Apesar da piada ter vindo rápida — eu sei, péssima; não sei o que acontece com os meus neurônios vez em quando —, depois de um fim de semana brilhante, receber a notícia do incêndio que consumiu o Teatro Cultura Artística foi um choque sem precedentes pra mim. Talvez porque eu passe pela sua frente dia sim, dia não, talvez porque uma boa parte dos concertos e recitais memoráveis aos quais eu tive o privilégio de assistir aconteceram no seu grande palco e, com certeza, porque São Paulo perde, pelo menos por enquanto, um de seus oásis.
No entanto, o fato do painel que coroa sua fachada e, com alguma sorte, o acervo fonográfico do teatro terem sido poupados traz alguma misericórdia à tragédia. E digo misericórdia porque me chamou a atenção para a impermanência das coisas, natureza também das artes performáticas. Cada nota ali tocada ou cantada só existiu no momento em que soou. Felizes os que as ouviram. Seu registro, embora muito afortunado, é mero espectro da música que ali teve origem.
Estou fazendo drama, diriam. Eu digo que não. Sem querer desmerecer o silêncio — até porque do silêncio nasce o som, da meditação nasce a idéia, do repouso nasce o movimento —, acredito que cada oportunidade perdida de se expressar é uma possível experiência artística perdida. E pessoalmente, cada afeto contido, cada gesto abortado, cada palavra negada é um pedaço de vida não vivido.
Portanto, o teatro é mais que sua estrutura soçobrada e que, acredito, será reconstruída. O Teatro Cultura Artística é um símbolo e abrigo da excelência artística possível. Seu palco é o conjunto dos pés que ali pisaram; sua platéia, a soma de mil sentidos.