[O barco
Meu coração não agüenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia
O marco
Meu coração
O porto
Não…]
Anda difícil falar de mim — não propriamente o “falar”, mas o “mim”. É que às vezes (e mais ultimamente) acontece de eu não conseguir me ver como alguém e fico com a sensação de que sou um processo. E pra pôr isso em palavras? É como se eu fosse… se eu fosse apenas, se eu existisse porque um instante existe e precisa ser observado; passado o instante, eu poderia desaparecer por completo, sem prejuízo ou fardo. Mas eu permaneço, esta é a grande questão. Por quê?
Transformar-me no instante, ser não o que observa, mas o que pode ser observado é que anda sendo o problema; quando não é uma via é a outra que me escapa. Todo esse sentimento de não-relação e, no entanto, permanência, acaba comigo.
+
Navegar é preciso. Mas e viver? Do que se vive?
[…O barco
Noite no céu tão bonito
Sorriso alto, perdido
Horizonte madrugada
O riso
O arco
Da madrugada
O porto
Nada…]
Você vê, o problema são as cores. Quando eu era pequeno, aprendi a fazer desenhos ultra coloridos. Nenhum desenho era suficientemente bom se eu não usasse todos os lápis de cor que eu tivesse na mão. Considerando que havia aquelas maravilhosas caixas de 36 cores — pequenas até, se for pra pensar nos seus primos ricos, os estojos de lata importados com mais cores que o infinito de uma criança —, você pode imaginar que eu já não queria pouco. Mas daí que eu fui perdendo os lápis um a um e agora falta cor; falta cór. Crescer não foi o problema, mas hoje eu quero mais que preto-e-branco a ando meio sem saber como.
+
Algumas pessoas me fazem falta, confesso. Poucas. E por algumas outras, poucas ainda, eu tenho um desejozinho semi-inconfesso de que fizessem; só que não, não fazem. Mas desejo é desejo, e eu sigo sentindo ele pulsar, às vezes mais em cima, às vezes mais embaixo, só me perguntando quando é que ele vai parar de se enroscar nos meus pés — ou eu vou parar de enroscar meus pés nele, pra ser mais justo. Sem perder as cores, por favor; as cores são o mais importante.
[…Navegar é preciso
Viver
Não é preciso…]
Eu digo não. Eu digo (aliás, já disse): Navegar. É preciso viver, não é? Preciso.
Já que é pra pontuar, que se pontue direito. Sejamos claros.
+
Pedir desculpa é um vício, você sabe.
O que sai da boca é imperfeito. O que sai dos olhos, não.
+
E no mais a mais, eu meio que cansei de ligar pros outros — do verbo telefonar, mas o outro é bem adequado a alguns casos. Quando você vê que o número de ligações que você faz (ou o tempo) é quatro vezes maior do que das que você recebe, convenhamos, tem algo errado aí. É que eu não gasto mais por isso, mas também não acho que os dois verbos sejam assim tão diferentes; na verdade, podem ser incomodamente similares. Quando a gente liga demais, ligam de menos. E o inverso nem por isso é verdade. É triste. É fato. E cansa. Porém, liberta.
+
Meu velocino não é de ouro, mas minha nau é grande e enfrenta o mar aberto.
+
Ladrão que rouba ladrão… não pensou numa frase menos óbvia:
Gosto
Beijo e abraço; massagem; ver, ouvir e sentir.
Não gosto
Da dor; do descuido; da traição.
Tenho facilidade
Pra percepções íntimas; pra raciocínios lógicos; pra verbalizar as coisas.
Tenho dificuldade
Pra me desvencilhar de sentimentos e do que não está nas minhas mãos; pra me livrar de velhos hábitos; pra esquecer (o que não tem nada a ver com perdoar).
O que ninguém imagina
Que eu sou feito muito mais do que eu sinto que do que eu penso; que eu sonho o dia inteiro; que eu luto todo dia pra me equilibrar na borda de um buraco escuro e sobre esse buraco eu quero desenhar uma ponte colorida, porque ele existe, em todo mundo, mas eu não tô a fim de entrar nele, não.
Nomes do meu deus
Só deus sabe… Mãe? Pai? Eu?
[…O barco
O automóvel brilhante
O trilho solto, barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue
O charco
Barulho lento
O porto
Silêncio]
(Caetano)