Sob o céu

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em um cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
(Guardar, Antonio Cicero)

Epifânio

Me deu vontade de falar de alegrias.

Porque às vezes parece que eu só falo de coisas tristes e de dramas. É que eu falo do que eu sinto. Muitas vezes é mais importante o que você sente do que os fatos em si. Acontece que o mundo é feito de fatos, ou melhor, a “realidade” — o que é realidade, afinal? o que eu sinto não é real? não transforma o tempo e o espaço ao meu redor? —, o dia-a-dia, são regidos por fatos. Então, eu reservo um grande espaço aqui para o que eu sinto. E mesmo assim nem tanto, porque o que eu sinto é muito. Às vezes fere o que os outros sentem. Pessoas queridas, amadas demais. E eu não quero, ser mal interpretado aqui é muito, muito fácil, não quero ferir a quem eu amo dizendo o que sinto sem pensar. Então, muito do que eu digo, é destilado, filtrado até sobrar o máximo de mim e o mínimo dos outros. Esta é a minha opção, foi assim que eu escolhi. Porque sentimento é que nem sangue.

Mas eu estava dizendo que me deu vontade de falar de alegrias e escrevendo assim, sem freio, fugi do assunto. Eu falo de alegrias e de epifanias. A epifania de amar e a alegria de se desarmar diante da expressão do amor, que você dá ou recebe. Agora há pouco estava ao telefone contando uma boa notícia ao marido de uma amiga (ela dormia) e recebi uma resposta tão feliz, tão sincera e gratuita, de alguém que nem me parecia tão próximo, mas demonstrou uma alegria tão expontânea pela minha felicidade que eu me senti abençoado. Bobagem? Eu sou fruto do que eu sinto e eu me senti abençoado. A mim basta. Amigos que conhecem minhas dores e sabem que são minhas, assim como é minha a responsabilidade de superá-las, mas que não se desviam delas. Amigos que se alegram com as minhas alegrias e me fazem mais feliz com as deles. São esses os amigos que eu quero cultivar e para esses amigos eu dou meu ombro, minha força, meu amor.

Eu acho que quanto mais a gente aprende a ser sozinho, mais entende o valor dos sentimentos compartilhados. E é muito bom saber que a minha alegria vence distâncias (do mundo ou da alma) e ilumina também aqueles de quem eu gosto. E vice-versa. Isso é uma alegria além da alegria, uma alegria-amor. E gosto não só porque gostam de mim, mas também porque respeitam o que eu sinto e sabem o quanto isso é importante pra mim. Além disso, gosto porque gosto, porque são pessoas de quem vale a pena gostar e têm o seu quê de iluminação.

Viver é mais do que alegrias e tristezas.
Viver é o que em nós floresce depois de alegrias e tristezas.

Causa mortis

Não bastasse o retorno ao bairro ter se tornado uma aventura — uma aventura lenta, uma aventura bem lenta — com a Av. Washington Luiz, a principal via de acesso, completamente bloqueada no sentido bairro, ir “para a cidade”, como alguns dizem, tá que tá dando ódio! Por que, ó senhor, por que todo mundo não pode passar só com uma espiadela? Por que todo mundo tem que pisar no freio até praticamente parar em plena avenida pra ver um prédio queimado e preto?

Pesar? Não me faça rir…

Essa mania que paulistano tem de admirar tragédia alheia me envergonha. Porque fazer algo, mesmo, só uns poucos fazem, e nem é o caso ali, onde não se tem nada pra um civil fazer. Vergonha alheia forte!

Milênios, milênios

Engraçado como meu sentimento por você confunde o tempo e o espaço. Uma mistura do que não é mais com o que não foi. O futuro de um pretérito. Nesse encontro de parelelos você existe — você se deixa existir? eu te crio? —, uma incógnita carinhosa numa equação de coordenadas que eu não compreendo muito bem. Um amor… é, um amor. Ponto. Qualquer outro detalhamento parece diminuí-lo e ferir leis universais. Um amor que existe e não sei de onde, mesmo que a gente não se ame. Amores serão sempre amáveis.

Sopro

Ventos de mudança. Eu posso sentir o cheiro de seus dedos roçando o mato e levantando de leve a poeira que a chuva assenta. Penteando a copa das árvores. Levando o inverno embora. Nuvens assomando brancas aos telhados. Eu posso ver o futuro dobrando a esquina e ouvir o dia sorrindo.

“Vim só dar despedida…”

Nas palavras do compositor: “eu não sou daqui também, marinheiro / mas eu venho de longe e ainda / do lado de trás da serra / além da missão cumprida”. Mas não fico doente, apenas saudoso. Visito os cantos que se assemelham ao canto da memória, ao tom dos sentidos, e as quinas que puxam fiapos de lembranças como fios de roupas que não vestimos mais. Eu, como filho de sol poente, é impossível não me identificar, então deixo a música e a homenagem. E uma não-despedida.

Tão adeus quanto retorno, é reconfortante ver que afinal eu estava certo comigo, que eu não preciso transformar paraísos em infernos, que o tempo cuida de purgar e dar alento e ajuda a separar o que é precioso — porque o amor é sempre precioso — do que é irrelevante. E se o paraíso tem o seu quando, eu sou um produto da minha memória, racional e afetiva, e carrego o paraíso comigo.

Então eu brindo. Brindo ao que fui e ao que senti e ao reflexo do reflexo do reflexo. Brindo às tantas paredes que construímos pela vida e que nos sustentam à despeito do mundo. Elas ficam, mas levamos conosco os quadros de nossos dias.

Tanabata Matsuri

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é

No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos
E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs

Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão

Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção
(Vitor Ramil)

La solitudine

Alguns pecados parecem ser mortais, por mais alheio que seja o pecador.
Mas eu não consigo pensar em penitência mais cruel que a saudade.

Ainda assim, não se culpa pelo que não se sabe, então saudade é só saudade.

Saudade é só.

Fórceps

Partir. Partir-se.
Parto-me como que para partir de mim.

+

No começo era aquela coisa, uma necessidade de pertencer que me agoniava — para não falar das escolhas conseqüentes. Hoje é essa sensação de não pertencer a ninguém, a lugar nenhum ou coisa alguma, e eu me pego pensando seriamente se pertenço a este planeta. Não me adequo, não me encaixo, não me encontro e parto. Sou um ser social dessocializado, numa recaída. Eu não me reconheço.