Dolores

Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu

Carolina
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
Eu bem que avisei, vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu
(Chico Buarque)

Chico Buarque consegue ser de uma crueldade lírica que até assusta.

Pra algumas coisas acho que funciono ao contrário: de fora pra dentro. A maioria das pessoas, acredito, trabalha disposições que operam mudanças. Mas vez em quando eu, cético que sou, preciso de (boas) mudanças que mudem minhas disposições. Ou não, vai saber se não foram as disposições que se mexeram enquanto eu não via, facilitando as mudanças? Estou sendo vago — divago.

Eu explico. Acontece que semana passada todo o meu corpo doía e isso me fez pensar em dores — as minha dores — e seus porquês. Me dei conta de que a gente associa dor (que é quase física) a sentimento, como um indicador, uma bandeirinha amarrada ao pobre coitado. Só que acostumamos a olhar pra dor, a alimentar a dor, a buscar a dor. E daí que o sentimento se vai, escapa e vai cuidar da vida dele, arranja um cantinho gostoso e lá fica, deixando seus dias passarem — se engana quem pensa que ele morre. Mas continuamos seguindo o caminho da dor, e quando a gente percebe, é uma dor só que encontramos, sem razão ou merecimento.

Comecei a varrer, tentar jogar dores fora — elas são bem pegajosas — e a procurar os sentimentos extraviados pela casa. Eles estão por aqui, crescendo, mudando, fazendo arte que nem bichinhos de estimação. Às vezes roem um sofá, às vezes fazem um xixi na cama, os matreiros, mas são meus, e eu os amo.

Em tempo: associar alegria a sentimento é bom demais, não vou nem comentar.

Releia-me

Pessoa, com pontos e vírgulas:
Navegar. É preciso viver, não é? Preciso.

Porque às vezes a vida precisa é disso, uma nova pontuação.

Horóscopo

Seria bem melhor se você pulasse o dia de hoje. Como isso não é possível, fique de olho nas perturbações à sua volta. Faça o que for preciso — dentro da ética, é claro — para que elas não respinguem em você, psiquicamente. Não vá perder seu tempo com temas relativos a profissão e trabalho. (Folha)

Bingo! Eu bem que gostaria de ficar na cama até além das 11h30 — o que já foi uma bênção, vamos combinar —, dando o cano na academia, curtindo o restinho das minhas dores todas e (não) pensando na vida, mas do trabalho não vai ser possível fugir. As dores passam, a vida urge e o tempo passa na janela.

E eu não tô a fim de bancar a Carolina, sem ver, como diria o Chico.

“Tchibum, tchibum… Xalalalalala…”

— Arf! Arf! Arf! — vai.
— Glub! Glub! Glub! — volta.

Assim, a nível de ser humano, eu me permito e acho que a humildade é tudo na vida de uma pessoa. Sendo assim, ao invés de almejar a categoria Flipper tão precocemente, eu vou começar pela de peixe-boi mesmo — rapaz, como eu tô fora de forma! Mas vamos estar carregando a nossa dor amanhã com orgulho!

(Um post em homenagem à falta (ou excesso?) de oxigenação no cérebro.)

Distelefonexia

— Alô?
— Oi, amore! É o Gui. Feliz Aniversário, lindinha!
— Ô, querido, que fofo, obrigada! Pra você também!
— Hein?! HAHAHAHAHA!
— HAHAHAHAHA! Ai, desculpaaaaa!

Que bom que não sou só eu que faço dessas coisas. Como por exemplo, a pessoa dizer “obrigado” no telefone e eu responder “obrigado” também. Ou pior, eu tirar um “bom dia” da cartola no meio da conversa, ou soltar um “boa noite” no meio da manhã — sou craque nisso! Vai ver que educação demais às vezes da tilt!

Pé-de-feijão

O amor-agarradinho de minha mãe está mais pra paixão-desenfreada: mal foi podado (no toco) e já anda a agarrar a árvore, o portão do vizinho, e não duvido que agarre o pé de algum incauto — planta pode ser processada por assédio?

Donde se deduz que a terra dessa família é fértil! Mas eu mesmo tenho uma sazonalidade mais lenta: quando eu solto, demoro; quando agarro, custo a soltar.

Crescer, florescer e frutificar é, de fato, o milagre de um tempo que se alarga.

Adeus, Peter Pan

E por falar em cardiologista, você sabe que não é mesmo mais adolescente quando a academia te pede um eletrocardiograma. “É a lei!”, disse a moça, e eu nem imaginava. Mas se eu não morri com os treinos insanos da equipe da Unicamp (bons tempos, bons tempos, piscina descoberta, bronzeado permanente…), acho que não morro mais. E isso há um ano e meio! Tá me fazendo falta essa endorfina.

Segunda-feira começa a farra! Podem me chamar de Flipper!
Está oficialmente lançado o Projeto (Tchibum!) Verão Gostosão 2006!

Diálogos

Num teste de classificação vocal, no trabalho:

— Você fuma?
— Não, obrigado — tô oferecendo não, doida!

+

No jardim de casa, nossa contribuição à preservação da Mata Atlântica:

— Vem ver! — diz a mãe, pimpona. — Três botôes, dois botões, uma haste floral…
— Mãe… mas quantas orquídeas você tem?
— Xi, sei não!

+

Homens, morram de inveja: só esta semana seis lolitas me adicionaram no Orkut — eu juro que não entendo, elas também não. Já sei, acho que vou abrir uma agência porque, veja bem… não se pode desperdiçar um talento! :P Isso me lembra a piada da amante, da esposa e da namorada (de boca cheia): *O que eu faço com isso?*

Falando sério agora, esse povo gosta mesmo de colecionar figurinha, né não?

+

Enquanto isso, no cardiologista:
(Mais de uma hora e meia de espera é pra ver se alguém morre e poupa tempo?)

— Teu coração tá ótimo, não vou ter lucro com você — humor de médico…
— Tem certeza, doutor? Olha de novo.

+

— (Silêncio.)

O que os olhos não vêem o coração não sente?

Eu espero que você entenda o que eu não consigo explicar. E nem sei se devo ou se quero, se é válido, se te interessa, etc. Um dia a gente conversa sobre todas as coisas, amanhã, ano que vem, talvez sim. O que eu não quero é oscilar entre o passado e o futuro, e tento me agarrar ao (meu) presente com unhas e dentes.

Se fecho os meus olhos é por querer ver demais.

Um horóscopo velho, um biscoito da sorte absurdo e uma verdade

Hoje o elemento fogo estará presente em cada momento. Muitos se inspiram e entendem que devem estar juntos para organizar algo que crie alegria, esperança. A esperança nascerá num quadro de coletividade reunida. Vá ao parque, organize um almoço, promova um encontro de amigos. (Folha, um dia desses)

Corta pra cena no parque: “Leeeeet the sunshiiiiine… Leeeeet the sunshiiiiine…”.

+

Sorte de hoje:
Você é o centro das atenções de todos os grupos. (Orkut)

Centro das atenções de cu é rola! Sai fora!
Não há um centro, há, no mínimo, vários — várias formas, vários jeitos, vários amores perfeitos, várias línguas, uma miríade de verdades não-excludentes.

+

…I can’t take my mind off of you
I can’t take my mind off of you
I can’t take my mind off of you…

Troubleshooting

Eu sou a favor do desarmamento. Por quê? Fácil, porque eu acho que uma arma em casa mais ameaça do que protege uma vida. Quantas pessoas (que tem arma e permissão) têm o devido treinamento e sangue frio pra não fazer besteira? Pois é.

+

Suco de laranja é uma das minha bebidas favoritas.
Mas eu não dispenso um prosecco — vinhos (secos) em geral.

+

Eu vou comprar uma câmera digital, vou sim. Me aguardem! Mas qual?

+

E vou voltar a nadar/malhar. É, mês que vem. Ninguém me segura!

+

Não, política não! Eu não tô com o menor saco pra ver esse povo besta torcendo contra. Não importa quem tá lá em cima, brasileiro quer é ter argumento pra dizer que é tudo igual, que não tem jeito, não tem solução, que é assim mesmo que funciona. Ninguém tá preocupado em mudar o próprio jardim — enquanto fulano não fizer, eu é que não faço! Então tá, se mata e não me enche o saco.

+

É época de arar o chão e cuidar dos frutos da estação.
A vida não é mais que isso, uma eterna lavoura.

+

Às vezes a gente espera por respostas. Às vezes por diálogo. Às vezes a gente só espera. Mas às vezes a gente tenta. E às vezes a gente levanta e vai embora.

Eu só sei falar de amor — eu só sei fazer amor.

E digo que o importante é ter confiança, em si e no outro — e preservá-la.

Sonho meu

Inconsciente, não fode! Sem sonho com beijo, faça-me o favor, tenha piedade, pois quem tem que acordar sem beijo depois sou eu e não você, capisce? Quer agradar? Então me dá a mega-sena, vai? Porque com ela eu sei muito bem o que fazer.

Unabomber

Entre o aniversário e o dia paterno, o velho tanto fez que ontem à noite quase explodiu o telhado da casa — é sério, não perguntem! Mas não, graças a deus conseguiu apenas um pequeno incêndio, algumas bolhas nas mãos — que, eu espero, estejam doendo bastante —, a cabeça chamuscada, algumas lágrimas nervosas da minha irmã e o fogo das minhas ventas. Minha mãe? Minha mãe é o Itamaraty. Os governos do mundo deveriam aprender a manter a calma como a minha mãe (e ela a perdê-la, antes que eu perca a minha e apele pra marreta).

Quem sabe ele desiste de inventar coisas que podem mandar a casa pelos ares. Domingo vai ganhar presente, sim: um tubo de pomada ou um protetor de orelhas.

+

Antes que perguntem, é claro, porra, que eu fiquei muito preocupado! É meu pai!

Estrela-de-Belém

De repente, é um cansaço que me vem… É como mudar um planeta de órbita e, pensando bem, é isso mesmo: a vida tentando me mostrar outros caminhos através de novos paradigmas — no caso, vocais, mas não somente. Há muito que encaro alguns dos meus limites sem encontrar uma via por onde superá-los, e de repente, uma saída e o suporte para bancá-la aparecem. De repente? Acho que não.

Mas nada vem de maneira fácil. Penso que há espinhos demais beirando a estrada — não sei se quero mais ser um modelo de resistência e força (construídos), tudo em mim precisa de mais leveza e há coisas, sinceramente, que mereço há tempos, mas não quero mais comentá-las. Depois de três dias de masterclasses e encontros há em mim um misto de entusiasmo e uma vontade de arregaçar as mangas, que me é familiar em momentos de grande oportunidade, e um grande esgotamento (emocional) de quem lutou contra correntes, nadou e não gostou muito da praia.

Há um caminho e me parece claro que devo segui-lo. Só não é clara a certeza (e não é forte a vontade) de segui-lo sozinho — eu me rebelo, reluto, teimo. Mas há um objetivo bem visível que não posso ignorar e desígnios outros que eu sei que devo esquecer se quiser caminhar. É como andar na lama funda. Mas eu vou.

Permanência

Dias feitos de horas. Noites cheias de sal. Saudade. Não há o que esquente o frio deixado pela porta aberta, enluarada e sem tranca. É que eu só consigo ir embora assim, aos pouquinhos, como estrelas na aurora — é uma das minhas fraquezas —, e essa eternidade é o que me mata; ela e o meu anacrônico desejo de vida. Ainda.

Virando a maré

E não é que em plena segunda-feira de agosto bons ventos trazem alento?
Trabalho, minha gente. Emprego, é este o nome do milagre. E em boníssima hora!

Rent

…I think they meant it
When they said you can’t buy love
Now I know you can rent it
A new lease you were, my love, on life…

Desse jeito eu vou acabar desidratado!

+

Certas associações são tão imediatas no plano emotivo que não respeitam o tempo e o espaço, muito menos a realidade — se é que ali ela sequer se aplica, sei não.

Eu sei que sou estupidamente romântico — but sweet kisses I’ve got to spare.
Ninguém é perfeito, n’est pas?

Que nem manteiga na brasa (ou brasa na manteiga?)

A pessoa assiste O Castelo Animado e seus olhos se enchem d’água no final.
Antes isso do que minhas antigas couraças tão demodês.

+

Às vezes dói em mim.
Às vezes dói e não em mim.
Dói às vezes além de mim?
Dói comigo? Será?

E fico eu com minhas reminiscências de uma quarta-feira angustiante.

+

É bom ver a vida andando.
Problemas sendo resolvidos
Projetos caminhando.
É bom ter a vida andando.

É bom.

+

Eu peço licença porque é de bom tom fazê-lo, mas não paro não.

Só posso dar ou emprestar o que é meu. O que é de outrem tenho que pedir.
O que não é nem meu, nem de outrem, que venha. Ou não.

+

Quem foi o filho da puta que incluiu meu e-mail de trabalho em mailing?

+

Continuo não querendo acordar cedo amanhã.

Vim, tanta areia andei

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão
Debaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
E se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber
Se volto diga que sim

Mas só depois que a saudade
Se afastar de mim…
(Zé Kéti)

Li algo ótimo: Pra quem me conhece pingo é letra!

A festa de Babette

Querido diário,

Sábado me tornei um gigolô e jantei com a cigana Sandra Rosa Madalena. Ela, que também faz um bico como dançarina de cancan, leu minha sorte num osso de pato, numa gema de ovo, no vinho e no gengibre. Descobrimos que seria muito bom pra mim se eu ganhasse mais jantares (pra dois) como aquele. Afe, como foi bom!