
Coração Ateu
(Sueli Costa)
O meu coração ateu quase acreditou
Na sua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou
Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu
Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento
Já me despedi
Meu coração ateu
Não chora e não lembra
Parte e vai-se embora
Estou cansado, com o nível de tolerância batendo no dedão do pé. Não é tristeza, não é raiva, apenas cansaço. Mas o pior de tudo não é sentir-se cansado, é sentir-se culpado por isso. Porque eu sei que, se for prá contabilizar, tem gente por aí, não muito longe, que tá camelando muito mais do que eu. Trabalhando por horas a fio, lidando com gente tosca, com gente chata, com gente burra, entra sol, sai sol. Cada um com a sua cruz — eu odeio esse conceito!
Mas mesmo assim me sinto cansado. O fato de ter de ficar longe do meu canto, das minhas coisas, das (minhas) pessoas me deixa cansado — Campinas é um saco! Não é um cansaço de quantidade, mas de qualidade de coisas acumuladas — é quando vem a tão famosa maré baixa. Cansaço de final que não acaba, de processo que não chega ao seu fim objetivo. É aquele desalento que dá quando você olha prá um questão e pensa: eu tinha que sair daqui e estar ali a essa altura do campeonato, mas não estou e não tenho a menor idéia de como fazê-lo. É a punhalada de ler na testa das pessoas que elas esperavam que você estivesse, que você fosse, que tivesse feito. E, no entanto, você não está, nem é, tampouco fez — parece não fazer diferença o quanto tentou. E eu tento separar a cobrança alheia da minha própria cobrança refletida. (Algumas d)as pessoas percebem, nem todas lidam bem com isso, mas provas de insensibilidade e falta de tato são tudo o que eu não preciso no momento.
Minha autocrítica nessas horas é cruel. Seja nos estudos, no trabalho ou nas relações pessoais, meu eu racional sabe exatamente o que tinha de ser feito. Em alguma parte minha mais profunda eu sou metódico. Extremamente metódico. Uma pena. Talvez, sendo intrinsecamente caótico eu não me importasse com o não funcionamento das coisas. Talvez até elas funcionassem. Mas eu não sou. Eu espero, no íntimo, mesmo quando não espero, que as coisas dêem resultado. Anseio por algo que não acontece. Afinal, poxa, eu aceito um andamento lento, mas não cada vez e sempre mais lento, como se o passo seguinte fosse sempre a metade do anterior e, dessa forma, anda-se sempre, mas nunca se chega. E quando eu me pego sem direção, quando as pedras do meu caminho me parecem tão boas e tão ruins como quaisquer outras, aí e só aí, acho, eu perco as forças. E qualquer companhia ainda assim faz eu me sentir sozinho.
É nessas horas, quando o vento perde os sentidos nas velas esgarçadas, quando o leme queima nas mãos e relego o barco à deriva, é aí que mais sonho com o porto seguro — senão com férias.