Olimpiada

Eu não assisti a abertura. Não, eu não lembrei mesmo, provavelmente estava dormindo. Mas como a internet é minha pastora e download não faltará, logo eu resolvo isso.

E nem era sobre isso que eu queria falar. Esses dias me peguei assistindo TV por acaso. Porque é assim que eu assisto TV, muito de vez em quando e por acaso; sou incapaz de lembrar, por exemplo, que quinta às 10h da noite passa… O que é que tem de bom na quinta às 10h da noite mesmo? Enfim, não faz diferença, eu não vou lembrar de assistir! E ainda chamo novela das nove de novela das oito.

Voltando. Eu estava assistindo TV por acaso e me peguei pensando no absurdo de alguns esportes. Por exemplo, o que leva uma pessoa a treinar salto com vara? Não pode ser pra ficar em forma, vamos combinar. Nem pra ficar famoso e rico. Agora você imagina o Joãozinho ou a Mariazinha ficando grandinhos, virando pros pais e dizendo: “Eu quero ser atleta!” Daí os pais, já conformados que não vão ter um médico, engenheiro, economista ou advogado na família vão lá e compram uma bola pros guris. Ou uma bicicleta. Ou uma raquete. Ou uma peteca, que seja! A criança olha com aquela cara de desolação e diz: “Mas eu queria uma vara!” E aí, minha gente? Se bem que deve servir pra pular muro, vai que o rebento se dá bem na bandidagem?

Boxe eu não vou nem comentar! E aí, já é pessoal: eu não consigo entender por que duas pessoas ficam se batendo até quebrar todos os ossos da face, os dentes, terem um derrame ou que tal. Pra mim, a diferença disso e de uma briga de galo, é que o galo não tem escolha.

Mas na categoria de bizarrice olímpico-esportiva eu acho que nada ganha da marcha olímpica. Quem foi que inventou isso, meu deus?! Como eu vi mais de um dizer, parece que o caboclo tá mascando um chiclete com a bunda! Ou com vontade de fazer xixi. Ou com um grilo dentro da tanga. Ou então, minha teoria é que são todos dançarinos de lambada que, com o declínio do estilo, migraram, evoluíram e marcharam! Dá até pra ouvir: “Chorando se foi, quem um dia só me fez chorar…” É piada, só pode ser.

O bem queimado

Apesar da piada ter vindo rápida — eu sei, péssima; não sei o que acontece com os meus neurônios vez em quando —, depois de um fim de semana brilhante, receber a notícia do incêndio que consumiu o Teatro Cultura Artística foi um choque sem precedentes pra mim. Talvez porque eu passe pela sua frente dia sim, dia não, talvez porque uma boa parte dos concertos e recitais memoráveis aos quais eu tive o privilégio de assistir aconteceram no seu grande palco e, com certeza, porque São Paulo perde, pelo menos por enquanto, um de seus oásis.

No entanto, o fato do painel que coroa sua fachada e, com alguma sorte, o acervo fonográfico do teatro terem sido poupados traz alguma misericórdia à tragédia. E digo misericórdia porque me chamou a atenção para a impermanência das coisas, natureza também das artes performáticas. Cada nota ali tocada ou cantada só existiu no momento em que soou. Felizes os que as ouviram. Seu registro, embora muito afortunado, é mero espectro da música que ali teve origem.

Estou fazendo drama, diriam. Eu digo que não. Sem querer desmerecer o silêncio — até porque do silêncio nasce o som, da meditação nasce a idéia, do repouso nasce o movimento —, acredito que cada oportunidade perdida de se expressar é uma possível experiência artística perdida. E pessoalmente, cada afeto contido, cada gesto abortado, cada palavra negada é um pedaço de vida não vivido.

Portanto, o teatro é mais que sua estrutura soçobrada e que, acredito, será reconstruída. O Teatro Cultura Artística é um símbolo e abrigo da excelência artística possível. Seu palco é o conjunto dos pés que ali pisaram; sua platéia, a soma de mil sentidos.

“Yo no buscaba a nadie y te vi…”

— Fica aqui — ele disse.

E por um segundo eu juro que pensei em ficar e ganhar a vida cantando no metrô portenho. Um segundo… Um segundo que pareceu minuto, hora, enquanto eu me perdia naqueles olhos castanhos como os meus, enamorados como os meus. E enquanto os dias passavam, brincávamos de possível no impossível e escondíamos momentos de felicidade nos bolsos das calças para serem encontrados pela manhã.

Tanta doçura, tanta que o vento das madrugadas geladas não era capaz de cortar. O que me cortou foram os fios de lágrimas escorrendo de sua face devota. O que me cortou foram seus olhos me pedindo para ficar, enquanto sua boca pedia, tão gentil e urgentemente, para que eu me fosse antes do fim, antes dos outros:

— Eu não quero ver você entrar naquele táxi e ir embora — ele disse.

Mas ele disse tantas outras coisas, sem ter de usar uma única palavra. Meus dias foram pintados de azul; minhas noites, carmins. Foi na pele que eu aprendi um pouco de espanhol; na dele. Buenos Aires agora carrega uma outra beleza e eu já não sei como não voltar àquele porto. E por mais isolados e irreproduzíveis que por ora sejam, foram dias de doce abandono e intenso resgate. Queria lembrar também daquela outra música, que a despedida e seu universo tão restrito em nós abafou. Mas eu me lembro de você e isso basta — mentira!

As lágrimas que eu beijei foram as mesmas lágrimas que eu trouxe e depositei aqui; foram as tuas que me trouxeram as minhas de onde elas não conseguiam vir. Isso e uma música que fica para sempre, com o teu rosto, gravada, assim como meu perfume me pregou em você.