Il Giardino Armonico — Cultura Artística

Sensacional! Ponto. Claro, tem coisa pra ser criticada, como sempre. Como uma ou outra passagem da cadência do violino solista que careceu de um pouco mais de precisão, mas que a maioria nem percebeu. E diante do brilhantismo e requinte com que foram interpretados os concertos, isso é pinto pequeno. Pianíssimos irreais, acentos e contrastes improváveis pra um grupo só de 13 instrumentistas: a música barroca realmente merece o vigor que este, dentre poucos grupos, sabe dar.

Você, estudante com até 30 anos (ou dinheiro no bolso), vá! E descubra que Vivaldi não é aquela musiquinha besta que você ouve em propaganda de sabonete.

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Lembrei de vocês dois: entre um concerto e outro — às vezes entre um movimento e outro — o teatro parecia uma convenção de tuberculosos terminais, credo!

Céu de estrelas

Sim, eu fiz! Eu coloquei Cats pra tocar e esqueci da vida. Sim, tocou Memory e eu lembrei de tudo — da cena, da sala, do sofá, da noite, do abraço, de tudo o que cada poro da minha pele (junto da tua ou não) pôde lembrar, até as lágrimas.

Como alguém pode ser tão burro e tropeçar no próprio pé assim? Saco! Eu não quero lembrar de você dessa forma, a cada curva do pensamento, a cada acorde, cada vez que eu durmo ou acordo. Dói, sabia?

Enquanto penso em você um misto de calor e frio se revolve em mim. Outro dia encontrei escondidos num bolso da mochila aqueles dois bilhetes de correio elegante que você me escreveu. Eles andavam às minhas costas esse tempo todo como promessas, talvez esperando um momento certo ou preciso de me lembrar de ti, mas muito antes, quando nossos caminhos ainda não se afastavam e eu me perdia tentando te alcançar. Yo no buscava a nadie y te vi. Fiz o que qualquer pessoa sensata faria: chorei. Veja, a memória sempre teve uma força muito grande sobre mim e é graças a ela que hoje sou quem sou; eu carrego um mundo vivo comigo e dentro de mim, um mundo ainda cheio dos teus sorrisos.

Sinto falta da covinha do lado direito do teu rosto como se fosse do meu que ela tivesse sido arrancada. E eu não vou tentar dizer que tá tudo bem porque a verdade é que não tá. Estará, sabe deus quando, logo, lá no horizonte. Mas por enquanto a verdade é esta: tenho sonhos aqui dentro que não se encaixam mais em meu peito, ondas e mais ondas, vagalhões que carregam teu nome pra lá e pra cá e açoitam as minhas costas, inundam meu mar. Você vai partir e eu vou seguir sendo eu mesmo como sempre fui, com um pouco de novo, um pouco de velho, procurando gavetas para bilhetes antigos, dando novos sorrisos.

Talvez ainda não fosse a hora de você ler isso. Eu devia ter avisado antes, então desculpa, mas é como eu torno o que sinto palpável, e é assim que eu consigo, de frente, fazer as pazes com meu coração, lentamente. E se você chegou até aqui, quero que saiba que eu preciso dizer adeus — e nada pra mim é mais difícil. Talvez nem a você, nem a mim, talvez nem a nós, posto que ainda existimos em algum lugar lá atrás, algum lugar que foi por mim absorvido e não pode, nem quero que seja esquecido. Eu preciso dizer adeus ao que não foi e que agora não mais será. Eu preciso dizer adeus aos meses que vêm e não têm milagre, não têm mais o eco de um encontro que me trouxe à vida algumas das alegrias mais delicadas e que encheu meu céu de estrelas. Eu digo adeus ao que sonhei contigo pra guardar o que vivi e que é real e lindo, e porque preciso acordar se quiser sonhar de novo.

Pré-datado

No te amo como si fueras rosa de sal,
topacio o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva dentro de sí,
escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber como, ni cuando, ni de donde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.
(Cem sonetos de amor, Pablo Neruda)

Não me culpe. Não são minhas as palavras, mas de Neruda; tomei-as emprestadas — há outros 99 sonetos de amor, não acho que um fará falta — porque as minhas já estão por demais comprometidas. E é preciso tempo pra que venham livremente: as palavras têm vida, minha vida que, ultimamente, tem-me sido muito cara.

Sempre foram minhas as palvras, mas hoje não. Hoje, sou apenas água, olhos e sentimento — elemental, primordial. É que hoje é, e sempre será (enquanto o hoje não for mais algo tão repleto de ontem), um dia difícil, você sabe.

E o resto eu falo depois.

Agenda cultural

Esta quarta, quinta, sábado e domingo tem ópera no Theatro São Pedro: Così fan tutte, de Mozart, a preços bem interessantes. Vale a pena. Conheço parte do elenco e iria — eu disse iria — ao ensaio geral hoje se não tivessem me informado que sim, eu tenho que ir trabalhar hoje e que não, o ensaio não foi cancelado. Meleca!

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Nas mesmas quarta e quinta tem Il Giardino Armonico — que é um puta conjunto de música barroca, embora o site deles seja uma merda — no Teatro Cultura Artística, a preços nada convidativos se você não tem carteirinha de estudante ou tem mais de 30 anos. Como não é o meu caso, pretendo engrossar a filha de famintos musicais que hão de comprar ingressos por 10 reais, lá, meia hora antes do espetáculo. Rezem por mim!

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Hoje tem gente mais que fera no Segundas Intenções. Faz tempo que eu tô com saudade daquele lugar — não, vou não, ainda não, sorry.

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E em outubro tem Wallace & Gromit!!! :D
Lembram de Fuga das Galinhas? Então.

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E o mais importante de tudo: 17 de julho, Audi Coelum, com participação solista minha. Não marquem absolutamente nada na agenda, entenderam? Nada!

The hours

O fim de semana foi pro saco com os compromissos de trabalho — e o público do CEU Parque São Carlos continua aquela coisa mal educada de sempre. Restou essa hora maldita — já falei sobre ela antes, não? —, momento ideal pra tirar a trilha sonora de As Horas da gaveta, mergulhar num livro e esquecer um pouco de mim.

Quadrilha

(Ou: Perdoai, São João, eles não sabem o que fazem!)

Hoje passei na festa junina dos meus sobrinhos, na escolinha, e sinceramente fiquei meio horrorizado. Quando eu tinha a idade deles (e durante bem mais uns dez anos) ia pras festas juninas de escola, ou mesmo as que fazíamos aqui na rua e ouvia música de quadrilha. E dançava quadrilha. Mas dançava mesmo, com ensaios durante o mês, no recreio, pau de fita, parzinho e tudo o mais.

Eu nasci e cresci em São Paulo, nunca fui do interior, muito menos lá do sertão, e mesmo assim eu sei o que é música de festa junina, com muitaas das suas variantes. Eu só posso crer que os professores de hoje são meio estúpidos, ou moucos. É o único motivo que explicaria uma festa junina onde o que mais se tocou foi música country (não, nem sertaneja, country) e axé! — que têm a sua época e razão de ser, longe de uma festa junina.

Forró universitário soa como se fosse de raiz perto disso, credo.

Zero caloria

Eu sei que ando na minha, mas me dei conta também que não ando visitando blogs, páginas ou pessoas muito enamoradas, casadas, cúti-cúti, essas coisas. E nem é inveja que eu não sou disso — e daí deveria ser o contrário, ou não? Mas é aquela história: quando alguém está de dieta a última coisa que quer ver é foto de comida.

Day by day

A felicidade do homem passa pelo estômago? Não. O segredo é desviar o sangue de áreas mais afetadadas — se for com uma comidinha caseira, melhor ainda.

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Sorte de hoje:
Você é diligente e sistemático em seus acordos comerciais.

E a sorte, cadê? De onde o Orkut tira essas coisas, me diz?

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Tem gente que faz massagem, e só, e tá bom pra quem tem os ombros pesados. Mas tem gente que toca camadas muito mais profundas do que a nossa pele, como se fosse possível massagear o próprio coração, ou tecidos de nossa existência.

São essas pessoas que curam — embora quem tenha que sarar é sempre a gente.

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Santana é outra dimensão, certeza. Porque no meu mundo um ônibus não passa por umas ruas estreitas daquele jeito nem com reza brava! E as pessoas esperam ônibus ali, isso que é o melhor. Eu esperaria o Papai Noel ali, nunca um ônibus.

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O bolo de chocolate ficou ótimo — é, eu fiz, aquele mesmo. E lindo. Mesmo eu tendo invertido toda a ordem da receita, donde se deduz que a ordem dos fatores não deveria ser uma coisa assim tão importante.

Então por que na vida a gente não pode enfiar um pouco os pés pelas mãos?

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É tanta coisa que eu gostaria de dizer! Mas como? Quando? Pra quê? E pra quem?

Massage day

É isso aí, eu vou lá ganhar uma massagem que eu também mereço. Mas não é propriamente os meus músculos que eu vou relaxar; meus nós são sempre outros.

Soneto (par)a quatro mãos (póstumas)

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
(V. de Moraes e P. M. Campos)

Perdeu-se um coração na Av. Paulista com a Carlos Sampaio, ou muito antes.
A quem o encontrar, é favor não dizer nada: trate com cuidado; seu caminho é o estreito da pulsação atravessada entre o amor e a rota do indivíduo, sem milagres.

From inside out

Ali está ele
ferido
sem entender porque certas coisas são: não
ele poderia erguer o mundo nos braços
preferiu beijá-lo suevemente nos lábios
ele masca a vida com vontade
engole todos os gomos de uma vez só
caminha incólume sobre cacos de vidro
e geme diante de uma pétala de noite caída no chão
ele tempera os dias com aço e mel
arregala os olhos dos medrosos
ele olha para o teto à noite
ele poderia facilmente te amar
pois para seres como ele
o amor não é paradoxo de mil esquinas
seu dia possui mais luz do que sombras
ele goza, pulsa, cala, fala mais do que pode às vezes
mas seu silêncio vai te deixar surdo
prefira o riso à parede fria
não
não há nada mais além desse muro
tu nunca mais vai encontrar outro ser
que possa ser tão ferido
(Love song for a hurt friend, Luca Molina)

Eu não tenho o que dizer — é desnecessário.
Não sei se me conheço bem. Mas ele conhece.

Várias coisas

(Ou, sai da frente que eu quero falar com o vento.)

Investigação rigorosa dos escândalos recentes mudaria a cultura política e teria efeito positivo na economia. Há evidências de que a corrupção afeta negativamente o desempenho econômico. (Folha, apud José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton)

Depois de um artigo inteiro sobre o cenário corrupto-econômico-político — ok, não era nada assim brilhante — vem a anta jornalística e me diz o óbvio. E se recebe pra escrever comentários brilhantes como esse num jornal? Ou será que alguém acha que o país não vai pra frente porque o povo é que não gosta de trabalhar?

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Daí, no sábado, eu perdi a hora. Mas não é só que eu perdi a hora, eu tinha que acordar às 7h30 e acordei às 9h45, bem no dia de ensaio geral do coro com a orquestra. E então você me pergunta: “Mas como assim, não ouviu o despertador tocar?”. Não, veja bem, eu não liguei o despertador. Fui deitar, lindo, porque tinha que acordar cedo e não liguei o maldito despertador! Veja só como vão as coisas.

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Pneus não deviam furar. Pneus, no meio da madrugada, não deviam furar. Pneus, no meio da madrugada, na Av. 23 de maio (na pista da esquerda), não deviam furar. Pois é, mas eles furam, e quando vai alta a madrugada, você tá sozinho.

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…Ah perché spietato Amore
Nel mio core entrasti mai?
Perché vidi i cari rai
Onde appresi a sospirar?

(Lorenzo da Ponte)

Não quero mais falar. Quero a intenção, o ato e a comunicação primordial. Quero o toque, a luz, o calor e a sombra. Quero tudo o mais que é vivo e, vivo sendo, se transforma, se devora e se pare. Repare: do amor o tempo renasce a cada minuto.

“Remember me…”

“…once in a while —
please promisse me
you’ll try.”

Não, eu não quero que você se esqueça. E porque hoje eu tive um dia tranqüilo, quando pensei em você, muito e com carinho, mesmo onde havia sombras e cantos com pedaços de nós dois espalhados na memória dos gestos, no cinema, no filme tão cheio de delicadas sugestões de sentimentos, é que repito com certeza, para que o tempo ouça e também se recorde: amo você.

Matou a família e foi ao cinema

Na verdade não matou ninguém — nunca foi capaz de matar uma mosca que fosse (como era exigido dos bravos), quanto mais seus sonhos. Mas foi ao cinema mesmo assim, pois os sonhos à noite não dormiam e, cansados, buscavam o escuro de outros mundos para repousar na realidade do dia; o inverso da insônia.

As águas de março

E o que é que eu faço contigo, coração. Em que cabide eu te penduro?

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Não, eu disse que esperava e mantenho a minha palavra e o status quo — que a hora se anuncie e se faça o momento presente antes do tempo ruir, mas não a minha consciência. No entanto, algumas coisas, mesmo paradas, se transformam, assim como a estrada que é sempre estrada pertence a caminhos diferentes.

É como o leito do rio por onde as águas passam: ele se mexe e se transmuta pra suportar as correntes que o castigam. Mas as águas passam — e trazem com elas a vida e a morte — enquanto o leito do rio permanece, guardando seus tesouros pra quem souber buscá-los com vontade e um pouco de fôlego. Eu transbordo.

De atar no poste

Se hoje você viu alguém de óculos escuros no ônibus com uma partitura na mão, crente que ninguém percebia que ele tava lendo uma ária de Mozart — porque o tempo na semana foi curto —, eu juro que não era eu. Tem gente doida, credo!

O não-horóscopo

O meu horóscopo de hoje tá uma desgraça, de lascar. Então eu decidi que hoje não tem horóscopo: os astros foram dar uma voltinha em uma galáxia qualquer, sei lá, e vão me deixar em paz. Cara, pára com isso, é tensão demais pra um taurino só!

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O céu tá uma coisa azul-mais-linda-de-meu-deus-do-céu — redundante, não? —, mas, sério, eu preciso de uma chuvinha porque meu nariz tá pedindo arrego. Argh!

A tristeza é senhora

Desculpe se falo bobagem, mas eu tenho esse direito. É que há momentos que parecem ser uma dor por si só. É a hora em que eu me sinto mais frágil e renegado — ninguém consegue ser forte e pronto o tempo todo. E tudo fica tão sentido, tão sem sentido, tão desesperançoso!

Observo o ramo de amor-agarradinho em flor na minha mesa e seus galhinhos me lembram braços estendidos para o nada; as flores não têm mais significado fora do jardim e caem a pequenos intervalos. Braços que são tão envolventes e firmes se tornam débeis, flores tão cheias de verdade viram apenas flores, alimentam os olhos e mais nada. O ramo morre e se despede lentamente fora da terra. Será mais fácil (deixar) morrer à mingua, longe? Com certeza não é menos dolorido. Saberão as flores em seu silêncio que suas cores perfazem o tom de nossos sonhos?

O sono traz sonhos incômodos, medos e algum alívio pela manhã. No entanto, o que se sente é real e sintomático. Meu lugar não é aqui, meu lugar é ali no jardim, com a mão no barro, onde meu dedo é verde — a cor da esperança. Faça chuva ou faça sol, é ali que eu sei ser eu mesmo. Nasci pra estar tanto ao sol quanto na tempestade, mas vivo, e a reclusão me deprime. Canto como pra mandar a tristeza embora, mas não é meu canto que desejo ser ouvido. Há uma voz mais funda e urgente, persistente, que é também a alma da minha voz e que resiste quando tudo o mais parece surdo. E essa voz sou eu e mais ninguém. Ela te chama. Ouça.

Horóscopo

Sua capacidade de ver com detalhe o que escapa aos olhos de muita gente lhe renderá louros hoje! É porque você sabe analisar as entrelinhas quando quer que poderá antever o desenvolvimento de projetos comuns. Enquanto o clima de pega-pega continua no Brasil, você segue suave. (Folha)

Meu horóscopo anda bancando o irônico, tá todo engraçadinho.
Ou então sou eu que ando vendo trocadilhos infames pelos cantos.

Ah, a inveja…

Eu me entrego, cedo ou tarde — mas é benigno: não agüeeeeento mais entrar em blogs de amigos e vê-los falar da feijoada e do bolo de chocolate de sábado.

Então é assim, eu só quero que vocês saibam que eu tô uma feijoada e um bolo de chocolate mais magro que vocês! Blé! :P (Colou? Não, né? Bom, eu tentei.)

Vou começar a campanha Pró-Fondue Inverno 2005. Só preciso achar o inverno.

But Thou didst not leave His soul in hell

Bella voce! — disse o maestro.
Ponto pra mim e pra minha barba de Pavarotti — só a barba por enquanto.

Foi a via crucis mais apropriada que um Messias já viu. Tanto que eu, que cheguei atrasado (e desesperado, obviamente), cheguei primeiro, antes do maestro, do outro solista e 90% da orquestra, todos pra lá de atrasados. Eu digo o seguinte: o CEU São Mateus deveria se chamar CEU Se Meteu, lá onde Judas perdeu o juízo.

Pra eu pagar a minha língua, foi o público mais educado que eu já vi — pra constrastar com o do CEU Parque São Carlos. Donde se deduz que educação não depende de credo, cor, raça, classe social, longitude ou latitude e atrai seus afins.

Mas o ponto alto mesmo foi o bebê no colo da mãe que estava bem de frente pro maestro e imitava, feliz da vida (mas sem dar um pio), os gestos da regência.

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Podem me chamar de Rosa-dos-Ventos. Acompanhem meu sábado: 7h30 – arcordar, banho, café da manhã, sair; 9h00 – Tendal da Lapa (quase Lapa de baixo), ensaio, um sanduíche e aula; 15h00 – Granja Julieta (Santo Amaro), aula; 16h20 – casa, tomar banho, vestir o terno, tomar um suco, comer uma maçã, vocalises; 17h20 – sair (de carro, veja bem); 18h50 – CEU São Mateus (1h30 depois, entendeu?); 22h00 – Vila Mariana, dois chopps, um aniversário e a segunda refeição decente do dia; 23h40 – Horto Florestal; 0h20 – Lar, doce lar, duas aspirinas, cama e uma ameaça de morte a quem ousasse me acordar.

Já os amigos comiam feijoada. Mas músico é que tem vida boa — claro, e levar a vida na flauta é uma expressão que só me inspira uma interpretação, sem vaselina.

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Meu domingo alegre vai ser. Sabe o que eu vou fazer hoje? Nada que exija compromisso, estudo ou empenho. Talvez sair e dançar como se hoje ainda fosse sábado. Decreto meu dia de férias! Vou comprar uma flor bem bonita pra mim e colocar no criado mudo, ou na minha mesa — como uma vela acesa, à guisa de oração. Porque além de tudo eu mereço e quero também ganhar flores nesta vida.

Sim, eu ainda acredito. Mas ter fé no milagre só não basta, é preciso corpo e alma.

Eu, zumbi

Nota mental: Não ler na cama quando quiser acordar cedo no dia seguinte.

“Meu amor, abre a porta pra noite passar…”

Sim, é Chico também. E Tom. E eles dizem que é preciso gritar e correr, socorrer o luar. Imagina, os vizinhos não vão gostar. Imagina, (…) a gente se perder…

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Preciso é perder o hábito de escrever de madrugada — amanhã, quem sabe.

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Moço, de quem é esse casulo aqui? É meu? Mas sabe o que é, eu não gosto de ficar apertado aí dentro não, não faz bem. Não, eu sou um perigo pra mim mesmo se me deixam sozinho com o meu cérebro! Se deixar o casulo tem que levar o cérebro. Melhor não, tira isso daqui. E pensando bem, eu lá tenho cara de lagarta?

(Ok, sem piadinhas sobre eu já ter virado borboleta! Ha… Ha.. Ha…)

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Tem umas horas do dia piores que outras, não tem? Aquelas horas quando já é noite, não se pode mais estudar música e fazer barulho, mas ainda não é hora de dormir (ou pelo menos não há sono pra isso). É a maldita hora do telefone. Parece que uma passagem secreta se abre na sua cabeça e o pensamento escorre sem esforço exatamente pra onde não deve. Sorte de quem não perde uma novela.

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Eu tenho amigos que não sei como me agüentam.
E não precisam explicar não. Ter vocês aí já é um bálsamo!

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Eu tenho a impressão de que nunca mais as árias do Messias vão se apagar da minha cabeça. Agora, pra quem não sabe, na época do Barroco a afinação dos instrumentos não era a mesma de hoje. E muitas vezes se faz música barroca com os instrumentos afinados cerca de meio tom abaixo da afinação padrão de hoje, principalmente quando se usa instrumentos antigos. Eu gosto, pelo menos (e não deve ser à toa) as linhas de tenor não ficam tão berradas ou passeando por regiões incômodas de passagem de registros vocais — lembrando que a técnica vocal também era outra naquela época. Pena que não vai ser o caso dessa vez.

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Façam como eu: saiam daqui agora e vão ler um livro, é mais útil.

Todo o (meu) sentimento

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu
(Cristóvão Bastos e Chico Buarque)

Tem coisas e momentos que por mais palavras que empreguemos, menos se traduzem — e falar é um fardo. Mas sempre podemos contar com Chico Buarque pra fazê-lo. No mais, é isso aí mesmo: sentimento, sem mais o que dizer.

Um segundo

Levantei. Porque me pareceu de repente que eu estava mais que nu, em carne viva, me senti tão desprotegido que tive medo além do que podia suportar. No segundo em que me ergui da cadeira, da mesa, do cardápio, das pessoas tão barulhentas à minha volta, do mundo e de ti, quis chorar. Só isso, não sei mais, se sei, não sei. E quis sair, quis morrer, quis correr até o tempo parar de me seguir e me deixar em paz com o meu desespero sem palavras, sem jeito. Eu quis não estar ali, como em um pesadelo em que se tenta acordar e não consegue, uma dor que nos atravessa, como eu senti teus olhos me atravessarem — um enfarte. E morri.

Horóscopo

Assim como acontece com seus irmãos de tribo, os capricornianos, você se prejudica com o trânsito de Saturno em Câncer. Ali, onde era para construir, estabilizar e tornar seguro, você encontra cada vez mais terreno minado. Até julho, a saída é redobrar o esforço para se fazer entender. (Folha)

Não brinca! Jura?! Tão inusitado… Parece fácil, né?
Agora me explica: julho?! Tem certeza? Ok.

Gratias et preces tibi, Domine, laudis offerimus

Obrigado, ó senhor, por me dar meio Messias (de Haendel) pra estudar em menos de uma semana, mais uma ária antiga de seis páginas e um repertório de ópera, mais um movimento de sinfonia, entre outras coisas — não, eu não estou sendo irônico, embora quisesse muito estar. Obrigado por ocupar um raciocínio ativo e furibundo que só faz dar desassossego aos meus moribundos sentimentos. Amém!

Pensamentos ovais

Os ovos, proeza arquitetônica da natureza: uma casca fina com um formato arredondado que lhe dá leveza e incrível resistência a toda sorte de choques. Um ovo protege seu mundo interior até que ele não lhe caiba mais — também pode ser visto como um mundo sem entrada, apenas com saída, que só pode ser quebrado de dentro pra fora e com vontade, senão não há nascimento, apenas omelete.

Um ovo nos protege de tudo o que há no mundo, menos de nós mesmos.

Amarelo

Essa foi minha cor favorita na infância, até onde consigo me lembrar. Minha escova de dentes era sempre a amarela. Minha caneca, amarela. Amarelo também era um carrinho meu do Playmobil. Tudo o que era brinquedo ou apetrecho que eu e meus irmãos tivéssemos, o meu era o amarelo. Ainda gosto muito dessa cor, eu que sou nascido no dia do Sol.

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Ontem tava passando filme na TV, aquela coisa sessão da tarde. Um golpe baixo, um chute no estômago: o moleque tá perdido no meio de uma floresta aí do Canadá com seu cão labrador que se chama, claro, Amarelo. Em suma, o moleque tá todo fodido, estropiado, o mundo procurando o fedelho, mas o Amarelo tá lá junto com ele, caçando, brigando com gato selvagem, guiando, lambendo o rosto, essas coisas. Quando aparece o resgate os dois tão montados em cima de um tronco tombado enorme que atravessa um canyon, tentando atravessar pro outro lado. E o que acontece? O cachorro despenca desfiladeiro abaixo enquanto o menino é içado até o helicóptero e sai mancando e choroso do rio na cena seguinte, sozinho, perdido, etc. O olho fica cheio d’água, claro, o que se repete várias cenas (do menino procurando pelo cachorro) pra frente, muita trilha sonora triste depois, quando o Amarelo reencontra o caminho de casa e me aparece tão estropiado quanto o menino estava, na cena final.

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Tive um sonho esses dias. Eu encontrava um gatinho amarelo lindo, filhote, abandonado, dengoso e carente. Mas o gatinho tinha um capacete enfiado na cabeça, que ficava pequena enquanto o resto do corpo crescia — não perguntem, era um sonho. O capacete tinha umas aberturas pros olhos do gatinho, e eu me perguntava quem seria capaz de uma crueldade daquelas enquanto tirava aquela coisa da cabeça dele sem muita dificuldade e o gatinho tinha mais uma vez sua cabecinha livre — e miava. Mas daí eu me lembrava que não podia levar o gatinho pra casa e me resgava por dentro por ter que deixar o gatinho amarelo pra trás. Pronto, acabou.

Não entenderam o sonho? Pois eu entendi, mas não pretendo explicar.

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Amarelo. Acho que estou amarelo.

O que dirão as divindades em suas linhas tortas?

Comecei a ler Deuses Americanos, do Neil Gaiman. E já percebi que não havia momento pior (ou melhor, depende) pra começá-lo. Logo nas primeiras páginas a menção de uma tempestade me incomodou — não de hoje sinto nuvens pesadas e invisíveis pelos céus, e sei que elas vêm, quiçá cheia de trovões, quiçá pra lavar o que há de nós em mim. Mas então o livro me diz: “Aquilo não foi a primeira coisa que ele lhe disse. A primeira coisa foi “eu amo você”, porque é uma coisa boa de dizer quando se é sincero, e Shadow era.” — e isso doeu. Fechei o livro e fiquei a observar as estações do Metrô que passavam cheias de rostos anônimos, enquanto pensava na minha dor, em sombras e declarações — rumo a lugar nenhum?

Entre necessidades, medos e carências, concordo em coração com o livro: é uma coisa boa de dizer quando se é sincero, até quando me calo sem muito conseguir.

Um touro dentro do aquário

Quem tem padrinho amigos não morre pagão, certo?
Ou quem tem amigos fica apertado na foto?
Não, quem não tem mais um amigo não enquadra direito — acertei?
Ó, céus! E quem esquece a gillette, fica barbudo?

Ah, sei lá, amo vocês.