Marie me jogou esta batata quente e ainda me elevou a padrinho, pra dificultar a recusa — ela me conhece suficientemente bem pra saber que eu dificilmente iria seguir o esquema, mas enfim.
Seis coisas sobre mim? Dignas de nota? E aqui? Senão, vejamos…
(i) Eu carrego comigo doses cavalares de um eu racional e um eu emocional; na verdade, eu oscilo pelos dois universos que sou apenas eu, em busca de equilíbrio. Eles brigam feito cães famintos por um osso; eu sou o osso. Cada qual já teve sua época menor de florescimento, decaimento ou reflorescimento, e crescer me trouxe algumas camadas de concreto, mas eu lembro muito bem quando foi que eu finalmente comecei a atentar pra força, importância e necessidade de não bloquear o que eu sinto — e que é basicamente, livre de construções complexas, estruturas e conceitos estagnados; sou eu, o que eu sinto me define e eu sempre sinto tudo e me entrego com uma intensidade que poucos agüentam —, mesmo que isso pareça não ajudar. Foi quando eu saí da USP, do curso de Matemática Aplicada e fui de vez pra UNICAMP, estudar regência e depois, juntamente, canto. Parece óbvio, não? Não é. Aquilo foi decorrência de um grito interno de vida e não o contrário.
(ii) Eu tenho uma capacidade assustadora, mas não freqüente, de amar o amor amante (e o amor-amigo, de forma mais tranqüila). Digo assustadora porque ela geralmente se pauta no que eu vejo dentro das pessoas. E embora isso soe prentencioso, na verdade é estúpido. É assustador porque assusta, simples assim; assusta quem não quer ser visto com os meus olhos, não com esses olhos. Eu me apaixono nem sempre pelo que os outros têm de melhor, mas pelo que podem ter, só que pra mim eles têm; aí reside o dilema, além de ser uma percepção completamente abstrata e nem um pouco prática. Apaixonar-se pelo casulo porque dentro se vê a borboleta pode ser muito bonito, poeticamente, mas um casulo é sempre um casulo; ele existe pra separar a borboleta do resto do mundo e só tem uma força da natureza capaz de fazê-lo romper: a vontade da própria borboleta de sair. Tenho aprendido essa lição, acreditem, a mui duras penas. Acho que há um boa dose de intuição e poder empático aí, meio desconhecido e mal administrado.
(iii) Tirando as questões amorosas, eu sei ser extremante prático, pragmático, o que me facilita na hora de dar conselhos; sou o famoso ombro pra todas as horas e adoro ajudar, adoro ser útil. Isso já me fodeu a vida um bom tanto porque eu usei da minha grande solicitude como forma de não olhar pra mim; vesti uma capa, fui super-homem, um prato cheio pra uma auto-estima e um amor-próprio que já foram mais baixos que o nível do mar. Ainda adoro ajudar, tenho certa facilidade em me colocar na posição do outro, ainda sou muito bom em dar conselhos e desmascarar mecanismos de auto-sabotagem alheios — venho treinando muito com os meus —, mas, bicho, eu não sou idiota, passei muito longe disso, na verdade. Então, não vem dar uma de coitadinho ou santo pro meu lado porque eu não escolhi não ser psicólogo à toa — talvez hoje eu tivesse a lucidez, a imparcialidade necessária à tarefa, mas não tenho mais as cascas protetoras; tô fora!
Voltando, eu sou prático — o que não quer dizer que eu seja organizado — e odeio tudo que é estupidamente elaborado, projetado ou construído, desde aparelhos ou programas que ne-ces-si-tam de manuais que expliquem seu obscuro modus operandi, até pessoas e relações que preferem dificultar, complicar ou retorcer, ao invés de seguir em linha reta; o bom e velho modo direto-ao-ponto de ser.
(iv) Isso não significa que eu despreze a doçura, o carinho, o cuidado pelos sentimentos alheios. Muito pelo contrário, até por isso acredito que os sentimentos envolvidos são o que há de mais importante e carente de atenção — e quando os sentimentos ali vigentes não são do tipo que deveriam ser, então devem ser separados da questão. Eu acho que nada justifica a violência sentimental, assim como a física, mas a dor de um sentimento é em mim muito mais torturosa e penetrante que uma dor física. Sentimentos são a maior riqueza do ser humano.
Estamos todos sujeitos à cagadas, mas não há uma só pessoa próxima a mim por quem eu não valorize seus sentimentos; já cuidei muito deles, mesmo quando tropecei miseravelmente nas armadilhas que os nossos quereres nos armam. Tenho muita consciência disso e enquanto eu acho que vale o esforço, vou atrás.
(v) Eu sou extremamente argumentativo e um tanto prolixo quando preciso explicar ou defender alguma idéia — resumir vem sempre depois. Eu listo, eu ordeno, eu organizo o raciocínio de uma maneira dissertativa. Quando a questão não pode ser tratada cartesianamente, aí me rendo, sinto mais e penso menos — lembra do primeiro item? Isso é fruto, acho, de uma necessidade de não explicar nem justificar nada pela metade. Eu gosto de deixar claro, de não largar brechas; mais que uma necessidade de controle, é uma necessidade de clareza e perfeição.
(vi) Ah, sim, eu sou perfeccionista. Não existe meio torto; tá, ou não tá torto! Não é quase o mesmo tom; é, ou não é o mesmo tom! Operadores de xerox me irritam — por que eles são incapazes de alinhar, copiar e encadernar direito? Eu odeio serviço porco! Qualquer coisa que eu compre é minuciosamente avaliada, verificada, as costuras conferidas, os encaixes testados, os detalhes observados. É normal eu experimentar ou pedir pra ver outra peça do mesmo modelo, igual àquele, seja lá o que for, e se eu não faço tudo isso, volta e meia me arrependo depois. Eu nunca compro alguma coisa que é quase o que eu quero; se é quase, não é o que eu quero, não compro. Vivo num mundo de detalhes que compõem o todo.
E eu sou auto-crítico, isso é uma merda. Gosto de cantar, adoro vencer minhas limitações, mas odeio me ouvir cantando gravado porque nunca acho que tá bom.
Um tanto obsessivo compulsivo, acho que vem daí a minha vontade de tomar as rédeas das coisas; não é por competição, não é uma vontade de mandar pelo mandar, é querer ver tudo harmoniosa e perfeitamente acontecendo. Me tirassem a auto-crítica e eu seria um ditador num mundo perfeito (aos meus olhos). Utópico, ainda bem. Que graça teria fazer qualquer coisa que (ou viver onde) não tem mais pra onde crescer, que não se desenvolve, não se expande, não é diverso.
Amo a beleza em suas formas e manifestações físicas, abstratas e emocionais (que pra mim é concreto e abstrato), triviais ou não; me comovo com ela.
(vii) E como eu não vou indicar ninguém, vamos a uma sétima. Eu sou preguiçoso. É sim, eu nado (quase) todo dia porque isso me faz bem, mas eu gosto mesmo é de fazer coisas por vontades e impulsos. Tá, eu gosto de nadar, mas eu preferia ficar de pança pro ar em casa, comendo várias coisas gostosas e, quando me desse vontade de nadar, pedalar, caminhar, subir uma montanha, voar, qualquer coisa — no dia, no mês —, que eu estivesse plenamente em forma. Adoro aprender, mas detesto estudar; é sério, acho um saco, quero passar logo pra parte de saber. Mas adoro pensar, penso o tempo todo e resolver coisas é estimulante.
Isso deve estar ligado à maneira como as mudanças se dão em mim. Eu não tenho medo de mudanças, mas veja, elas têm pouco a ver com vontades. As mudanças me vêm lentas, nunca furtivas ou volúveis, elas não surgem, simplesmente; eu preciso entender e sentir a mudança, olhar pra ela, tê-la ali, vê-la em mim — o que não necessariamente garante que seja uma mudança pra melhor —, isso pode até ser mais rápido ou mais lento, mas é maturado. A partir daí a mudança está instaurada; pode levar um dia ou um ano, mais, mas eu caminho irrevogavelmente — contrariado ou não, reclamando ou não, feliz ou não — rumo ao novo.
Pronto. Tá bom assim?