Nobreza amorosa

Teu perfil delicado
observa o mundo
em curvas e silêncio.

Pego tuas mãos
e é como o toque
grave e leve
de um tambor que
ressoa em mim.

Tua voz, não.
É aguda e macia
soa como brisa
um alento bom.

Você pisca
o canto do teu olho.
Momento
em que dobro
tua esquina.

E assim
com pedaços da
tua nobreza sutil
te reconstruo.

Prendo teu cheiro
vejo a tua luz.
De você tenho
todas as memórias
de um amor.

Pra você, Bicudinho.
Porque eu te devo o poema que meu coração quis escrever e o tempo não deu.

Segura a minha mão

E por falar em medos, fiquei pensando: não tenho medos concretos. Quero dizer, a Zel tem medo de taturana, há quem tenha um medo inexplicável de barata — ok, não é a coisa mais bonitinha do planeta e certamente não é a de hábitos menos nojentos, mas não morde, não queima, não ataca —, eu tive uma colega no colégio que tinha pavor de, pasmem, borboleta — ela saía correndo e urrando, sem exagero. Não tenho medo de altura se eu sei que não vou cair. Não tenho medo de bicho se sei que ele não vai me atacar — e é bem verdade que às vezes não sei se ele vai me atacar, mas mesmo assim eu acho que não. Não tenho medo de ser assaltado, nem de sair de casa, mas me cuido — há quem diga que não, geralmente os que têm medo. Nem de fantasmas. Aliás, tenho uma curiosidade muito pouco satisfeita sobre o desconhecido: não vejo, não ouço, mas queria. Enfim, respeito todos esses medos, mas eles fazem pouco sentido pra mim.

E aí chegamos ao ponto: meus medos têm pouco a ver com os meus sentidos. Disse logo ali que tenho medo de não amar, do término, do adeus. E isso é realmente forte em mim. Eu tenho medo de que chegue um dia em que eu não sinta mais — Marie, pode parar de rir agora —, de que eu não me envolva, de que eu não me entregue. E isso porque esses laços são vitais pra mim e perder essa capacidade significa perder um sentido de vida. Carência? Achei que fosse, mas quanto mais consciente eu me torno dos meus momentos de carência, mais eu vejo que eles vão e vêm, e o meu desejo de construir laços, de edificar, de me relacionar, não — uso termos sólidos não é à toa. Se há um trauma aí associado, é bem mascarado e eu ainda não o encontrei; encontrei outros, potencializadores.

Não é de morrer que eu tenho medo, nem de que morram, é antes: medo da agonia em vida. Não tenho medo do inevitável, mas justamente do evitável. É por isso que eu sempre digo que amo quando amo, que eu sempre dou quando tenho, que eu sempre cobro quando preciso e digo quando quero. Acho que os momentos em que não damos o que sentimos são momentos sem vida. É por isso que os términos de forma geral me incomodam e me doem tanto — saber quando algo é inevitável e aceitá-lo como processo natural é meu grande problema; aprendo devagarinho. É por isso que eu teimo. Porque é a nossa vida que precisa de cuidados. A morte não, ela vem com certeza, não preciso me preocupar com ela.

Balanço das horas

Já me contaram que a vida não é bolinho.
Mas quem foi que disse que tinha que ser esse angu de caroço?

+

Ainda tentando abrir uma porta na marra com essa história da tia doente. Parece brincadeira de mau gosto: ao mesmo tempo em que aparece a possíblidade de um erro de diagnóstico com a esperança de que, talvez, seja um caso tratável, a melhor de todas as portas permanece fechada, no caso, o Hospital do Câncer. “A esperança tá ali, mas vocês não podem alcançar”, parece que me dizem. E eu saio chutando porta pra tudo quanto é lado. A coisa tá ficando cada vez mais séria.

+

É estranha essa sensação de estar alegre de um lado e triste de outro — um certo desespero impotente, sabe? —, estar bem e nem tanto, porque eu pareço dois. Se me perguntam “tudo bem?”, eu tenho que pensar no que responder. A família se agüenta e luta como pode — minha mãe que o diga! Os dias por vezes assumem uma mesmice agoniante e o silêncio soa tonitruante aos meus ouvidos — porque não é aqui? porque não é agora? E no entanto, eu continuo acreditando no porvir. É simples: simplesmente não pode ser só isso, nossos vôos têm de ser maiores.

+

O aniversário tá chegando e o clima de faxina impera. Há pouco que você possa fazer se não for legítimo e de coração, então levante os pés se não quiser que eu os atropele com a vassoura. Mas 30 anos já são motivos suficientes pra se festejar — já pensou no trabalho que deu chegar até aqui? — e alegria é algo que se cultiva; aprendo a ser maior, tento ser melhor. E, claro, ainda há motivos mais altos que o correr indefinido das horas. Porque são tantas coisas azuis / E há tão grandes promessas de luz / Tanto amor para amar de que a gente nem sabe…

Não-classificado

Eu juro que eu começo a responder esses questionários que pululam nos blogs por aí, mas sempre paro pela metade. Ou porque a paciência me acaba, e eles são enormes, mas geralmente porque me agonia ter que escolher apenas um brinquedo preferido na infância, uma cor preferida, uma comida preferida, uma lembrança, tudo um de cada. E as respostas são múltiplas, do momento, e variadas. Parece de propósito, pra eu parecer a pessoa mais indecisa do planeta — antes fosse.

Mas adoro lê-los e recomendo o da Dani.

Aqui, seleciono 5 itens, à ocasião:
Perfume? Cool Water, Davidoff.
Piercings? Nos outros, mas não na língua, por favor; mamilo pode; lá não!
Medos? De não amar. Do término. Do adeus.
Como você quer morrer? Vivido.
O que você está ouvindo neste momento? Ella Fitzgerald, “More than you know”.

+

É, eu sou guloso mesmo. Não nego a raça.

Ninguém perguntou

Olha, você não vai querer saber…
Aliás, esqueci, você não quer saber!
Mas é isso mesmo que você não sabe.

Recursivo infernal

Sinto-me na entressafra da entressafra, é possível isso?

Parte de mim pulsa sem saber pra onde pular — mas sorri.
Parte de mim chora.
Parte de mim boceja.
Parte de mim suspira.

Cadê os caminhos? Ond’é?
Cadê eu em mim?

West Side (and almost Everyone’s) Story

There’s a place for us,
Somewhere a place for us.
Peace and quiet and open air
Wait for us
Somewhere.

There’s a time for us,
Some day a time for us,
Time together with time to spare,
Time to learn, time to care,
Some day!

Somewhere.
We’ll find a new way of living,
We’ll find a way of forgiving
Somewhere…

There’s a place for us,
A time and place for us.
Hold my hand and we’re halfway there.
Hold my hand and I’ll take you there
Somehow,
Some day,
Somewhere!

Enquanto isso a gente vai levando, como diria o Chico.
O importante é não perder o rebolado. E começar agora.

Miragem

Hoje é aniversário do Miró?
O Google, pelo menos, tá mirótico.

Pontes

É a isto que quero dedicar minha vida: à construção de pontes. Me fazer ponte, ligar minha margem à outra dentro de mim; colocar pedrinha em cima de pedrinha enquanto vejo o outro lado sendo construído também, neste esforço de pedras e luzes a que se chama amor. Deslizar em pontes diariamente, tentando o equilíbrio fino e leve da vida e da consciência, tentar pontes de marfim, de granito, de cerâmica e de papel arroz. Pontes feitas com letras, com desenhos e com olhares, pontes curtas e extensas, silenciosas e cantadas. Olhar em frente, Apontar: estar ponte, o meio do caminho entre o desejo e o futuro. (Teca)

Ela não me deixa esquecer. Que bom.
São como palavras minhas que perdi pra reencontrar. Virá o tempo de semear.

Eggplant

Comentei que estou de dieta? Pois estou, não quero chegar no meu aniversário balofo. Daí que eu abri mão do pouco chocolate da Páscoa e me arrependi: devia tê-lo guardado pra depois. Fui ao mercado atrás da xepa. Nada! Nem um ovinho sequer! Tudo já havia sido recolhido. Esse povo é cruel, hein!

E eu fiquei a ver navios. “Ah, mas chocolate é chocolate, compra uma barra!”, diriam. Mas não é a mesma coisa. Eu queria mesmo é aquela sensação de ter ganhado (e dado) um ovo. É, eu sinto falta das pequenas (grandes) trocas.

Passarim quis pousar, não deu, voou

…E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e olhar a cidade…

Andando pelas ruas do centro, nem me dei conta de ter adaptado a letra. Ato falho. Como outros tantos, como tantos outros. É que tenho me ocupado muito mais à abservação do que à ação, que eu já fiz demais. É preciso alegrar a cidade? Acho que é preciso alegrar-se, antes de mais nada. Ou melhor, é preciso aprumar-se.

Daí vem o horóscopo dizendo que a minha Vênus saçaricando por aí sugere um período de festividades, de lazer, de romances e de sexo; mas adverte: é uma fase naturalmente predisposta a paixões. E eu penso que há um senso de humor um tanto sarcástico por trás disso tudo. Twisted, isn’t it?

Quando foi que eu não estive predisposto a paixões? Nem lembro mais. A mim parece que elas sempre aqui estiveram. Mas existe uma diferença muito grande entre predisposição e disposição, a despeito da proximidade dos termos. Sempre apostei fielmente nos meus amores (amados ou amigos), mas apostei demais, com o tempo a gente aprende a esperar pra ver o desenrolar do jogo. Ou não.

Mas sim, é preciso cantar, é preciso estudar e é preciso crescer. É preciso erguer as asas e partir. Escutar o vento. Às portas do nascimento devia haver um aviso: “Viva, mas com moderação”. Ignorei completamente, pelo menos no que tange a esse impulso quase dolorido de sentir. E é como eu já disse, depois de Pessoa: “Navegar. É preciso viver, não é? Preciso.”

Saudade

É como o sonho do gosto de um beijo. Aquela música que toca na casa ao lado. Não… na seguinte, ou na outra ainda, virando a esquina: “Canta que é no canto que eu vou chegar…”, mas que não chega mais. Saudade é a imagem que está sempre no canto dos olhos e que a vista aberta não alcança. É também o que em canto derruba a lágrima. E é qualquer coisa assim sobre você. Saudade é o que eu sinto.

Momentos de iluminação zen interior (ou não)

Ando com uma preguiça monstra e tô aqui me segurando pra não ir direto pra cama porque daí, acordar às 6h da manhã num feriado, é tudo, menos “santo”.

+

Eu olho a lua cheia e me encho de um calor que é quase alegre, algo assim como uma matéria prima da felicidade.

+

Amo pessoas. Ando completamente sem paciência pra elas também e entre me entristecer com elas e ligar o foda-se eu vou me virando.

+

Eu adoro quando ando pelas ruas à noite e de súbito me invade o perfume de damas-da-noite — e eu nunca sei de onde. Não sei explicar, mas é como um bom presságio, um canto de boa aventurança. Penso imediatamente em amor, na parte boa da saudade, nas boas lembranças. E um sorriso gruda em mim. :)

+

Começo a aceitar a possibilidade de que as pessoas passam realmente ser escrotas. Não, não, nem bem intecionadas, escrotas mesmo. Cuzonas. Covardes. Egoístas. Mesquinhas. Cheias de máscaras e meias palavras — e pior: com palavras bem inteiras quando não se está por perto. Pra quê? Por que as pessoas não vão e falam: “olha, não gosto de você”, ou “tenho medo de você”, ou “tenho tesão por você”, ou “tenho ciúmes de você”, ou “eu te invejo”, ou — esperança vã das espanças vãs — “olha, eu não sei como resolver isso entre a gente, mas me ajuda, vamos tentar encontrar um caminho”, etc., preencha a lacuna. Hein? Por que as pessoas não enfrentam? Não vale a pena? — talvez seja essa a resposta. Mas não, têm que vir com um discursinho maquiado, um quase-carinho que no fundo até é um querer sincero, mas que elas não têm a menor condição (ou disposição) de sustentar. E os papéis de vítima então? Ok, tô querendo demais, parei.

Eu tô de saco cheio desses modi operandi. Só que o que me espanta mais é o fato disso tudo pela primeira vez me causar uma sensação de “ah, tudo bem, eu passo sem”. Convenhamos que não é o meu normal.

+

Cerca de duas horas e meia entre DDD pra Porto Alegre e DDI pra Austrália certamente me levariam à bancarrota, não fosse nossa abençoada tecnologia. Mas valeria, só de poder ver que quando há amor, carinho e vontade não há distância ou mau tempo que separe. Agora só falta inventarem um equivalente pras passagens aéreas. Demora muito?

+

É inferno astral, tô varrendo a casa, me deixa!
Aliás, lembrando: quase 30 anos, não tá na hora de Saturno ir embora de uma vez?

+

Por falar nisso, essa tarde fiquei pensando — silêncio, é importante: não quero mais gastar meu tempo (precioso) junto a amigos queridos — vide o inverso dos questionamentos acima — com gente pra quem eu deveria estar cagando e andando, se eu tivesse vergonha nessa minha cara. Taí uma boa promessa de (meu) ano novo.

+

É quase um bem-me-quer, mal-me-quer, não?

+

Páscoa quer dizer “passagem”. E em quase todos os credos simboliza a transmutação, o ressurgimento, o caminho para a liberdade, o reaparecimento da vida — é primavera no hemisfério norte —, etc. Seja qual for o seu credo, passe dessa pra uma melhor. No bom sentido: ressurja! — em vários sentidos. :)

É isso!

AUTOR — Ângela vive numa atmosfera de milagre. Não, não há razão de espanto: o milagre existe: o milagre é uma sensação. Sensação de quê? de milagre. Milagre é uma atitude assim como o girassol vira lentamente sua abundante corola para o sol. O milagre é a simplicidade última de existir. O milagre é o riquíssimo girassol se explodir de caule, corola e raiz — e ser apenas uma semente. Semente que contém o futuro.

(…)

ÂNGELA — (…) O futuro é um passado que ainda não se realizou.
(Um sopro de vida, Clarice Lispector)

Em algum momento entre lá e aqui, sinto que perdi essa maravilhosa noção de milagre que, acho, sempre tive meio que intuitivamente — e não é da natureza dos milagres serem eles da intuição? Pois bem, quero-a(os) de volta! Viro-me pro sol.

Let the sunshine in

“Abre essa janela…”, eu dissera. Eu cantei.
E quem diria, vejam só, que eu agora teria medo da Primavera?

Querer. E saber — ou querer acreditar — que melhor seria não querer.
Quero deitar o sol. Quero romper o casto. Eu quero, fazer o quê? Você.

Sinto falta de um lirismo meu que não resistiu muito bem aos últimos tropeços.
Mas ele sobrevive. Ele reside. É esse inverno d’alma que me incomoda os ossos.

Indeed

Ei, você! Acha que a coisa por aqui anda meio soturna demais?
Eu também! :) Viu, concordamos… Então, isso passa. Eu acho.

Note to self

As pessoas são muito mais o que aparentam ser do que você costuma querer crer. E se não forem, o que você tem a ver com isso? That’s it! Larga a mão de ser essa escavadeira emocional e deixa cada tatu na sua toca. Já há muito em ti, não acha?

Stabat mater dolorosa

Ela chega por trás da cadeira e em pé me enlaça o peito por cima dos ombros. Reconheço seu toque com um certo alarme: ela pede ajuda, há um desespero mudo no modo como me abraça no meio da noite. Olho pra cima e há dor em seus traços sempre doces. Minha mãe, que sempre foi um caramujo e sempre guardou seus medos e aflições só pra si, é a mesma que de repente chora. Não há o que eu possa dizer, então procuro as suas mãos que apertam as minhas sem querer soltá-las; as mãos de seu filho serão suas. Há lágrimas que não são minhas em meus ombros, há uma dor muito maior que a minha em seu peito, há o peso da impotência nas suas costas. Meu deus, responde! O que é que eu faço?

Samba de inferno astral

E agora com vocês, Candeia:

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver…

E porque o inferno astral se aproxima

Eu tenho Vênus em quadratura com Saturno? Ai, droga, eu tenho! Claro que eu tinha que descobrir alguns significados profundos disso a se explorar bem às portas do meu inferno astral. Sim, porque não seria no inferno que eu descobriria um aspecto lindo, meigo, fofo e SUAVE do meu mapa. Não, não, não! Tinha que ser uma mina de cristal de rocha! Porém, não esqueçamos do diamante azul, pequeno, perfeito e brilhante, lá no meio, beeeeem lá no meio. Alguém tem uma dinamite aí?