“Yo no buscaba a nadie y te vi…”

— Fica aqui — ele disse.

E por um segundo eu juro que pensei em ficar e ganhar a vida cantando no metrô portenho. Um segundo… Um segundo que pareceu minuto, hora, enquanto eu me perdia naqueles olhos castanhos como os meus, enamorados como os meus. E enquanto os dias passavam, brincávamos de possível no impossível e escondíamos momentos de felicidade nos bolsos das calças para serem encontrados pela manhã.

Tanta doçura, tanta que o vento das madrugadas geladas não era capaz de cortar. O que me cortou foram os fios de lágrimas escorrendo de sua face devota. O que me cortou foram seus olhos me pedindo para ficar, enquanto sua boca pedia, tão gentil e urgentemente, para que eu me fosse antes do fim, antes dos outros:

— Eu não quero ver você entrar naquele táxi e ir embora — ele disse.

Mas ele disse tantas outras coisas, sem ter de usar uma única palavra. Meus dias foram pintados de azul; minhas noites, carmins. Foi na pele que eu aprendi um pouco de espanhol; na dele. Buenos Aires agora carrega uma outra beleza e eu já não sei como não voltar àquele porto. E por mais isolados e irreproduzíveis que por ora sejam, foram dias de doce abandono e intenso resgate. Queria lembrar também daquela outra música, que a despedida e seu universo tão restrito em nós abafou. Mas eu me lembro de você e isso basta — mentira!

As lágrimas que eu beijei foram as mesmas lágrimas que eu trouxe e depositei aqui; foram as tuas que me trouxeram as minhas de onde elas não conseguiam vir. Isso e uma música que fica para sempre, com o teu rosto, gravada, assim como meu perfume me pregou em você.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

(Spamcheck Enabled)