Missiva

Hoje senti sua falta, daquele jeito resiliente, que resiste a uma caminhada, dois copos de cerveja, faxina e arrumação de armário. Foi quando desci a rua e a tarde caía. Fazia um calor modorrento e o céu parecia pintado de um azul improvável, com uma lua pendurada, rindo insolente. Tanto lembrei de outras luas, já sem rostos, que senti minhas mãos vazias. Mercedes cantava nos meus ouvidos e eu ensaiava alguns passos, alheio, para não cair em mim.

De repente, me senti pequeno e inútil. É sempre assim quando acontece, me torno miúdo, quieto, melancólico. Sei das peças que eu mesmo prego em mim — essa é uma delas, antigo sucesso dos palcos; hoje é só reprise. Já não me aborreço porque sei que passa depois de uma boa noite de sono, geralmente. Então faço como os livros do móvel da sala: empilho-os no chão para que cada história escolha seu caminho e os devolva cada um ao seu devido lugar. Tiro coisas e troco de lugar, bagunço tentando me organizar. E então durmo com a mão no peito, procurando um papel para você na minha vida.

Eu só queria que você soubesse.

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