Hare Krishna

Quando não tiver mais nada
Nem chão, nem escada
Escudo ou espada
O seu coração acordará…

(Mantra, Nando Reis)

E acordei com meus olhos felizes a procurar a luz de cada canto. Tive sonhos de um amor improvável, mas em sonho possível — e o que importa? Ao invés de acordar rapidamente, conversei com esse sonho, entorpeci-me de suas cores.

Procurei aquele CD com músicas felizes que a tristeza me fez guardar em um recôndito fundo de gaveta. Fui injusto com ele. Não tive escolha, nem sempre a felicidade faz bem. Quando não se está pronto para ser feliz ou essa felicidade é datada, ela dói tanto quanto qualquer outra dor. E as minhas foram muitas, muito minhas. Mas eu aprendi a olhar para o céu dentro de mim. Entendi que felicidade é um desejo e que um desejo é realidade — a minha realidade. Mais ainda, uma alegria não se torna triste porque suas cores desbotam. Assim é o amor.

Veja a rosa, por exemplo. Mesmo que lhe tirem as cores, o viço e lhe caiam as pétalas. Mesmo olhando agora para esta flor que murcha lentamente no solitário em minha mesa, quando fecho os olhos ela permanece rosa. Assim como todas as flores que recebi, em flor ou não. Como um mantra.

Instantâneos delitos de paixão

Olhos nos olhos, borboletas no estômago, suor nas suas mãos urgentes. Tudo isso marcando uma inesperada cena de amor a dez passos do metrô.

— Você tá falando sério? — ela debocha.

Era uma vez o encanto. Passei pelos cacos e desci a escada, desgostoso como quem sai do cinema sem ter seu final feliz.

+

Um dia são teus olhos nos meus, em brasa — e mais nada. Outro, teu sorriso sem graça. Nosso caso daria um curta de comédia romântica, se tivesse romance.

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Sentiria inveja se não sentisse uma certa devoção por casais felizes. É como se eu observasse um pequeno milagre, perdido em mim com minha estesia; minha epifania.

(um pouquinho) Mais do mesmo

Eu confesso que estava quase caindo em tentação e ia comentar e citar novas e inquietantes declarações sobre o caso estupro-aborto-excomunhão, lidas algures. Mas a verdade é que nem a Santa se entende (se critica e se contradiz) — justiça seja feita que eu li um belo exercício de retórica vestido de compaixão (ou vice-versa) no jornal deles, mas aí desviamo-nos do fato. Pra que é mesmo que eu vou dar corda?

Eu vou é torcer pela menina.

Né?

Sabe por que eu adoro cartunistas? Porque enquanto eu estrebucho pra dizer o que penso, o que acho, tal e coisa, coisa e tal, eles fazem uma tirinha genial e encerram o assunto.

Tipo isso. Gênio. Obrigado, Angeli.

ange09032009

…et in terra pax hominibus bonae voluntatis

O chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, Gianfranco Grieco, afirmou que a decisão da Arquidiocese de Olinda e Recife de excomungar os responsáveis pelo aborto da menina de 9 anos — violentada em Alagoinha (a 230 km de Recife) — foi correta. A declaração foi publicada nesta sexta-feira pelo jornal italiano “Corriere della Sierra”. (Folha)

Aconteceu o que eu temia. Esta foi a semana dos absurdos — deve ser o calor, sabe; eu tô delirando. Tinha, né? Tinha que ser a Igreja Católica. Tinha que ir alguém lá e excomungar quem tá tentando salvar a vida de uma menina de 9 anos, que estava grávida de gêmeos e corria risco de vida porque foi estuprada pelo padrasto, de 23, que também estrupou a irmã dela, de 14, portadora de deficiências física e mental, e que as assedia há 3 anos. Eu não consigo imaginar um quadro mais dantesco.

“É muito, muito delicado, mas a Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até à morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência de uma criança”, disse Grieco. (Folha)

Ah, não?! Que engraçado, eu jurava que foi essa mesma Igreja que bancou a dita Santa Inquisição, que condenou o sistema heliocêntrico, ameaçou e prendeu Galileu — um cristão fervoroso — e que queimou Giordano Bruno na fogueira, tudo em prol da “verdade teológica”. Que mais? Olha que a lista é vasta! Quer dizer que aborto em casos hediondos não pode, mas tacar fogo pode? Hipocrisia não é pecado?

Eu não sei excomunhão condena alguém ao inferno — considerando que essa pessoa acredite no inferno, claro —, mas eu espero que não. Já pensou, depois de tudo isso, ainda por cima ir parar no inferno e dar de cara com essa corja? Esconjuro!

+

Um update. Ah, desculpa, mas não vai dar!

Ela comentou comigo, de bate-pronto: quer dizer que excomungar mãe e médicos (preocupados com a vida da menina, num sentido muito maior do que apenas a sobrevivência a uma gravidez de altíssimo risco) pode, mas excomungar um extuprador não pode?

Ontem, dom José declarou à reportagem que o aborto é mais grave que o estupro, e por isso a Igreja Católica condena o primeiro caso com a excomunhão automática. (…) “Católico que é católico aceita a lei da igreja. Quem não aceita é católico mais ou menos, e isso não existe”, disse. Para os médicos, a continuidade da gestação de gêmeos poderia ser fatal à menina, que pesa cerca de 30 quilos. (Folha)

Claro. Esse realmente é um argumento de peso. Pena que seja hipócrita, desumano, impiedoso e tão cristão quanto um tijolo.

“Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus seis anos.” (Rivaldo Mendes de Albuquerque, 51, médico, católico praticante)

Pois é. Um excomungado é muito mais cristão do que um punhado de bispos. Será que é preciso dizer mais alguma coisa?

Ditabunda

Tem todo um bafafá rolando por causa do tal editorial da Folha, lá por meados de fevereiro, né? Pois é, eu só fiquei sabendo mesmo por causa da celeuma. É o jornal e seu revisionismo tacanho — e oportunista, vamos combinar, para um jornal que sempre se orgulhou de ser de centro-esquerda —, são os intelectuais de esquerda inflamando-se indignados — e, se menos oportunistas, também parciais, como todo discurso inflamado —, é o militar reformado fazendo comparações superficiais, é o jornal de novo, perdendo definitivamente a isenção e a elegância. Enfim, é o pau comendo, para variar. A única expressão realmente sensata, pacrece-me, foi a de Fernando de Barros e Silva, na própria Folha, que veio elegantemente ilustrar o quanto todo mundo está errado.

Mas uma coisa que me chamou a atenção no meio da argumentação toda foi a intrigante definição de valores: quer dizer então que existem ditaduras melhores que outras? Me digam… Não, me digam com sinceridade! Eu não sabia que ditadura de direita era diferente de ditadura de esquerda! Vou tentar me lembrar disso da próxima vez que toda e qualquer liberdade humana for ameaçada. Ora vamos, uma ditadura só e melhor que outra quando somos a favor dela. No fim de contas (de corpos, se preferirem) dá na mesma. E acho que hoje podemos afirmar com tranqüilidade que qualquer ditadura — tenha ela o background histórico que tiver, e aí, sim, temos uma questão de fato para discutir, não para justificar, mas para entender, incorporar e evoluir socialmente —, eu repito, toda ditadura é vil.

Isso dito, podemos seguir adiante sem pisar no mesmo buraco?

Missiva

Hoje senti sua falta, daquele jeito resiliente, que resiste a uma caminhada, dois copos de cerveja, faxina e arrumação de armário. Foi quando desci a rua e a tarde caía. Fazia um calor modorrento e o céu parecia pintado de um azul improvável, com uma lua pendurada, rindo insolente. Tanto lembrei de outras luas, já sem rostos, que senti minhas mãos vazias. Mercedes cantava nos meus ouvidos e eu ensaiava alguns passos, alheio, para não cair em mim.

De repente, me senti pequeno e inútil. É sempre assim quando acontece, me torno miúdo, quieto, melancólico. Sei das peças que eu mesmo prego em mim — essa é uma delas, antigo sucesso dos palcos; hoje é só reprise. Já não me aborreço porque sei que passa depois de uma boa noite de sono, geralmente. Então faço como os livros do móvel da sala: empilho-os no chão para que cada história escolha seu caminho e os devolva cada um ao seu devido lugar. Tiro coisas e troco de lugar, bagunço tentando me organizar. E então durmo com a mão no peito, procurando um papel para você na minha vida.

Eu só queria que você soubesse.

Dois irmãos

Nos teus olhos
nem sempre
me vejo no espelho
e muitas vezes enxergo
contraste.

Mas não são também
os contrapontos
do desejo
o equilíbrio
dessa arte?