Encontro marcado

Eu peço um tempo. Então, crianças, sejam bem boazinhas e não ateiem fogo à casa. Eu volto — e isto eu te prometo com o meu coração apertado, com tudo o que eu já disse e mantenho, eu prometo que eu prometo que eu prometo que a gente tem um encontro marcado, tá me ouvindo? É só o tempo de eu ir ali e matar o meu dragão. É que eu tenho esta lança na mão e agora não posso largá-la.

Tia Lygia cuida de vocês. Obedeçam à Tia Lygia — exceto no chorar, chorar pode:

Da vocação

Na vocação para a vida está incluido o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, consturaremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?

Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida / é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma… O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, nao culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte — ainda intensos — seremos um fantasminha claro de amor. (A Disciplina do Amor, Lygia Fagundes Telles)

Velha bossa

Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossivel ser feliz sozinho…

— É? — pergunto eu.

250 anos

Aniversário de Mozart hoje, sabiam?
E eu nem cantei nada dele hoje… Herege!

Xarope

Receita para desanuviar:

– Arranje aquela amiga (ou amigo), disposta, que te entenda, mas não te abane.
(Tem que ser disposta, e não da boca pra fora, porque você tá precisando, porra!)
– Pegue um dia de chuva depois de uma semana quente que nem o inferno.
– Vá ao Stuppendo, sem carro, e tome uma chuva de molhar a cueca.
– Passe 2h conversando sobre tudo, sobre todos e sobre tudo sobre você.
– Tome duas taças de sorvete simplesmente divino e terrivelmente gelado.
– Volte pra casa quando começar a cheirar feito cachorro molhado.

Agora, se você é do tipo que fica doente, gripa fácil — eu adoeço por dentro e o que me entope o peito não é catarro, chuva nunca foi o que me mata, amor —, sei lá, leva uma aspirina. Ou guarda-chuva. Melhor, não saia de casa. É perigoso lá fora.

Mc Censura

Que história é essa de “#####”?! Não acredito que os McMicros filtram palavrão. Ah, vá! O troço nem navega direito e ainda fica regulando a p… dos outros?

e-Murphy

Diretamente do McDonald´s, entre um pouco de trânsito e um pouco mais de trânsito eu descubro que a única coisa que não abre aqui é a ##### do GMail. Abre Google, abre o inútil do Orkut, abre o blog, como se pode ver, mas o e-mail, de onde eu precisava pegar uma informaçãozinha, nem por decreto.

Não sabia que Murphy gostava de junky food. :P

Todo santo dia — realinhamento

Eu fico aqui escrevendo esse monte de bosta que pouca gente vai entender — ou ligar, ou qualquer coisa — enquanto deveria estar resolvendo questões práticas. É realmente muito construtivo. Vou cuidar da vida que clama. Vejamos, por onde?

Desnorteado

Nasce a lua que mingua e se atrasa em torno de mim, e eu choro. É tarde. Muito tarde pra ser de novo aquele poço de segurança, aquele “referencial”, como você diria; eu só posso, só consigo ser modelo de mim mesmo. E temos aqui um problema: eu mesmo quem, cara-pálida? Procuro entre dobras de alma e existência, corpo e sentimento, pensamento e emoção; cada reino parece clamar por um argumento e eu permaneço indefinido. Acho que me fiz sólido porque foi assim que aprendi a lidar com a desestrutura alheia. E de repente me pergunto, sem estrutura ou querendo me desfazer dela: quando é que fui farol? Quando foi que eu fiz isso? E o que eu faço agora com este desejo de uma luz forte me conduzindo, apontando, dizendo o que eu já disse tanto? Nem sei o que falo.

Choro porque quando cai a noite o que me resta é esta dicotomia e esta minha incapacidade de andar em linha reta de quem nasceu pra galopar, mas não sabe. Qual desses horizontes é o meu? Se pelo menos você me desse a tua mão… É um pensamento dfícil de reprimir enquanto olho as minhas, dobradas sobre o colo.

Caminhos

Por quê?…
E quando o farol se perde, quem é que indica o caminho?

Blablablá

As formigas invadiram de vez a mesa do micro. Tão miudinhas, as danadas, que eu me pergunto se o computador não está vazando bits — isso explicaria muitos dos seus comportamentos estranhos, embora seja até redundante falar assim.

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Puta pé d’água, meu!

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Depois de muitos e muitos dias ela veio, por falar em formigas. Fazia tempo que não me dava vontade de doce, daquelas de salivar. Abençoado seja aquele que inventou o leite condensado e o chocolate em pó. Só o brigadeiro salva!

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A gente fala, fala, cansa de falar e ainda sai com a sensação de que não conseguiu dizer aquilo tudo da maneira que devia, ou certa, se é que há. Será que os teus olhos tristes entenderam que quando eu digo que preciso não é porque eu ache que você não possa me dar? Eu só queria que você soubesse que há coisas que eu também não sei. E tenho um medo muito grande, às vezes, de sei lá o quê.

Ó, prestenção!

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota dágua
(Chico Buarque)

“Que vejo flores em você”

Sim, eu sou ridículo. Houve um tempo em que meu super-ego não permitiria, mas hoje, sim, sou ridículo, tão ridículo que consigo rir de mim sem a menor culpa. É que chega um dia e a gente entende, aprende a querer ser feliz.

Você também?

Pois eu, não! A última coisa que eu pretendo neste calor é enfrentar uma fila desmedida de gente alucinada pra comprar um ingresso pro show do U2. E não é preconceito, muito pelo contrário: apesar de não ser fã de carteirinha — se bem que ser fã de carteirinha, no sentido descabelatório do termo, nunca foi muito o meu perfil —, eu gosto da banda. Mas é que eu simplesmente não-vejo-nada nesses shows, a não ser que esteja lá no gargarejo. Como eu não fui abençoado com uma credencial, nem pretendo gastar a fortuna exigida, so sorry, bom show pra vocês.

E tem mais, eu me irrito com a trogoditice que impera nesses eventos; jogar garrafinha na cabeça dos outros, por exemplo, pra mim, é coisa de gente estúpida e tenho ganas de arremessar o primeiro paralelepípedo que encontrar de volta — acho que lá não estão disponíveis. Pessoa pacífica que sou, mantenho distância. Acho que é por isso que eu sou muito mais afeito aos teatros, salas de concerto ou casas de shows. Do U2, depois eu vejo o DVD. Tenho cá as minhas frescuras.

Mas tem gente que se diverte, 26h na fila, essas coisas, deu lá no jornal. Credo!

Diálogo

Eu confesso. Eu queria não ter de explicar nada, falar nada, pedir nada. Queria ser entendido assim, quase de cara, especialmente quando eu preciso ser entendido, quando estou mais frágil. Mas eu sei — até esqueço, mas sei — que é justamente nessas horas que eu preciso explicar, deixar claro, muito claro, o que eu sinto. É foda. Mas ainda bem que é possível. Afinal, o outro não tem a menor obrigação de saber o tamanho do meu calo. E vice-versa. Minha maior dificuldade é, sem sombra de dúvida, lidar com o silêncio, quando por falta de eco, em seus vários planos.

Fera

Diga que me ama!
E não diga mais nada,
pois não quero ouvir.
Não há em ti uma só palavra
que possa arrancar de mim,
as veias cálidas, a face arfante,
o pau que pulsa de encontro ao teu.
Não tens idéia do meu desejo,
pois quando de longe o viste
escondeste tu em teu sorriso.
Se ao menos sentisse a fagulha
mínima e animal a te açoitar
as ancas, não pensaria: gozaria
felicidade por cada poro
de tua pele lânguida. Lambida.
Geme que me ama…
Atreve-te! De que tens medo?
Encosta tua mão boba
em minha boca
e sente que te mordo
a segurança descabida.
Reage! Olha nos meus olhos
enquanto te agarro com jeito
as pernas frouxas
e não treme de tesão. Varão!
Minhas marcas em teu corpo
são tua melhor paixão. Tenta.
Teu destino — me amar —
é só o que espalho
no peito com meus dedos.

Unloved

Daí eu surto. E quero ver me chamarem de louco!
Me guardo inteiro, me cubro de flores, me encho de amores. E me diz, pra quê?

Repeat

Salta um anjo de marfim
Olhos de cristal
No portal um mandarim
Azul real
Invisível trampolim
Céu de vitral
Abre as asas querubim
É imortal

Dançam estrelas em suas mãos
E no piano o coração das águas
Navegador de um oceano
Além do mar
Além do fim

Salta um anjo de marfim
Olhos de cristal
Abre as asas querubim
É imortal
(Eternamente, André Mehmari e Rita Altério)

André Mehmari e Ná Ozzetti — piano e voz. Pérolas.

Porque poucas palavras dizem muito.
Porque o que não é palavra, a voz entoa, a nota toca.

Angústia

Desde ontem. Aperto. Tristeza? Desânimo.
Tô cansado de brigar. Cansado de fazer valer.
Bem cansado de falar, de ter que dizer, de buscar.
De saco cheio de alimentar, empenhar, impelir, esperar, crer.
Não me perguntem. Não sei. Não sei mais. O quê?

Vou dançar salsa.

Lá vem a noiva!

E começou cedo este ano! O primeiro casamento já foi marcado pro próximo fim de semana. Eu acho mesmo que o povo tem mais é que casar, ser muito feliz, fazer cerimônia com música ao vivo — muito chique! — e me chamar pra cantar, claro.

Re-torno

Uma semana fora e agora de volta. Algum punhado de e-mails (nada de absurdo, ainda bem) e uma e-leitura que, se já era atrasada, agora é alienação em pessoa. O problema é que eu me pego pensando se quero realmente saber da vida alheia. Acho que quero ver os olhos mesmo. Poucos.

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Novos e queridos amigos de infância e a perspectiva de mais DDD pela frente.

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Mais uma coisa que me chamou a atenção em Porto Alegre: não tem pernilongos! Ou então eles não gostam de sangue estranho, pois tem calor, tem água, tem janela aberta, mas eu não me dei conta de nenhuma picada. Os de casa já tão aqui rondando, inferno! Eu daria o Nobel a quem inventou o Protector elétrico.

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Coisas pra fazer, decisões pra tomar, rumos pra seguir. Mas amanhã, que hoje eu quero sossego, chegar, matar a saudade, essas coisinhas gostosas, sabe?

Até que a morte me separe

Comprei um anel de prata na praça. Joguei moeda na fonte pro meu povo.
Uma cerimônia antiga de amor — a aliança, o meu casamento comigo. Amém!

Tri legal

O que mais impressiona em Porto Alegre, sem sombra de dúvida, é o céu. O céu aqui é de um azul tão… improvável, de uma profundidade que não parece possível. E dizem que fora do verão a luz é ainda mais incrível, com seus tons pastéis de outono, suas sombras longas de inverno, como diria Caio Fernando Abreu, e seu brilho cintilante de primavera. Um azul que me observa a cada esquina do caminho.

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Bom, a segunda coisa que mais impressiona em Porto Alegre é que até os motoboys esperam o pedestre terminar de atravessar a rua se o farol abre. Eu não consigo imaginar isso em São Paulo.

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A cidade está vazia, dizem, mas eu não me importo. É bom não dividir de vez em quando, nem que sejam as pedras da calçada.

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Observo o misto de ansiedade e alegria que ele carrega enquanto pega as chaves do apartamento novo, corre pra lá e pra cá na tentativa de comprar cozinha, geladeira, ter tudo pronto pro amor que vem. Ele não sabe que no afã de começar tudo com o pé direito, o esquerdo também acompanha a caminhada e é assim que ele não cai. Observo e não posso deixar de notar intimamente que quero isso pra mim também, embora não saiba muito bem como, quando ou onde.

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O tempo tem sido camarada, limpo e azul, suportavelmente quente e com direito a brisa quando a tarde cai. Parece ter ser animado e esquentado um pouco pro fim de semana. Ainda quero ver o pôr-do-sol no rio Guaíba.

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Eu nunca mais vou querer saber de chantilly na minha vida depois de ter provado da bomba royal — a saber, salada de fruta coberta em quatro camadas, de creme de nata e sorvete napolitano, o sorvete mais gelado da paróquia — da Banca 40 do Mercado Municipal. Aquilo, sim, é que é creme de nata, o resto é gordura hidrogenada!

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Metade do que vim fazer aqui ainda não sei muito bem. Vim visitar um amigo. Vim conhecer alguém que me conhece e me acompanha há muito tempo. Vim agradecer. Vim pedir auxílio. Vim olhar o caminho. Vim lamber velhas feridas que eu insisto em manter abertas ou simplesmente não sei como fechá-las. Acho, e apenas acho, que vim olhar pra mim com um pouco mais de distância.

Trago amor, levo amor aqui comigo, meu amor.

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Mas eu queria você aqui. Sinto a tua falta, sinto falta do teu abraço e do teu beijo. Pra você ver como são as coisas, eu até sinto falta do teu silêncio — saudade do canto do teu olho, de admirar o teu belo perfil calado.

Adeus, ano vel… já foi?

Reveillon logo ali, na praia. O logo ali de muita gente pro meu gosto, mas tudo bem. Gente simpática, acolhida calorosa, como sempre. Mas fui porque quis e por um único motivo que muito não me convenceu — amor, confiança e comprometimento: no entanto, repito pra mim mesmo os três ingredientes mágicos que eu cultivo e busco, como um mantra. Paciência. Olha, eu juro que se durasse uma semana eu desistia no meio e vinha terminar aqui em casa, nem que fosse sozinho!

Mas amanhã eu vou pra Porto Alegre, com algum tempo pra pensar — e ser pensado, espero! Tá tudo muito bom, muito bem, mas se esta semana não for uma delícia, acho bom não falarem comigo por um mês. Ou mandarem o guincho.