Pequeno concerto que virou canção

Não, não há por que mentir ou esconder
A dor que foi maior do que é capaz meu coração
Não, nem há por que seguir cantando só para explicar
Não vai nunca entender de amor quem nunca soube amar
Ah, eu vou voltar pra mim
Seguir sozinho assim
Até me consumir ou consumir toda essa dor
Até sentir de novo o coração capaz de amor
(Geraldo Vandré)

Porque ninguém mais tem a minha sorte.
Ninguém tem uma mãe que canta tão gravemente a dor de corredores vazios.
Sem alarde, assim a voz adentra o quarto.
Eu sei quando ela canta e ri, eu sei quando ela canta e chora.
Minha mãe. Ninguém mais tem a minha sorte.

A forca

Sou só eu ou mais alguém sentiu um cheiro de queima de arquivo no ar.

O que me espanta não é a velocidade e o afinco com que duas das maiores potências ocidentais, mãe e filha, por sinal, se empenharam na luta contra o terrorismo, em prol da democracia (sic) e o caralho de rodas. O que me espanta mesmo é a estupidez política. Primeiro, financiam um ditador porque o islamismo está dando problemas — entenda-se: petróleo. Segundo, quando o ditador está bem gordinho e resolve botar as manguinhas de fora — entenda-se: petróleo —, temos uma baita guerra no deserto. Depois, temos toda essa encenação, motivos escusos, invasão arbitrária — contra a opinião política mundial, Direitos Humanos, etc. —, enfim, pegam o cara e jogam a maior lenha na fogueira, com ele em cima. E agora, depois de um tribunalzinho bem duvidoso, enforcam. Tchau, Saddam.

Nem tudo que deveria foi apurado, mas tudo bem, o cara morreu, acabou o problema. A única coisa que pode acontecer, sei lá, que bobagem, é o ditador virar mártir de algum grupo fanático. Mas se preocupar pra quê? O que eles podem fazer? Invadir alguma boa e democrática nação ocidental e explodir algum par de prédios? Nem armas de destruição em massa eles têm! Ou têm? Bom, aí fodeu, né? Porque derrubar um ditador é fácil, mas derrubar um mito, enterrar um mártir?

Muito bem, Flipper!

XXX

Meus sonhos andam tão pornográficos que me dão até medo.
Tá foda! Daqui a pouco eu acordo preso por atentado ao pudor onírico.

Agnus Dei

Foi entre uma garfada e outra da noite de Natal que entendi o que queria dizer comer o corpo de Cristo. Sempre achei estranho, pra não dizer, no mínimo, antropofágico. Ainda que as raízes da igreja católica estejam fortemente fincadas em ritos e comemorações pagãs — eles fingem que não; os mais fervorosos, quando muito ignorantes ou hipócritas, se ofendem, acham um absurdo, mas é histórico, não tem como negar —, ainda que não seja incomum o hábito tribal de comer o corpo do inimigo pra se apropriar de sua força, ainda assim, não parece um tanto bizarro comer o corpo e beber o sangue do seu salvador?

Foi pensando nisso e pensando em mim que entendi essa necessidade devoradora. Tudo aquilo e todos aqueles que nos tocam e nos transformam precisa ser devorado e transmutado pra que possamos transcender, seguir, o que seja. O sentimento pela imersão, pela absorção. Olhando pra trás, penso que nunca fui capaz de sentir alheio, distante, de fora. E sentindo, nunca pude negar. A absorção, a desconstrução (diferente da destruição) sempre como forma de transposição.

Mas por que essa necessidade? De onde vem essa gana de sacrifício? Milhões de altares, de entregas, de medos transformados em culpa, de culpas transformadas em oferta, expiando, purificando. Do que, meu deus, do que nós estamos nos salvando? Ou melhor, de quem? De nós? Devoramos o outro porque não podemos devorar a nós mesmos? Trazemos o outro pra dentro de nós na esperança de que ele nos traga um pouco de divindade, uma divindade que não é nossa, externa, exposta. Será que o eu-deus não se basta? E será que entregamos o que há de santo em nós? Damos a nós mesmos em banquete. Será que há troca?

Não. Pensando bem, nem eu entendo isso direito. Mas agora, me parece, não teria opção, a não ser, é claro, fugir da experiência. E de que adiantaria? Devorei cada pedaço de você e cada momento; cada membro, cada sonho, cada gesto; bebi lágrima, sangue e suor. Eu te comi. E espero que você tenha feito o mesmo. Você, que me viu passar, que trombou comigo, que não pôde ou não quis evitar, espero que tenha me devorado, digerido e transformado. E assim feito livre. Se eu fui cruz, se eu fui luz ou se fui espada, devora-me agora! E assim eu te transformo (tu me transforma). Pois é essa a nossa única salvação. Isso é a única coisa que importa.

Danado

Vontade danada
De fechar meus olhos nos teus
E calar minha boca na tua

Alecrim, alecrim dourado

Dos vários presentinhos do meu amigo secreto, o melhor foi o próprio.
Só não foi muito secreto; é difícil se esconder de quem te conhece bem.

Quântico

De repente quis falar de amor. E então vi que não fazia sentido falar do que não existe. — Como assim?! — diriam vocês. E eu repito: o amor não existe. Não se pode pegar o amor, gravar o amor, fotografar o amor. Não se pode provar com certeza absoluta que o amor existe. Eu me sinto como um físico de partículas: rastreando e tentando mapear diminutos pedaços de quase nada que quando você olha não estão mais ali; um fóton que quando capturado desaparece.

O amor não existe, ele acontece. Então por que falar dele? Ele acontece. O amor é um evento, um movimento, um déjà vu de um déjà vu de um déjà vu… do que mesmo? Quando você vê, já foi. Você sorriu, suspirou, virou pro lado e nem se deu conta, mas ele aconteceu. Você acha que viu, acha até que… Cara, eu podia jurar que estava ali. Você viu? Logo ali, faz um segundo! É, eu achei que sim. Curioso.

Com essa certeza n’alma, desisti de caçar borboletas no sótão.
Só pra depois mudar de idéia, que isso não faz o menor sentido.

Colo

Você sabe que a pessoa tem uma lua (cheia, redonda e fora de curso) em câncer quando, ao se sentir carente, o mundo escuro, meio sem sentido, meio desbotado, deita e se enrola no edredom, sonhando com um abraço de meia hora. E funciona.

Ok, inconsciente amigo, até que você foi camarada.

Por( )que (h)a dúvida(?)

Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Brigar pra quê
Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter que responder
Pelos erros a mais
Eu e você?
(Será, Legião Urbana)

Família Buscapé

Nós estamos todos nos mudando.
E eu tô me borrando todo com as configurações da nova hospedagem, então o primeiro que conseguir ler este post, tenha a gentileza de comentar que a casa tá em pé, sim? Eu tenho três backups de tudo, just in case, mas sabe como é.