Trivial avariado (um título de inspiração escarlate)

Duas noites viradas em cinco dias e o fuso horário do meu sono foi cair em algum ponto perdido do Pacífico. Eu queria (mas não muito) ter que acordar logo cedo com o despertador todo dia porque tomar café-da-manhã na hora do almoço é foda!

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Daí você acorda, abre o jornal e dá de cara com a seguinte pérola:

O PFL vivou bons e maus momentos. Guardamos as conquistas — ah, eu tenho certeza que sim! — e viramos a página. Estava na hora de passar o comando para a nova geração, para a busca do poder, que vai trazer oxigenação ao partido. (Jorge Bornhausen, presidente do PFL, que, a partir de hoje, passa a se chamar Democratas, ontem na Folha.)

Ou eu não acordei, ou perdi a piada. PFL, o partido dos coronéis, Democratas? Definitivamente eu deveria ter é continuado na cama!

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E graças ao Itaú, um banco hiper moderno, super seguro, eu tive que ir pagar o cartão de crédito na agência. Tudo porque sem aquela porcaria do cartãozinho de segurança, você não faz praticamente nada. O único consolo é o ar-condicionado.

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Mas eu nem ligo porque quem tem o livreiro mais lindo do mundo agora sou eu! :D

Só não tem nenhum livro ali ainda, mas isso é detalhe. E tem o outro armário também, que é um show. Eu tive que ouvir a piada infame, se eu ia voltar pro armário (sic). Too late, honey! O armário é grande, um espetáculo, lindo de morrer, mas eu prefiro o mundo. Preferia também ficar com a amiga que muda a ficar com os móveis dela, mas ela também prefere o mundo.

Vai ser feliz, amore! Você merece muito.
O cesto de estrela — onde você guardava flores — eu comprei pra lembrar de você.

Senso

Quem me lê por aqui muitas vezes se engana.
Ora, se eu mesmo já me engano tanto ao (tentar) me ler…

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Tudo continua igual, embora nada mais seja o mesmo. A vida continua sendo feita de encontros e despedidas. E eu continuo sendo ótimo no primeiro e péssimo no segundo, internamente pelo menos. Aprender a encarar um fato não quer dizer que a gente goste dele, certo? Mas fato é fato e eu já tô farto de carregar tanta coisa.

Eu digo tchau, mas eu choro; ninguém tem nada a ver com isso.

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Não que eu seja hermético ou goste de um drama — embora eu goste, faz parte do meu show —, mas é que eu gosto dessa coisa de tentar transformar emoção e sentimento em linguagem. Sei lá, esse exercício me ajuda quando eu não sei bem o que sinto; o que, pra alguém assim como eu, causa um estrago considerável.

Tá, se eu simplesmente sentisse e ficasse na minha, provavelmente arranjaria menos problemas, digamos, interpessoais. Mas eu prefiro sentir alguma coisa do que não sentir nada. Sentir nada é como aquele frio que cobertor algum esquenta.

Quando não se pode mais dizer o que se sente é porque alguma coisa tá errada.

Murphy cagô ni mim

Foi assim. Primeiro a fonte do micro velho fez “PÓF!”. Na verdade, primeiro o no-break se suicidou-se por si só e sozinho; não ligou mais. Daí sim, eu fui ligar o micro no estabilizador e a fonte fez “PÓF!”. Quer dizer, ela teve um ataque epilético antes — como dileto filho de engenheiro, eu sei que fontes elétricas com ataques epiléticos não são legais. E “PÓF!”. Daí eu resolvi parar de adiar a compra do micro novo e meti a mão com fé no bolso — há dois anos o outro era velho, avalie agora. E tô feliz aqui com o super brinquedo novo. E pobre. Mas eu descobri que o meu outro HD — o de arquivos pessoais, claro, nunca o de sistema, que não faria falta — também fez “PÓF!”, e eu estou sofrendo. Mas passa. Paciência.

Então eu tô assim: feliz, triste… e pobre, de marré, marré, marré.
Agora, Murphy, vê se vai cagar em outra freguesia, ok?

(des)igualmente

Equinócio
substantivo masculino
1   Rubrica: astronomia.
    cada uma das duas interseções do círculo da eclíptica com o do equador celeste
Ex.: <e. da primavera> <e. do outono>
2   Rubrica: astronomia.
    momento em que o Sol, em seu movimento anual aparente, corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração
3   Rubrica: astronomia.
    cada uma das duas épocas em que ocorre o equinócio (acp. 2)
4   Derivação: por extensão de sentido.
    série de temporais que ocorrem em determinadas regiões quando se aproximam as épocas dos equinócios da primavera e do outono

Etimologia
lat. aequinoctìum,ìi ‘igualdade dos dias e das noites, equinócio’; ver eqü- ou equ- e noct(i/o)-; f.hist. sXV equinoccyo, sXVI equinocios

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Engana-se quem diz, pensa ou mesmo espera que o dia possa enfim ser igual à noite. E vice-versa. Ambos são inigualáveis e, por isso mesmo, inseparavelmente complementares. Somente assim podem coexistir e, portanto, não se destruir no próprio conceito: para que um (res)surja, eis do outro a desistência. A suprema redenção de quem se entrega não à superioridade da essência alheia (nem à sua própria divina eternidade), mas ama sua mera existência; equilíbrio que dá à luz a harmonia. Da mesma forma existimos. E eu amo a nossa incomparável diferença.

Dislexia seletiva

Passou o banner pelos meus olhos e eu li: “Aulas de conservação particulares”.

Entre uma coisa e outra eu logo pensei que, puxa vida, conservação, é disso mesmo que eu ando precisando. Dois minutos depois, veio o clique: como assim, conservação? Voltei lá e li de novo: “Aulas de con-ver-sa-ção particulares”.

É o meu inconsciente, o engraçadinho. Nem espera mais eu dormir pra dar recado.

A vida é como um rio

Um sábado… tranqüilo. É, é isso. Hoje não tá sol, não tá calor, nem tá frio; parece que vai chover, mas sem muita fé. E eu me sinto como se tempo e vida estivessem simplesmente olhando as nuvens. Uma sensação de que muito pouco é preciso. Um dia de baixa ansiedade. Sem grandes desejos ou expectativas. Amém!

Um amigo que liga. Outro que não está; tudo bem, não é urgente. Meu pensamento não consegue se alongar no que os outros podem estar fazendo. Eu estou aqui e aqui tá tão bom. Sábado de pés pra cima, todos os pés: do chão, do peito e da cabeça. E por falar em ansiedade, deveria ser possível engarrafar a química cerebral desses momentos pra quando aqueles outros momentos, você sabe, pra quando a gente se tortura, geralmente à toa ou sem necessidade. Carência, é.

Penso em sair, mas não há nada assim de tão especial nas ruas da cidade ou mais especial do que nas ruas do livro que leio. Vários CDs que não ouço faz tempo — há quanto tempo que eu não ouço Lokua Kanza ou Madredeus? O cunhado toca hoje: Saxomania. Jazz. Música sem voz, ou melhor, outra voz. Um aniversário à noite.

É, talvez.

A vida é como um rio, diz a música.
E o meu virou, segue o seu curso, lento, como sempre foi.

Guess what

Foda não é quando a gente não entendeu nada.
O problema mesmo é quando a gente acha que entendeu tudo.

(Falta de) Comunicação é uma merda!

Anecóico

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”

Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
“Migo!”
(O Eco, Cecília Meireles)

Pra onde vai meu som quando o eco some?

A vida imita a arte, ou quase

Tá rolando no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro, uma série de concertos entitulada Uma Temática Poética do Lied. Pra quem não sabe, “lied” em alemão quer dizer “canção”, literalmente. E na música o termo é usado pra descrever mais especificamente o gênero de música vocal camerística que surgiu na alemanha no final do século XVIII. Enfim, canção alemã e não se fala mais nisso.

Mas não era isso que eu queria dizer. A mostra usa o termo de forma ampliada, englobando outros períodos, outras nacionalidades e agrupa os concertos de forma temática: Religião, Amor, Morte, Erotismo e Exotismo, Humor, Natureza.

Nesta última terça, quando o tema foi Morte, um senhor de lá seus 1567 anos, por baixo, assistia ao concerto. Quer dizer, isso quando sua crise de tosse tuberculosa deixava. Parecia que o velho ia morrer ali mesmo! Eu poderia e provavelmente teria ficado puto com a falta de noção do primo de Matusalém, mas não. Ao invés disso, fiquei pensando e segurando o riso: que pena que eu perdi o de Erotismo!…

É preciso

“Perto de muita água, tudo é feliz”
(Guimarães Rosa)

É por isso que eu nado.

Ah, é, tem o chocolate também.
E o sexo, mas na academia não pode, nem vende no supermercado.

Até que a morte os separe

Cantar em casamentos tem suas curiosidades. Uma delas é a excentricidade do repertório — mais conhecida como absoluta falta de noção dos noivos. Como é que alguém escolhe Changes, do Black Sabbath, como cumprimento dos padrinhos?

“I feel unhappy / I feel so sad / I’ve lost the best friend / That I ever had
She was my woman / I loved her so / But it’s too late now / I’ve let her go…”

Coitada da noiva… Mas também ela entrou com Carruagens de Fogo, merece.

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É, cantei. O quê, também sei dar meus “berros”!
Ninguém nem diz que eu sou um tenor lírico-ligeiro.

Batuque

eu cheguei vestido de rei
quem me chamou

eu cheguei vestido de rei
mutalambô

eu vi que o vento zuniu
eu vi que a folha caiu
eu vi que relampeou
eu vi que a mata rompeu
eu vi que a flecha correu
eu vi que a porta bateu
chegou meu pai caçador

é o dono do matagal
é o guardião do embornal
é o chefe da guarnição
ele é da casa real
ele é quem briga com o mal
ele é o meu capitão

(Capitão, Pinheiro / Barreto)

Pinico vermelho

Hoje alguém me disse que o digníssimo senhor presidente dos isteites — aquela aberração — vai trazer na bagagem tudo, absolutamente t-u-d-o que for consumir, desde a água até o papel higiênico, quando estiver em terra brasilis. Eu acho ótimo! Pelo menos a gente não precisa se preocupar com o contágio; o nosso, claro.

Deus soube o que fez quando não me fez parar no Itamaraty. Era bem capaz de eu emitir uma pequena nota, pedindo educadamente ao digníssimo senhor presidente — aquela aberração, eu já disse? — que fizesse a gentileza de levar o seu cocô embora também. É o princípio da bilateralidade: não comeu daqui, não caga aqui.

Argonauta

[O barco
Meu coração não agüenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia
O marco
Meu coração
O porto
Não…
]

Anda difícil falar de mim — não propriamente o “falar”, mas o “mim”. É que às vezes (e mais ultimamente) acontece de eu não conseguir me ver como alguém e fico com a sensação de que sou um processo. E pra pôr isso em palavras? É como se eu fosse… se eu fosse apenas, se eu existisse porque um instante existe e precisa ser observado; passado o instante, eu poderia desaparecer por completo, sem prejuízo ou fardo. Mas eu permaneço, esta é a grande questão. Por quê?

Transformar-me no instante, ser não o que observa, mas o que pode ser observado é que anda sendo o problema; quando não é uma via é a outra que me escapa. Todo esse sentimento de não-relação e, no entanto, permanência, acaba comigo.

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Navegar é preciso. Mas e viver? Do que se vive?

[…O barco
Noite no céu tão bonito
Sorriso alto, perdido
Horizonte madrugada
O riso
O arco
Da madrugada
O porto
Nada…]

Você vê, o problema são as cores. Quando eu era pequeno, aprendi a fazer desenhos ultra coloridos. Nenhum desenho era suficientemente bom se eu não usasse todos os lápis de cor que eu tivesse na mão. Considerando que havia aquelas maravilhosas caixas de 36 cores — pequenas até, se for pra pensar nos seus primos ricos, os estojos de lata importados com mais cores que o infinito de uma criança —, você pode imaginar que eu já não queria pouco. Mas daí que eu fui perdendo os lápis um a um e agora falta cor; falta cór. Crescer não foi o problema, mas hoje eu quero mais que preto-e-branco a ando meio sem saber como.

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Algumas pessoas me fazem falta, confesso. Poucas. E por algumas outras, poucas ainda, eu tenho um desejozinho semi-inconfesso de que fizessem; só que não, não fazem. Mas desejo é desejo, e eu sigo sentindo ele pulsar, às vezes mais em cima, às vezes mais embaixo, só me perguntando quando é que ele vai parar de se enroscar nos meus pés — ou eu vou parar de enroscar meus pés nele, pra ser mais justo. Sem perder as cores, por favor; as cores são o mais importante.

[…Navegar é preciso
Viver
Não é preciso…]

Eu digo não. Eu digo (aliás, já disse): Navegar. É preciso viver, não é? Preciso.
Já que é pra pontuar, que se pontue direito. Sejamos claros.

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Pedir desculpa é um vício, você sabe.
O que sai da boca é imperfeito. O que sai dos olhos, não.

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E no mais a mais, eu meio que cansei de ligar pros outros — do verbo telefonar, mas o outro é bem adequado a alguns casos. Quando você vê que o número de ligações que você faz (ou o tempo) é quatro vezes maior do que das que você recebe, convenhamos, tem algo errado aí. É que eu não gasto mais por isso, mas também não acho que os dois verbos sejam assim tão diferentes; na verdade, podem ser incomodamente similares. Quando a gente liga demais, ligam de menos. E o inverso nem por isso é verdade. É triste. É fato. E cansa. Porém, liberta.

+

Meu velocino não é de ouro, mas minha nau é grande e enfrenta o mar aberto.

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Ladrão que rouba ladrão… não pensou numa frase menos óbvia:

Gosto
Beijo e abraço; massagem; ver, ouvir e sentir.

Não gosto
Da dor; do descuido; da traição.

Tenho facilidade
Pra percepções íntimas; pra raciocínios lógicos; pra verbalizar as coisas.

Tenho dificuldade
Pra me desvencilhar de sentimentos e do que não está nas minhas mãos; pra me livrar de velhos hábitos; pra esquecer (o que não tem nada a ver com perdoar).

O que ninguém imagina
Que eu sou feito muito mais do que eu sinto que do que eu penso; que eu sonho o dia inteiro; que eu luto todo dia pra me equilibrar na borda de um buraco escuro e sobre esse buraco eu quero desenhar uma ponte colorida, porque ele existe, em todo mundo, mas eu não tô a fim de entrar nele, não.

Nomes do meu deus
Só deus sabe… Mãe? Pai? Eu?

[…O barco
O automóvel brilhante
O trilho solto, barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue
O charco
Barulho lento
O porto
Silêncio]

(Caetano)

Farofa de miúdos

É difícil dizer com certeza:
Impossível versar com leveza
Quando alegrias e tristezas
Afogam-se no mesmo refogado.

Lovely poem

Oh, bright white moon
Like a sharp teeth are thee
Desperatingly damn full
Why do you fucking mock me?

+

Eu tô de mal com a lua cheia. Me deixa!