Coisa de irmão

É impressionante. Foi a Argentina perder pra Alemanha que metade dos nicks no meu msn começaram a expressar a nossa já tradicional rixa. Seria engraçado, não fosse trágico a gente chegar na final e dar de cara com a Alemanha. Eu vou continuar com o meu esquema natação-nem-sei-que-time-tá-jogando, sempre que possível, já que eu entendo patavina de futebol. Guardo tudo pra, quiçá, final.

Retrô

Dia desses cheguei no Metrô e fui comprar o há séculos tão tradicional bilhete múltiplo de 10 — aquela maravilha, sabe, que te livra das filas, que tem troco fácil, que te garante várias viagens sem se preocupar se você tem dois reais E DEZ no bolso, na última hora.

Pois bem, a mulher olhou educadamente pra mim e disse: “Só tem unitário!”, com uma cartela imensa de bilhetes na mão. Eu pisquei, meio sem entender, afinal, nunca vi bilheteria do Metrô ficar sem bilhete, que coisa estranha. Ela sacou no ato a minha dúvida — não devo ter sido o primeiro — e retificou: “Não existe mais bilhete múltiplo, só o unitário!”.

Foi então que eu olhei pro cartaz de preços e vi que que o espaço dos bilhetes múltiplos de 2 e de 10 estavam com uma tarja preta em cima. E disse, em bom português e pouca educação: “Mas quem foi o IMBECIL que teve uma idéia IDIOTA dessas?!” — obrigado, senhor, pela moça não ter achado que a pergunta era pra ela. Acho que ela tem se feito a mesma pergunta cada vez que algum mané aparece com uma nota de 50 paus na mão querendo comprar um bilhete de 10.

A minha surpresa foi tão grande e a minha vergonha em comprar um bilhete unitário com uma nota de 50 foi tão sincera que eu saí de lá com uma cartela de 10 bilhetes, um troco de 29 reais e uma tremenda cara de bobo: eu esqueci completamente da existência do bilhete único! Eu sempre comprei os bilhetes múltiplos por causa da praticidade, do desconto e pra não ficar na mão — se eu tenho um bilhete, eu tenho uma passagem.

Fui no site do Metrô e, ligando os ponto temos que, se você é usuário freqüente apenas do Metrô/CPTM, agradeça ao PSDB, você não tem mais desconto ou praticidade alguma na compra dos bilhetes. Se você usa apenas ônibus ou ônibus e Metrô/CPTM, agradeça ao PT, você tem o bilhete único. Simples, não? O resto você pode xingar, esconjurar e amaldiçoar quem for de direito, sem crise.

O universo resolveu que este ano ia jogar as coisas na minha cara, de novo e de novo. Dores, amores, necessidades, cansaços, dissabores e loucuras alheias de todos os tipos a ponto de me fazer olhar pras minhas loucuras com um pouco mais de carinho. Será essa uma maneira delicada de brincar de pingue-pongue com o meu foco? Ora bolas, se todo mundo pode surtar e perder completamente a noção, o senso de pessoa, de pessoas, então por que eu também não posso dar uma de louco? Me aguardem…

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Tenho quase certeza de que meu inconsciente é uma entidade independente que se alojou em mim pra cumprir sei lá que função dentro dos planos universais ou nem tanto. De que outra maneira seria possível explicar tanto sadismo? Ninguém seria tão cruel consigo mesmo ao reavivar, mesmo que inconscientemente, lembranças, sonhos, vontades, saudades… Ou seria?

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Quem vai acreditar quando eu digo que estou bem? Eu estou. Há em mim a vontade de caminhar. Mas tem aquele quê que se perdeu dentro do peito, sabe? E, bicho, o que você faz com isso? O quê?

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Festa. Inauguração. Pessoas muito queridas de um lugar e um tempo de onde eu saí destruído. Não, não é arrasado, é destruído mesmo — ou auto-co-destruído, não importa — e intoxicado de dor. Daquilo acho que não restou mais nada de importante. O que restou, contra todos os prognósticos, foi uma vontade inexplicável de viver e amar. E amei. Então amei. E não foi fácil, mas eu a-mei. A chama soube achar um caminho, no meio da dor, de crescer de novo e tentar. A chama venceu, encontrou um caminho pra existir, independentemente. O amor… não. Ele fez o que pode, existiu (e existe), quiçá plantou suas sementes, mas não venceu — talvez ele tenha sido pra isso mesmo, mas vai me fazer acreditar!

Mas a festa, com gente de outro tempo, outra história. Ouvi vários “como você tá lindo!”, “como você tá gostoso!”, “você tá ótimo!”, “que bom te ver!”, sorrisos, abraços, cuidados e interesses sinceros e não nego: foi muito bom dar essa volta por cima e ver que eu tava fazendo a coisa da maneira certa, sim. O que plantamos com um pouco de nós, generosamente, permanece. A história é uma só: a minha.

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eu desprezo quem foge, quem se esconde por trás do anonimato, do disfarce, do silêncio e da covardia travestida de indiferença. (Zel)

Desprezo? Não, eu não consigo, é quase impossível. Se há um quê de envolvimento emocional, seja da natureza que for, não rola. Eu tenho pena. Mas isso também é coisa que envolve dores muito particulares, não é algo ao qual ultimamente eu esteja disposto. Então, como não é o desprezo, que me levaria ao desligamento desejado, nem a pena, que tem, sim, aquela pitada incômoda de auto-comiseração, deixemos cada um no seu canto, cada um cuidando da própria vida. Pra melhor?

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Reticências. Eu já aprendi a esperar por alguns momentos de reveses da memória — essas ondas que parecem querer testar minhas raízes contigo — e esperar por essas viradas das engrenagens entre o eu e o outro e suas dores características. E quer saber? Não adianta nada, dói do mesmo jeito. Um dia talvez eu aprenda a dizer adeus sem enfiar um punhal no peito com isso. Mas hoje, duvido. Sempre soube que ia sentir a tua falta, assim como sempre deixei clara minha alegria na tua presença. Ainda choro um pouco nos armários daquela música — lembra, quando eu estava “a te esperar” cantando no refrão? Pois que não importam os três pontinhos, há uma imagem na memória: a legenda muda, mas aquela foto continua sendo linda, como você. E… bom, isso, hoje, dói, né? Ainda não sei o quanto te perdi, o quanto te encontrarei. Não tem mais você por aqui pra eu saber.

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E no entanto, há uma chama aqui dentro (eu confio nela) que arde mais que o sol.
Eu quero o amor, sim. O que eu não quero é a vulnerabilidade, por enquanto.

Guerrilha é, antes de tudo, um impulso?

…Vou votar no Lula, porque acho que é uma experiência nacional muito interessante. Evidente que estou decepcionado com tudo isso. Mas eu não sou moralista. Difícil não aceitar que seja possível construir a partir da classe operária uma possibilidade de liderança. Já vimos que o Lula está eleito. Não sou eu que vou desmerecer o meu presidente da República, se foi o povo que disse que é. Minha visão do voto não é moralista, é guerrilheira: vamos em frente. (Sabatina Folha / Paulo Mendes da Rocha)

Bicho, até que enfim alguém com um pouco de tutano! O texto nem é sobre as eleições — e eu nem sou o primeiro a citá-lo —, então, se você está prestes a entrar nos comentários pra escrever qualquer merda habitual sobre política, escândalo, que você já sabia e quem mandou votarem nele, querido retardado, não o faça; poupe-nos da sua mente brilhante e vá ler o texto umas quinhentas vezes até entender que o conceito (assim como o buraco) é mais profundo.

A cidade: urbanismo, desejo, liberdade e (in)segurança. Idéias bem interessantes.

Mas em tempo, se dependesse de mim, todos aqueles prédios de gosto duvidoso e estilo “neoclássico” seriam implodidos, se possível com os diplomas dos seus arquitetos dentro. Troço horroroso! Eu vou pagar todos os meus pecados se um dia morar num pirulito daqueles. Espero que dinheiro não embote o meu senso estético.

You’re nonsense, dear!

Sabiam que até pouco tempo atrás — fim do ano passado, talvez? —, na minha cabecinha sem noção, eu achava que São Judas Tadeu e o Judas que traiu Jesus eram a mesma pessoa? E eu pensava: Como é pode o dito maior dos traidores virar santo? Mas como eu nunca esperei muita coerência da Igreja Católica mesmo, então tudo bem. Pra completar, são pelo menos três Judas, né? Judas Tadeu, Judas Macabeu — que eu só sei por causa do oratório de Händel, de mesmo nome — e Judas Iscariotes, o traidor.

Aliás, eu não sou o único a fazer confusão. Segundo alguma alma caridosa, no Wikipedia, Judas são sete!

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O maior vórtice de gente sem noção é, sem dúvida, o Orkut. Eu teria dois ou três casos pra relatar, por dia, de gente absolutamente freak batendo à minha porta, se eu não tivesse nada mais interessante pra fazer, claro.

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Meu pai. Ah, meu pai… Vai fazer 60 anos este ano, sabe? E minha avó resolveu dar uma televisão nova pro caçulinha. Até aí, beleza, eu mesmo adoraria ganhar uma televisão nova. Mas depois de desembalada, ligada e configurada, bonitinha ali na estante da sala, ele resolveu fazer sei lá o que, com ferramentas, no nicho onde jaz a linda TV nova. Preciso dizer que ele riscou a frente da TV? Ai, como isso me dói…

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Caiçara, a gata, anda acumulando carência ao longo dos anos. Atualmente ela se joga aos nossos pés e colos — com as unhas, veja bem — no computador, cama, mesa, jornal, pia ou onde for em desesperados e dramáticos pedidos de afeto: me ame, me ame, me ameeeee*… Quem vê pensa que vai ser jogada no lixo. E eu me sinto até frio e insensível diante de tanta carência. Eu, prestenção.

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Um Toyota Corolla roubado foi recuperado na manhã de ontem por policiais rodoviários graças a um erro de grafia na adulteração das placas. O nome da capital catarinense estava grafado como “Frorianópolis”. (Folha)

Sem comentários.

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Do horóscopo, só o highlight: “Seu gosto por pessoas esquisitas e diferentes pode trazer dores de cabeça!” Ah, pode? :P Mal sabe ele o requinte que eu alcanço.

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Nadar no horário do jogo é ótimo! Pense numa piscina calma e vazia, só pra mim.

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Não, não, não! Pagar OITO reais de estacionamento pro cinema NÃO É algo razoável! De onde é que o Center 3 tirou essa idéia?

E por falar em cinema, toda essa discussão sobre o uso de bloqueadores de celulares nos presídios, mas eu defendo mesmo é o uso de bloqueadores de adolescentes nos cinemas. Já pensou, que maravilha: o espinhento entra no cinema e fica mudo, abre a boca e não sai um “a”. Inclusive, livraria a gente de pérolas de sabedoria proferidas com ar de espanto e indignação como “gente, que menino mau!” — A Profecia. Mas deixa pra lá, né? O filme já é meio sem noção por si só.

* Traduzido do felinês.

Farewell

…Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va…
(Farewell, Neruda)

Acontece volta e meia e é quase uma sequência predeterminada de ações e momentos: um fim de tarde tranqüilo, uma certa languidez, alguma vontade de sair. Quando me pego estou ouvindo Ella, um piano ou uma orquestra leve por trás. Doce, melancólico. É é assim que a memória flui, senhora dos tempos interiores.

Neruda é quase uma disposição que a necessidade me traz. (Ella canta “Reach for tomorrow”, de repente.) E só há um caminho: adiante. Ali, à frente, não muito distante. É preciso partir pra poder realmente voltar, se é que um dia voltamos. O onde é o mesmo se o quando já não é mais? E o que dizer do quem, de nós, do eu?

Amar, amar, amar… Quando foi que eu aprendi? Não sei. E no entanto, eu quero sempre o primeiro amor em tudo: uma nova amizade, uma nova canção, um novo beijo. Quero acreditar que o dia que nasce hoje tem um novo sol. Um amigo acabou de me confidenciar que começa a namorar — ele nunca namorou de fato. E não há recomendação que me venha mais forte do que a felicidade do amor brotando. Fico feliz de uma maneira que nem é minha! Vai, coração, voa e ilumina o mundo que o mundo é teu, com todas as flores e todas as pedras. Todos teus os amores. Voa!

Sabe o que é pior? Quer dizer, não sei, talvez isso me salve da danação eterna uma dia, vai saber. Mas eu queria entender como é que eu consigo guardar sempre um pouquinho do amor de maneira tão pura — se não pura, sincera —; e depois de tudo, quando olho pra esses cristais de água luminosa e calor, alguns nervos ainda doem, nem que seja no mundo da memória. Ou no fundo do peito, onde começo a acreditar que ela reside. Mas eu sei, eu olho e vejo o amor ali. Não entendo essa dor, mas começo a aceitá-la e deixá-la ser, sem que pra isso eu deixe de ser.

Dizer adeus continua sendo o que há de mais difícil. Eu me despeço com uma flor da qual tirei os espinhos no peito, bênção maior da alegria que da dor. Quero pegar toda essa água que escorre pelas minhas fontes subterrâneas e soprar pequenas gotas multicores, pois ser feliz começa com querer ser feliz — eis o segredo ao qual se é tão pouco atento! Mas dizer adeus continua sendo o que há de mais difícil.

Andem, minhas pernas, que um medinho começa a querer se instalar de novo aqui no meu coraçãozinho combalido que tenta se vestir de alegre. Andem que é hora de partir! E eu não quero descobrir que calcei os sapatos trocados no meio do passeio.

Ó, ó, ó!

Vou escrever, ó lá! Pronto, escrevi.
Agora vai lá assistir o jogo. :P

Expedito

Alguém faça promessa pra eu criar vergonha na cara, organizar e publicar as fotos do aniversário dos trinta (e outras) antes que elas façam aniversário? Obrigado.

Por falar nisso, tá faltando coisa (momento, gente, lugar) interessante pra tirar foto ou é o meu olhar que anda assim tão desinteressado? É uma pergunta retórica, ok?

Reflexões solitárias emprestadas

E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento. Eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante; sempre fundido, porque então viverei, só então serei maior que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas. Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a compreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. (in Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector)