó, mortais!

Para as horas em que não há
e o quê não obedece o quando

…Óyeme con los ojos,
ya que están tan distantes los oídos,
y de ausentes enojos
en ecos, de mi pluma mis gemidos;
y ya que a ti no llega mi voz ruda,
óyeme sordo, pues me quejo muda…

Sentimientos de ausente
Sór Juana Inés de la Cruz,
freira mexicana do séc. XVII.