Mamíferos

Dona mãe me apareceu do mercado com nada mais, nada menos do que 108 litros de leite, em 9 caixas: 1 de leite integral para a faixineira, 1 de leite integral para a casa dos netos-nora-filho e o resto aqui pra casa (1 de leite integral, 3 de leite semi-desnatado e 3 de leite desnatado). Porque o preço tava bom, ela disse.

Essa nossa intolerância à lactose é um problema.

Talvez outra hora

Faz tempo que eu penso num assunto e remoo, como bom ruminante que sou, algo que na verdade só me diz respeito: por que eu insisto? Na verdade, eu quero falar mesmo é de fidelidade.

Sete e sete são quatorze, com quais sete, vinte e um…

Madame pediu que eu sambe. Pra que discutir com Madame? ;)

Sete coisas que tenho que fazer antes de morrer:
1. Viajar o mundo; 2. Ter pelo menos uma casa minha, sem aluguel; 3. Reatar alguns laços e aprender a desencanar de outros; 4. Escrever e/ou fotografar a sério; 5. Ser (e fazer) alguém muito feliz; 6. Cantar e/ou reger mais; 7. Não salvar o mundo, mas um pedacinho que seja.

Sete coisas que mais gosto:
1. Amar; 2. Rir; 3. Comer; 4. Música; 5. Viajar; 6. Beijar; 7. Abraçar.

Sete prazerers fúteis:
1. Brinquedinhos tecnológicos; 2. Acessórios de qualidade; 3. Roupas; 4. Perfumes; 5. Comprar presentes (pra mim ou pros outros); 6. Um bom restaurante; 7. Um bom carro.

Sete coisas que mais digo:
1. Eita! (E sua variação: Eita porra!); 2. Vamos combinar? 3. Amore; 4. (Uma meia dúzia de palavrões, alguns bem cabeludos); 5. Então; 6. Beijo; 7. Amo você (obviamente, sempre, mas somente quando o contexto existe).

Sete coisas que faço bem:
1. Beijar; 2. Massagem; 3. Cuidar; 4. Ouvir; 5. Captar detalhes; 6. Lembrar; 7. Reger e cantar.

Sete coisas que não faço:
1. Fumar; 2. Usar drogas; 3. Brincar com o sentimento alheio; 4. Me envolver sem confiança; 5. Me envolver pela metade; 6. Matar bicho; 7. Não sei.

Sete coisas que me encantam:
1. Sorriso; 2. Brilho nos olhos; 3. Gentileza; 4. Devoção e lealdade; 5. Amor e carinho; 6. Música; 7. Natureza.

Sete coisas que eu odeio:
1. Miséria (qualquer uma, do bolso, da mente ou da alma); 2. Covardia; 3. Grosseira; 4. Deslealdade, traição; 5. Egoísmo, mesquinharia; 6. Indecisão; 7. Descuido.

Mais Sete:
1. Marie; 2. Gábis; 3. Luca; 4. Sheilinha; 5. Beth; 6. Ronaldo; 7. Guiu.

Que parada é essa?

Tanto se diz, tanto se fala; uns defendem, outros atacam. Há os que parecem querer repensar o próprio preconceito se justificando e dizendo que a pessoa pode ser o que bem entender, mas não precisa ficar alardeando aos quatro ventos — o famoso “seja, mas longe de mim”. Mas tem também os que não querem apenas ser, querem acontecer — de preferência perto dos primeiros.

Tem os que não gostam de se misturar porque têm medo, dos dois lados. E tem ainda os que gostam mesmo é da bagunça, querem festejar ou uma boa desculpa pra cair na vida.

Eu acho tudo uma bobagem, sabe? O importante mesmo é o que você tem na cabeça. Em dia de chuva, principalmente. :P

Porquê

“…Porque sim. Não vejo razão pra esmiuçar — embora razão não seja uma palavra adequada. Não é tudo que sai no Diário Oficial ou dá na TV e algumas coisas a gente só se dá conta quando o pretérito mais-que-perfeito vem pra alinhavar a barra surrada das nossas calças. Outras, quando a gente aprende a costurar ou bordar. E assim é a vida e a morte, Severino. Eu também cuido das duas.”

Esquizofrenia bachiana

Fecit Potentiam, do Magnificat, de Bach, para cinco cabeças e violino.
Erudição e diversão. Esse moleque é meu ídolo!

+

E agora eu faço que nem novela. Depois eu volto.

Trivial avariado (um título de inspiração escarlate)

Duas noites viradas em cinco dias e o fuso horário do meu sono foi cair em algum ponto perdido do Pacífico. Eu queria (mas não muito) ter que acordar logo cedo com o despertador todo dia porque tomar café-da-manhã na hora do almoço é foda!

+

Daí você acorda, abre o jornal e dá de cara com a seguinte pérola:

O PFL vivou bons e maus momentos. Guardamos as conquistas — ah, eu tenho certeza que sim! — e viramos a página. Estava na hora de passar o comando para a nova geração, para a busca do poder, que vai trazer oxigenação ao partido. (Jorge Bornhausen, presidente do PFL, que, a partir de hoje, passa a se chamar Democratas, ontem na Folha.)

Ou eu não acordei, ou perdi a piada. PFL, o partido dos coronéis, Democratas? Definitivamente eu deveria ter é continuado na cama!

+

E graças ao Itaú, um banco hiper moderno, super seguro, eu tive que ir pagar o cartão de crédito na agência. Tudo porque sem aquela porcaria do cartãozinho de segurança, você não faz praticamente nada. O único consolo é o ar-condicionado.

+

Mas eu nem ligo porque quem tem o livreiro mais lindo do mundo agora sou eu! :D

Só não tem nenhum livro ali ainda, mas isso é detalhe. E tem o outro armário também, que é um show. Eu tive que ouvir a piada infame, se eu ia voltar pro armário (sic). Too late, honey! O armário é grande, um espetáculo, lindo de morrer, mas eu prefiro o mundo. Preferia também ficar com a amiga que muda a ficar com os móveis dela, mas ela também prefere o mundo.

Vai ser feliz, amore! Você merece muito.
O cesto de estrela — onde você guardava flores — eu comprei pra lembrar de você.

Senso

Quem me lê por aqui muitas vezes se engana.
Ora, se eu mesmo já me engano tanto ao (tentar) me ler…

+

Tudo continua igual, embora nada mais seja o mesmo. A vida continua sendo feita de encontros e despedidas. E eu continuo sendo ótimo no primeiro e péssimo no segundo, internamente pelo menos. Aprender a encarar um fato não quer dizer que a gente goste dele, certo? Mas fato é fato e eu já tô farto de carregar tanta coisa.

Eu digo tchau, mas eu choro; ninguém tem nada a ver com isso.

+

Não que eu seja hermético ou goste de um drama — embora eu goste, faz parte do meu show —, mas é que eu gosto dessa coisa de tentar transformar emoção e sentimento em linguagem. Sei lá, esse exercício me ajuda quando eu não sei bem o que sinto; o que, pra alguém assim como eu, causa um estrago considerável.

Tá, se eu simplesmente sentisse e ficasse na minha, provavelmente arranjaria menos problemas, digamos, interpessoais. Mas eu prefiro sentir alguma coisa do que não sentir nada. Sentir nada é como aquele frio que cobertor algum esquenta.

Quando não se pode mais dizer o que se sente é porque alguma coisa tá errada.

Murphy cagô ni mim

Foi assim. Primeiro a fonte do micro velho fez “PÓF!”. Na verdade, primeiro o no-break se suicidou-se por si só e sozinho; não ligou mais. Daí sim, eu fui ligar o micro no estabilizador e a fonte fez “PÓF!”. Quer dizer, ela teve um ataque epilético antes — como dileto filho de engenheiro, eu sei que fontes elétricas com ataques epiléticos não são legais. E “PÓF!”. Daí eu resolvi parar de adiar a compra do micro novo e meti a mão com fé no bolso — há dois anos o outro era velho, avalie agora. E tô feliz aqui com o super brinquedo novo. E pobre. Mas eu descobri que o meu outro HD — o de arquivos pessoais, claro, nunca o de sistema, que não faria falta — também fez “PÓF!”, e eu estou sofrendo. Mas passa. Paciência.

Então eu tô assim: feliz, triste… e pobre, de marré, marré, marré.
Agora, Murphy, vê se vai cagar em outra freguesia, ok?

(des)igualmente

Equinócio
substantivo masculino
1   Rubrica: astronomia.
    cada uma das duas interseções do círculo da eclíptica com o do equador celeste
Ex.: <e. da primavera> <e. do outono>
2   Rubrica: astronomia.
    momento em que o Sol, em seu movimento anual aparente, corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração
3   Rubrica: astronomia.
    cada uma das duas épocas em que ocorre o equinócio (acp. 2)
4   Derivação: por extensão de sentido.
    série de temporais que ocorrem em determinadas regiões quando se aproximam as épocas dos equinócios da primavera e do outono

Etimologia
lat. aequinoctìum,ìi ‘igualdade dos dias e das noites, equinócio’; ver eqü- ou equ- e noct(i/o)-; f.hist. sXV equinoccyo, sXVI equinocios

+

Engana-se quem diz, pensa ou mesmo espera que o dia possa enfim ser igual à noite. E vice-versa. Ambos são inigualáveis e, por isso mesmo, inseparavelmente complementares. Somente assim podem coexistir e, portanto, não se destruir no próprio conceito: para que um (res)surja, eis do outro a desistência. A suprema redenção de quem se entrega não à superioridade da essência alheia (nem à sua própria divina eternidade), mas ama sua mera existência; equilíbrio que dá à luz a harmonia. Da mesma forma existimos. E eu amo a nossa incomparável diferença.

Dislexia seletiva

Passou o banner pelos meus olhos e eu li: “Aulas de conservação particulares”.

Entre uma coisa e outra eu logo pensei que, puxa vida, conservação, é disso mesmo que eu ando precisando. Dois minutos depois, veio o clique: como assim, conservação? Voltei lá e li de novo: “Aulas de con-ver-sa-ção particulares”.

É o meu inconsciente, o engraçadinho. Nem espera mais eu dormir pra dar recado.

A vida é como um rio

Um sábado… tranqüilo. É, é isso. Hoje não tá sol, não tá calor, nem tá frio; parece que vai chover, mas sem muita fé. E eu me sinto como se tempo e vida estivessem simplesmente olhando as nuvens. Uma sensação de que muito pouco é preciso. Um dia de baixa ansiedade. Sem grandes desejos ou expectativas. Amém!

Um amigo que liga. Outro que não está; tudo bem, não é urgente. Meu pensamento não consegue se alongar no que os outros podem estar fazendo. Eu estou aqui e aqui tá tão bom. Sábado de pés pra cima, todos os pés: do chão, do peito e da cabeça. E por falar em ansiedade, deveria ser possível engarrafar a química cerebral desses momentos pra quando aqueles outros momentos, você sabe, pra quando a gente se tortura, geralmente à toa ou sem necessidade. Carência, é.

Penso em sair, mas não há nada assim de tão especial nas ruas da cidade ou mais especial do que nas ruas do livro que leio. Vários CDs que não ouço faz tempo — há quanto tempo que eu não ouço Lokua Kanza ou Madredeus? O cunhado toca hoje: Saxomania. Jazz. Música sem voz, ou melhor, outra voz. Um aniversário à noite.

É, talvez.

A vida é como um rio, diz a música.
E o meu virou, segue o seu curso, lento, como sempre foi.

Guess what

Foda não é quando a gente não entendeu nada.
O problema mesmo é quando a gente acha que entendeu tudo.

(Falta de) Comunicação é uma merda!

Anecóico

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”

Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
“Migo!”
(O Eco, Cecília Meireles)

Pra onde vai meu som quando o eco some?

A vida imita a arte, ou quase

Tá rolando no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro, uma série de concertos entitulada Uma Temática Poética do Lied. Pra quem não sabe, “lied” em alemão quer dizer “canção”, literalmente. E na música o termo é usado pra descrever mais especificamente o gênero de música vocal camerística que surgiu na alemanha no final do século XVIII. Enfim, canção alemã e não se fala mais nisso.

Mas não era isso que eu queria dizer. A mostra usa o termo de forma ampliada, englobando outros períodos, outras nacionalidades e agrupa os concertos de forma temática: Religião, Amor, Morte, Erotismo e Exotismo, Humor, Natureza.

Nesta última terça, quando o tema foi Morte, um senhor de lá seus 1567 anos, por baixo, assistia ao concerto. Quer dizer, isso quando sua crise de tosse tuberculosa deixava. Parecia que o velho ia morrer ali mesmo! Eu poderia e provavelmente teria ficado puto com a falta de noção do primo de Matusalém, mas não. Ao invés disso, fiquei pensando e segurando o riso: que pena que eu perdi o de Erotismo!…

É preciso

“Perto de muita água, tudo é feliz”
(Guimarães Rosa)

É por isso que eu nado.

Ah, é, tem o chocolate também.
E o sexo, mas na academia não pode, nem vende no supermercado.

Até que a morte os separe

Cantar em casamentos tem suas curiosidades. Uma delas é a excentricidade do repertório — mais conhecida como absoluta falta de noção dos noivos. Como é que alguém escolhe Changes, do Black Sabbath, como cumprimento dos padrinhos?

“I feel unhappy / I feel so sad / I’ve lost the best friend / That I ever had
She was my woman / I loved her so / But it’s too late now / I’ve let her go…”

Coitada da noiva… Mas também ela entrou com Carruagens de Fogo, merece.

+

É, cantei. O quê, também sei dar meus “berros”!
Ninguém nem diz que eu sou um tenor lírico-ligeiro.

Batuque

eu cheguei vestido de rei
quem me chamou

eu cheguei vestido de rei
mutalambô

eu vi que o vento zuniu
eu vi que a folha caiu
eu vi que relampeou
eu vi que a mata rompeu
eu vi que a flecha correu
eu vi que a porta bateu
chegou meu pai caçador

é o dono do matagal
é o guardião do embornal
é o chefe da guarnição
ele é da casa real
ele é quem briga com o mal
ele é o meu capitão

(Capitão, Pinheiro / Barreto)

Pinico vermelho

Hoje alguém me disse que o digníssimo senhor presidente dos isteites — aquela aberração — vai trazer na bagagem tudo, absolutamente t-u-d-o que for consumir, desde a água até o papel higiênico, quando estiver em terra brasilis. Eu acho ótimo! Pelo menos a gente não precisa se preocupar com o contágio; o nosso, claro.

Deus soube o que fez quando não me fez parar no Itamaraty. Era bem capaz de eu emitir uma pequena nota, pedindo educadamente ao digníssimo senhor presidente — aquela aberração, eu já disse? — que fizesse a gentileza de levar o seu cocô embora também. É o princípio da bilateralidade: não comeu daqui, não caga aqui.

Argonauta

[O barco
Meu coração não agüenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia
O marco
Meu coração
O porto
Não…
]

Anda difícil falar de mim — não propriamente o “falar”, mas o “mim”. É que às vezes (e mais ultimamente) acontece de eu não conseguir me ver como alguém e fico com a sensação de que sou um processo. E pra pôr isso em palavras? É como se eu fosse… se eu fosse apenas, se eu existisse porque um instante existe e precisa ser observado; passado o instante, eu poderia desaparecer por completo, sem prejuízo ou fardo. Mas eu permaneço, esta é a grande questão. Por quê?

Transformar-me no instante, ser não o que observa, mas o que pode ser observado é que anda sendo o problema; quando não é uma via é a outra que me escapa. Todo esse sentimento de não-relação e, no entanto, permanência, acaba comigo.

+

Navegar é preciso. Mas e viver? Do que se vive?

[…O barco
Noite no céu tão bonito
Sorriso alto, perdido
Horizonte madrugada
O riso
O arco
Da madrugada
O porto
Nada…]

Você vê, o problema são as cores. Quando eu era pequeno, aprendi a fazer desenhos ultra coloridos. Nenhum desenho era suficientemente bom se eu não usasse todos os lápis de cor que eu tivesse na mão. Considerando que havia aquelas maravilhosas caixas de 36 cores — pequenas até, se for pra pensar nos seus primos ricos, os estojos de lata importados com mais cores que o infinito de uma criança —, você pode imaginar que eu já não queria pouco. Mas daí que eu fui perdendo os lápis um a um e agora falta cor; falta cór. Crescer não foi o problema, mas hoje eu quero mais que preto-e-branco a ando meio sem saber como.

+

Algumas pessoas me fazem falta, confesso. Poucas. E por algumas outras, poucas ainda, eu tenho um desejozinho semi-inconfesso de que fizessem; só que não, não fazem. Mas desejo é desejo, e eu sigo sentindo ele pulsar, às vezes mais em cima, às vezes mais embaixo, só me perguntando quando é que ele vai parar de se enroscar nos meus pés — ou eu vou parar de enroscar meus pés nele, pra ser mais justo. Sem perder as cores, por favor; as cores são o mais importante.

[…Navegar é preciso
Viver
Não é preciso…]

Eu digo não. Eu digo (aliás, já disse): Navegar. É preciso viver, não é? Preciso.
Já que é pra pontuar, que se pontue direito. Sejamos claros.

+

Pedir desculpa é um vício, você sabe.
O que sai da boca é imperfeito. O que sai dos olhos, não.

+

E no mais a mais, eu meio que cansei de ligar pros outros — do verbo telefonar, mas o outro é bem adequado a alguns casos. Quando você vê que o número de ligações que você faz (ou o tempo) é quatro vezes maior do que das que você recebe, convenhamos, tem algo errado aí. É que eu não gasto mais por isso, mas também não acho que os dois verbos sejam assim tão diferentes; na verdade, podem ser incomodamente similares. Quando a gente liga demais, ligam de menos. E o inverso nem por isso é verdade. É triste. É fato. E cansa. Porém, liberta.

+

Meu velocino não é de ouro, mas minha nau é grande e enfrenta o mar aberto.

+

Ladrão que rouba ladrão… não pensou numa frase menos óbvia:

Gosto
Beijo e abraço; massagem; ver, ouvir e sentir.

Não gosto
Da dor; do descuido; da traição.

Tenho facilidade
Pra percepções íntimas; pra raciocínios lógicos; pra verbalizar as coisas.

Tenho dificuldade
Pra me desvencilhar de sentimentos e do que não está nas minhas mãos; pra me livrar de velhos hábitos; pra esquecer (o que não tem nada a ver com perdoar).

O que ninguém imagina
Que eu sou feito muito mais do que eu sinto que do que eu penso; que eu sonho o dia inteiro; que eu luto todo dia pra me equilibrar na borda de um buraco escuro e sobre esse buraco eu quero desenhar uma ponte colorida, porque ele existe, em todo mundo, mas eu não tô a fim de entrar nele, não.

Nomes do meu deus
Só deus sabe… Mãe? Pai? Eu?

[…O barco
O automóvel brilhante
O trilho solto, barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue
O charco
Barulho lento
O porto
Silêncio]

(Caetano)

Farofa de miúdos

É difícil dizer com certeza:
Impossível versar com leveza
Quando alegrias e tristezas
Afogam-se no mesmo refogado.

Lovely poem

Oh, bright white moon
Like a sharp teeth are thee
Desperatingly damn full
Why do you fucking mock me?

+

Eu tô de mal com a lua cheia. Me deixa!

Uma bola fora, uma bola dentro

Sensível a vibração das pessoas em torno, mais inclinado a se emocionar e se ligar aos problemas alheios, você está suscetível a compartilhar sentimentos. Mas deverá ter cuidado para não extrapolar, e esquecer de si. Cuide da alimentação, mantenha uma rotina com qualidade. Seja bondoso consigo também. (Folha)

Só porque essa joça se redimiu do delírio de ontem.
É vero. Não que facilite a minha vida, veja bem…

Ok, deu. Alguém me dá um assunto?

Hein?

Sua regente Vênus passa a transitar Áries, sinalizando a impetuosidade que tende a reinar nas trocas amorosas. Por falta de paciência, muito caso de amor deixou de acontecer! Da mesma forma, por egoísmo na busca de prazeres. Seja generoso! Sensibilidade e fragilidade orgânica, cuide-se bem hoje. (Folha)

É piada? You gotta be kidding!

Noturnæ

Dez pras duas eu passo pela Estação da Luz. Que ironia! Justo eu que tenho me achado tão pouco iluminado e dado à condição observadora do olhar acomodado na penumbra. Há um desvio no caminho. É sempre assim: eu me perco no centro. Quase como se eu não agüentasse ficar tanto tempo dentro de mim; e o mergulho me faz falta, assim como o mar e as águas que o alimentam. Duas e pouco estou em casa. Você vê: não é só o tempo, eu também sei voar. Mas pra onde?

Let me diet (Ou: Que se dane!)

Na dica de hoje: Como comer um pastel sem culpa?

Pegue sua bicicleta. Saia da sua casinha — desde que ela fique pra frente do aeroporto. Pedale até a feirinha da Benedito Calixto, passando antes pelo Ibirapuera. Coma o seu pastel — o caldo de cana é opcional. Volte.

Peixes fora do aquário

Meus amores piscianos, digam pra mim: o que se passa?

Falamos com alguns amigos hoje, eu e uma amiga, e cinco eram piscianos. Ok. TODOS, sem excessão, estavam macambúzios. Sabe assim, amuados, reclusos, taciturnos, entraram dentro da concha e jogaram a chave fora? Não queriam sair, não queriam tomar café, não queriam ver, não queriam saber, não queriam nada.

O comportamento de cardume é algo assim tão arraigado no signo que vocês decidiram em assembléia que todos iam arder no inferno astral? Oxe!

+

Ok, foi só uma curiosidade. Pura retórica.

“Este número de telefone não existe…”

Aparentemente, com a mudança pra nova hospedagem, o script pra envio de mensagens, ali em contato, parou de funcionar. Uma incompatibilidade de versão do servidor de PHP. Mas como eu sou sabidamente um ás em PHP já resolvi o problema: botei o servidor na versão antiga que eu não vou mexer nesse script nem fodendo bem gostoso. E assim há de ficar, ad saecula saeculorum, amen!

Se você tentou me mandar uma mensagem e não recebeu resposta é porque provavelmente ela não foi enviada. Ou não, como diria Caetano.

* E se alguém quiser atualizar o script pra que rode em PHP 5.1.2, faço gosto.

Mulheres entendem de carro

— Agui! — Agui é o senhor meu pai. — Comprei um Passat 2003!
— Ãhn? Dudu — é uma senhora amiga da família, tipo uma avó postiça —, não tem Passat 2003, só o importado alemão, quase uma BMW!
— Ah, eu só sei que é da Fiat e começa com “P”.
— Então tá, você comprou um Palio!
— Isso!

Pequenos pedaços de um coração cheio de sangue

Vamos lá, mais uma dose de pouco sentido.

+

Eu lembro de você em detalhes incrivelmente intensos e, às vezes, dolorosos. Não pelo que poderia ter sido — tudo foi o que poderia ser, tanto que foi —, mas pelo que foi, exatamente; pelo que (me) significou, pelo que eu senti, pelo que eu sou.

Desculpe, mas isso não tem mais nada a ver com você. O protagonista daqui onde vejo sou eu, você saiu do enredo faz tempo; eu que continuo a narrar as horas que pingam dia a dia, como uma torneira sobre uma pilha de pratos sujos na pia.

E há as profundas e delicadas alegrias. Teus olhos luminosos, tuas mãos, teu ar desconsolado. Teu verbo, tua preguiça, teu adormecer enquanto eu falo. Teu jeito de criança (teu amor ainda criança, tão carente e inseguro), teu toque, teu beijo. Teu perfil, teus lábios, teu carinho, tua inesperada volúpia. Meu sorriso.

Você tem vários rostos, alguns nomes, diferentes amores. E eu não sei mais quem é você. Aconteceu de eu te conhecer e às vezes eu até te re-conheço. Mas resisto à tentação — e ela às vezes é tão forte! — de te procurar onde o tempo não existe mais. Eu te procuro em mim, tento te entender em mim e te procuro, assim, sem querer procurar, ali adiante, quando não te conheço, onde não sei se te encontro.

+

Eu acreditei que você existia. E acreditando que você existia te conheci sem perceber que você existia, antes de mais nada, dentro de mim. Às vezes criei você. Ou melhor, eu te construí a partir de você mesmo. Te procurando, me perdi; me procurando, achei você. E você foi pra mim como só pra mim poderia ter sido. Porque só deus sabe o como e quando e quanto eu amei você. Divinamente.

Não sei se me acostumo com essa solidão de existir. Mas agora que eu existo — por que antes eu não existia, percebe? sem você eu não existia —, você vai ter que ser e existir por conta própria. E se você não existir, ora, então eu vou ter que arcar com a dor, a decepção, ou seja lá o que for, da tua inexistência. E olha, não é fácil.

Mas se você existir, coração, eu espero te encontrar em um desses momentos onde o tempo esquece de existir e o peito repete, insistentemente, o mesmo compasso.

Vento

Bê-i-cê-i-cê-ele-ê-tê-á,
Sou sua amiga bicicleta…

Update — YouTube’s back

Fogo de palha, como era de se esperar.
Este país não é sério, é? Palhaçada.

+

Ah, sim, quer dizer que quem moveu o processo foi o namorado?
Então retirem-se as maldições outrora rogadas à furunfadora.

Viram como eu sou magnânimo? :P

Vai tomar no cu, filha!

Os fofos ficam furunfando em areias pú-bli-cas espanholas e ainda conseguem na justiça a proibição do acesso ao YouTube NO BRASIL INTEIRO através dos provedores de internet, que foram obrigados a bloquear o conteúdo.

Que lindo, eu moro num país de alguma didatura fundamentalista e nem sabia.

+

Aos geeks de plantão. Eu tenho um domínio e uma hospedagem (linux, Debian) registrados fora do Brasil. Se alguém me der uma maneira de burlar o bloqueio eu prometo liberar o endereço http://youtube.cantorum.com enquanto essa decisão judicial não cair — o que deve ser logo; o que tem na cabeça desse juiz, merda? — ou enquanto não comprometer a minha banda (4Tb, veja bem) ou uso de CPU.

+

E por favor, quem tiver o vídeo — que eu nunca vi, nem me interessa — faça a gentileza de disponibilizá-lo em TODO E QUALQUER lugar. Eu quero ver quantas ordens judiciais a boca-de-sapo consegue. Que decadência, né, minha gente?

+

Melhor, porque vai que é isso mesmo que ela quer.
Eu espero que a bunda dela caia e os peitos fiquem muxibinhas. :P

+

Pronto. Passou e eu sou só paz-e-amor novamente. =)

Fever

Já é 2007? Pois muito bem, já é 2007, quem diria.

E eu te desejo uma febre. Daquelas que talvez te pegue desprevinido; por dentro, tão quente que por pouco não te atente o juizo, arda, em chamas te consuma e te transforme.

Como? Aí é contigo.

E uma musiquinha, porque esse troço é bom demais.

Pequeno concerto que virou canção

Não, não há por que mentir ou esconder
A dor que foi maior do que é capaz meu coração
Não, nem há por que seguir cantando só para explicar
Não vai nunca entender de amor quem nunca soube amar
Ah, eu vou voltar pra mim
Seguir sozinho assim
Até me consumir ou consumir toda essa dor
Até sentir de novo o coração capaz de amor
(Geraldo Vandré)

Porque ninguém mais tem a minha sorte.
Ninguém tem uma mãe que canta tão gravemente a dor de corredores vazios.
Sem alarde, assim a voz adentra o quarto.
Eu sei quando ela canta e ri, eu sei quando ela canta e chora.
Minha mãe. Ninguém mais tem a minha sorte.

A forca

Sou só eu ou mais alguém sentiu um cheiro de queima de arquivo no ar.

O que me espanta não é a velocidade e o afinco com que duas das maiores potências ocidentais, mãe e filha, por sinal, se empenharam na luta contra o terrorismo, em prol da democracia (sic) e o caralho de rodas. O que me espanta mesmo é a estupidez política. Primeiro, financiam um ditador porque o islamismo está dando problemas — entenda-se: petróleo. Segundo, quando o ditador está bem gordinho e resolve botar as manguinhas de fora — entenda-se: petróleo —, temos uma baita guerra no deserto. Depois, temos toda essa encenação, motivos escusos, invasão arbitrária — contra a opinião política mundial, Direitos Humanos, etc. —, enfim, pegam o cara e jogam a maior lenha na fogueira, com ele em cima. E agora, depois de um tribunalzinho bem duvidoso, enforcam. Tchau, Saddam.

Nem tudo que deveria foi apurado, mas tudo bem, o cara morreu, acabou o problema. A única coisa que pode acontecer, sei lá, que bobagem, é o ditador virar mártir de algum grupo fanático. Mas se preocupar pra quê? O que eles podem fazer? Invadir alguma boa e democrática nação ocidental e explodir algum par de prédios? Nem armas de destruição em massa eles têm! Ou têm? Bom, aí fodeu, né? Porque derrubar um ditador é fácil, mas derrubar um mito, enterrar um mártir?

Muito bem, Flipper!

XXX

Meus sonhos andam tão pornográficos que me dão até medo.
Tá foda! Daqui a pouco eu acordo preso por atentado ao pudor onírico.

Agnus Dei

Foi entre uma garfada e outra da noite de Natal que entendi o que queria dizer comer o corpo de Cristo. Sempre achei estranho, pra não dizer, no mínimo, antropofágico. Ainda que as raízes da igreja católica estejam fortemente fincadas em ritos e comemorações pagãs — eles fingem que não; os mais fervorosos, quando muito ignorantes ou hipócritas, se ofendem, acham um absurdo, mas é histórico, não tem como negar —, ainda que não seja incomum o hábito tribal de comer o corpo do inimigo pra se apropriar de sua força, ainda assim, não parece um tanto bizarro comer o corpo e beber o sangue do seu salvador?

Foi pensando nisso e pensando em mim que entendi essa necessidade devoradora. Tudo aquilo e todos aqueles que nos tocam e nos transformam precisa ser devorado e transmutado pra que possamos transcender, seguir, o que seja. O sentimento pela imersão, pela absorção. Olhando pra trás, penso que nunca fui capaz de sentir alheio, distante, de fora. E sentindo, nunca pude negar. A absorção, a desconstrução (diferente da destruição) sempre como forma de transposição.

Mas por que essa necessidade? De onde vem essa gana de sacrifício? Milhões de altares, de entregas, de medos transformados em culpa, de culpas transformadas em oferta, expiando, purificando. Do que, meu deus, do que nós estamos nos salvando? Ou melhor, de quem? De nós? Devoramos o outro porque não podemos devorar a nós mesmos? Trazemos o outro pra dentro de nós na esperança de que ele nos traga um pouco de divindade, uma divindade que não é nossa, externa, exposta. Será que o eu-deus não se basta? E será que entregamos o que há de santo em nós? Damos a nós mesmos em banquete. Será que há troca?

Não. Pensando bem, nem eu entendo isso direito. Mas agora, me parece, não teria opção, a não ser, é claro, fugir da experiência. E de que adiantaria? Devorei cada pedaço de você e cada momento; cada membro, cada sonho, cada gesto; bebi lágrima, sangue e suor. Eu te comi. E espero que você tenha feito o mesmo. Você, que me viu passar, que trombou comigo, que não pôde ou não quis evitar, espero que tenha me devorado, digerido e transformado. E assim feito livre. Se eu fui cruz, se eu fui luz ou se fui espada, devora-me agora! E assim eu te transformo (tu me transforma). Pois é essa a nossa única salvação. Isso é a única coisa que importa.

Danado

Vontade danada
De fechar meus olhos nos teus
E calar minha boca na tua

Alecrim, alecrim dourado

Dos vários presentinhos do meu amigo secreto, o melhor foi o próprio.
Só não foi muito secreto; é difícil se esconder de quem te conhece bem.

Quântico

De repente quis falar de amor. E então vi que não fazia sentido falar do que não existe. — Como assim?! — diriam vocês. E eu repito: o amor não existe. Não se pode pegar o amor, gravar o amor, fotografar o amor. Não se pode provar com certeza absoluta que o amor existe. Eu me sinto como um físico de partículas: rastreando e tentando mapear diminutos pedaços de quase nada que quando você olha não estão mais ali; um fóton que quando capturado desaparece.

O amor não existe, ele acontece. Então por que falar dele? Ele acontece. O amor é um evento, um movimento, um déjà vu de um déjà vu de um déjà vu… do que mesmo? Quando você vê, já foi. Você sorriu, suspirou, virou pro lado e nem se deu conta, mas ele aconteceu. Você acha que viu, acha até que… Cara, eu podia jurar que estava ali. Você viu? Logo ali, faz um segundo! É, eu achei que sim. Curioso.

Com essa certeza n’alma, desisti de caçar borboletas no sótão.
Só pra depois mudar de idéia, que isso não faz o menor sentido.

Colo

Você sabe que a pessoa tem uma lua (cheia, redonda e fora de curso) em câncer quando, ao se sentir carente, o mundo escuro, meio sem sentido, meio desbotado, deita e se enrola no edredom, sonhando com um abraço de meia hora. E funciona.

Ok, inconsciente amigo, até que você foi camarada.