Expresso 161

Sabe lá quem começou. Eu aderi.

1- procurar um livro próximo (o primeiro que aparecer, não vale procurar um livro);
2- abri-lo na página 161;
3- procurar a quinta frase completa;
4- postá-la no seu blog;
5- não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6- repassar a outros cinco blogs.

E eis que surge:

Depois dos dias todos de chuva, de novo o céu traz o azul, que escondera, aos grandes espaços do alto. (Livro do Desassossego, Fernando Pessoa)

Jurado pra morrer de amor

O telefone toca no fim do ensaio e eu choro. É minha mãe avisando que Caiçara, a gata, a minha gata, não está bem, que se eu puder, não demore a aparecer. Conheço minha mãe, a mensagem é clara e urgente. Desvio rotas, horários. Desvio-me de um futuro para que ele não se apresse em chegar e me adianto, tento passar à sua frente.

Ela está tão magra, tão magra, meu deus! Magrela e triste, acocorada como ficam os gatos doentes numa tristeza ausente. Eu me rasgo. Pela primeira vez em mais de doze anos ela não quer colo. Não faz festa, não dispara a correr pela casa porque viu o que só os gatos vêem. Seu miado é sofrido, pungente.

A mensagem, a cena, tudo isso rompe a frágil estrutura temporal que me sustenta e atiça uma dor que ronda. Tudo morre. Uma tia que morreu de câncer. A irmã de um amor também. Morre também o amor, assim como uma amizade antiga. Por uns segundos eu olho ao meu redor e tudo está morrendo, o tempo de tudo parecendo tão curto e a vida que resta parecendo tão longa ao mesmo tempo.

Como tudo o que é óbvio, o desespero torna sem sentido. As horas, ouço as horas de um minuto. A lágrima é quente, mas deixa um fio gelado, um traço de noite trazendo o silêncio que cala o grito, que esvazia o peito, que cessa o rito.

Finda o turbilhão e uma certa ordem natural dentro de mim se restabelece. Eu também morro lentamente e isso, por incrível até que me pareça, traz certa tranquilidade. Morro para os que vêm depois de mim, morro no coração dos outros. Eu também deixo um rastro. Eu também os abandono à sua própria sorte.

Morrer se torna então um privilégio, eco e continuação de uma existência. Pois não há como morrer senão nascendo e nascer não traz em nada o que vivi, enquanto morrer carrega em si uma vida inteira. E se hoje morro e choro a morte de uma vida, de um amor, de uma amizade, é porque amei. E se amei, nasci.

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Caiçara, do alto de seus longos e peludos 12 anos se recupera lentamente de uma insuficiência renal crônica. Após uma semana de aplicações de soro endovenoso e mais sei lá quantos complementos e medicamentos, ela começa a recuperar a personalidade e o charme espalhafatoso que fazem dela Caiçara. Desce a escada correndo e enche de pêlos os colos das visitas. Não deve mais comer carne vermelha e sua ração agora é especial para doentes renais.

Caiçara está aposentada, afinal de contas já é uma alegre senhora e enquanto se mantiver alegre, cuidaremos dela. Eu conversei com ela. Disse que qualquer que fosse sua missão ela já estava mais do que cumprida e que ela estava livre para partir ou ficar, se nossa companhia a fizesse feliz.

Caiçara é uma gata, que fique bem entendido, mas é também uma das minhas melhores amigas. Não sei quantas pessoas entenderiam isso e também não me importo. O que me importa é que várias vezes, quando eu precisei — e disso eu tenho certeza —, ela estava lá, sem que eu procurasse ou pedisse, simplesmente porque, de felina maneira, provavelmente, ela sabia.

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Poderia ser a madrugada de 10 de outubro de 2006, quando minha irmã entrou no meu quarto e eu acordei, sem que uma palavra fosse dita. Guardo ainda a temperatura do seu rosto, o brilho das suas lágrimas, o tamanho da nossa dor, feito um retrato ou um filme. Faz um ano hoje que saudade e alívio se misturam sem se anular, feito correntes de água quente e fria, feito um rio que encontra o mar. Faz um ano hoje que minha tia se foi. E ontem, sem lembrar de imediato, almocei com minha prima, cozinhamos juntos, comemos pão, compramos coisinhas e nos cuidamos.