Pequi, o periquito

Tem um periquito (ou periquita?) à solta no meu quarto. Salvo direto da boca da minha gata Caiçara — que se achou, por justiça, no direito de me cravar as unhas —, ele agora pensa que o teclado do servidor é poleiro e que eu vou ficar dando banana no biquinho dele; bem doido!

E eu tô atrasado pro concerto, caralho!

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Muito tempo depois, tá lá o bichinho todo encolhidinho na gaiola que arranjou-se prá ele. Não fez a menor objeção que eu o pegasse, praticamente não tomou conhecimento que alguém o tirou do canto da mesa onde se escondeu. Me diz, como é que alguém tem coragem de manter uma criaturinha dessas engaiolada?

Consciência gay?

“…O que acontece na prática é que nós, homossexuais, não possuímos plenos direitos civis porque algumas instituições religiosas insistem em impor seus dogmas a toda população através do Estado. No fundo, somos inculpados por praticar uma espécie de “heresia light” que não nos condena à fogueira, mas nos seqüestra a plena cidadania.

Eu, que além de homossexual não tenho religião, sou acusada de dupla heresia por alguns carolas. Pior: me julgam imoral, como se minha retidão pudesse ser afetada pela homossexualidade ou ateísmo. Contudo, possuo senso moral e fé, não num Deus, mas na capacidade humana de cultivar bondade no coração, independentemente de raça, credo, gênero ou orientação sexual.” (Heresia Light, por Vange Leonel)

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Gosto da Vange Leonel. Ao contrário de seu colega André Fischer, que a meu ver escreve muito como em uma cartilha da bicha feliz e descolada — uma coisa assim Capricho gay —, ela sempre tem um ponto relevante a destacar acerca não do dito mundo gay (lésbico, bi, trans, x, y ou z), mas de sua identidade e posição na sociedade contemporânea.

Veja, nada contra dicas de moda, manuais de comportamento e correlatos. Acho, inclusive, que eles são muito úteis a quem não desenvolveu ainda uma identidade sexual; penso que todo mundo que já se sentiu à par do que é imposto como socialmente (familiarmente, religiosamente) correto sabe o que eu quero dizer. Contudo, sou contra quando isso só faz acentuar as características de gueto em que a homo, bi ou transexialidade (sobre)vive.

Não gosto de me ver separado por véus comportamentais. Passei muito tempo da minha vida, mesmo sem saber, preocupado em fazer parte desta ou daquela patota, ser reconhecido como isto ou aquilo; fruto de uma carência social típica de um habitante do gueto, aquele que não pertence ao status quo. Isso nunca me trouxe o sentimento de identidade, muito pelo contrário, sempre me custou muito caro, psicologicamente.

Defensor da diversidade aliada à mistura, às vezes me irrita mais ver um viado com postura segregacionista do que um religioso tentando me condenar ao (seu) inferno. Este ataca o que não entende, o que teme, o que não aceita, mas aquele condena semelhantes próximos à marginalidade. Isso, sim, é viadagem.

De quando em quando eu tenho um fá grave

A parte boa, se é que há, de ter uma crise de rinite alérgica é a saudosa lembrança dos meus tempos de barítono, de quando eu tinha algo a acrescentar à parte baixa do pentagrama; de tanto espirrar eu viro um ogro. Então me realizo fazendo aqueles pedais ou aqueles desenhos descendentes da melodia, abrindo a harmonia até o dedão do pé enquanto os sopranos se jogam nas alturas e os tenores bancam os trompetes; bons tempos aqueles.

Sim, porque o grande desafio de um tenor é transformar berro em arte; ô, voz encruada! Quem ouve os tenores de carreira (não todos que de carreira não quer dizer necessariamente bom) deve achar que o sujeito abre a boca e canta, como por inspiração divina. Pois eu digo que se o divino tem alguma coisa a ver com isso foi no segurar a bunda do maldito no banquinho do piano enquanto ele mandava ver, diariamente, escalas, arpejos e mais meia dúzia de malabarismos vocais prá garantir que sua voz não soe como a curra de um pato com hemorróidas nos agudos e uma rã asmática nos graves.

Mas ainda assim, melhor ser tenor que ser o pato. :P

Eu preciso aprender a ser só

Ah, seu eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
E sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só

Da arte do desprendimento. Eu estou me empenhando, com afinco, em ser uma pessoa desapegada e independente, mas taquiospa, como é difícil! A gente devia viver os primeiros cinco anos de vida absolutamente sozinhos, na base da fotossíntese; surdo, cego e mudo. Quem sabe assim aprendia de cara e de uma vez, na pele, na marra, que cada um é um só, é sozinho e ponto. Pelo menos eu acho que já consigo escolher com quem estou, se não pelos motivos certos, por motivos menos errados.

Ódio de quem inventou que o ser humano é um ser social.

Senhores passageiros…

…última chamada para para a I Série de Concertos do Audi Coelum! Duas últimas apresentações do imperdível repertório devocional mariano:

Programa B — Messe de Notre Dame / Machaut – Cantigas de Santa Maria / Alfonso X, el sábio – Cantigas de Pe. Luiz Iruarrízaga. [Capela do Colégio Maria Imaculada: Rua Bernardino de Campos 79 – Paraíso].
Sexta-feira, 28/05, às 20h30.

Programa C — Stabat Mater / Palestrina – Audi Coelum / Monteverdi – Salve Regina / Monteverdi – Ave Maria / Camargo Guarnieri – Totus Tuus / Gorecki. [Igreja do Divino Espírito Santo: Rua Frei Caneca 1047 – Bela Vista].
Domingo, 30/05, às 19h.

Se você não for é porque é bobo, feio e chato! :P

Mario Bros

Faltava só a boina e o macacão porque, vamos combinar, a estatura do cidadão é bem dizer a mesma. Se bobear dava até prá ouvir a trilha do videogame, não fosse o barulho da furadeira na mansão Ramos & Quintela.

Um guarda-roupa, um espelho, um varal, um armário, um lustre, um porta papel-toalha, um porta CDs… eu tô ficando bom nisso! Ah, eu me divirto. Não sei bem o porquê, mas me divirto — mentira deslavada que eu sei muito bem que eu gosto mesmo é de ajudar; deixa de ser blasé, seu trolha!

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

E no sonho, chorei. Mas chorei doído, como nunca choro em dia. Chorei de dor aguda e sentida, uma dor de entranhas e tristezas profundas. Cada tijolo de uma construção sendo trocado por incertezas, como se fosse possível mascatear o lar de nossa existência; toda a solidez sendo de mim extinta. (Será? Será possível existir sem o arrimo de nossa essência?) Pois no sonho tive um medo do fim do mundo, um mundo sustentando meus sentidos, mantendo-me coeso. E chorei com a possiblidade de não ter mais onde ser.

Então acordei, pleno e existente, depois de ter chorado por uma vida. Suspirei um sonho de realidade no ar frio da noite. Guardei dos olhos a única lágrima no travesseiro e adormeci de novo, inteiramente.

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Mas assim, não há mau humor que perdure porque tudo basicamente é uma questão de escolha. E eu escolhi que um dia ruim tem que durar exatamente um dia. Eu sabia que meu dia ia ser uma bosta desde a noite anterior, não sabia? Então, pronto. Arruda, incenso, chocolate e Beethoven. Olho gordo, tchau e bênção! Minha carne é muito nobre prá servir de comida prá abutre. Xô! Chega de diálogos inúteis, uma noite mal dormida que se cure com outra bem dormida, a greve que se exploda e o relógio que apareça! Se não aparecer também, um dia compro outro; na falta a gente treina contando elefantinhos e aproveita prá perguntar as horas prá pessoa mais bonita que estiver por perto. O colo? Quem sabe na próxima, não foi dessa vez que acertaram o caminho; não foi dessa vez que abri as portas.

E enquanto eu me entupo de chocolate, Maurizio Pollini esbanja suas semicolcheias magistralmente pelos cinco concertos prá piano de Beethoven. Filarmônica de Berlim no palco, Claudio Abbado na regência. Um desbunde!

Cada um sabe dos seus surtos. Ou deveria.

Corrida maluca

Você sabe que não deveria ter saído da cama quando:

– Vai dormir às 3h da matina.
– Tem sonhos estranhos e um sono intermitente.
– Acorda às 6h.
– Tá frio.
– Tá chovendo.
– O teu humor não tá das coisas mais lindas.
– Você vai prá Campinas e a faculdade entrou em greve.
– Tua professora não está em greve, mas a aula é lá no fim do dia.
– O treino do almoço foi inspirado no moleque americano recordista em natação.
– Teu corpo dói.
(Já disse que tá frio? Pois tá ventando também. E a piscina é descoberta.)
– Você esquece o seu relógio, filho único de mãe solteira quase virgem, pendurado na baliza da piscina.
– E ninguém sabe ainda, ninguém viu.

Sabe a nuvenzinha do coupé mal-assombrado?
Se alguém me disser que podia ser pior, morre. É.

Noturnos de Chopin

Prá relaxar. Porque ninguém merece, depois de apenas uma semana e três encontros, depois de dois dias longe de casa numa correria dos infernos, depois de ensaio, depois de concerto, depois de acordar cedo, depois de dormir tarde, ligar todo cheio de amor a dar prá ser questionado, antes de quase mais nada, acerca do perfil no site de encontros que, por sinal, já existia — “será?” —, por que não ligou a cobrar se tava sem crédito — “será?” —, se a casa onde se hospedou é de um amigo mesmo — “será?” —, num tom tão calmo e inocente quanto o de um interrogatório de uma testemunha num tribunal que, aliás, não tem por que se irritar pois, afinal de contas, isso é só um questionamento natural e não se pode ser tão inflexível; não fique desse jeito, tome um banho quente, vá descansar, você precisa dormir, não sei como você agüenta essa rotina louca, me dá um beijo, vai, mais um, não seja assim, durma bem…

Eu posso estar enganado, mas não é assim que geralmente as coisas terminam? Deve ter um meio menos suicida de começar um relacionamento; assim é loucura! É como criar um touro dentro de um aquário. Ou então sou eu que não tenho base ou abstração suficientes e vejo tudo como um surto emocional permanente.

Sei não. Ao menos as teclas do piano sabem ser românticas. Obrigado, Barenboim.

O sol, a lua e a flecha errante do centauro

Dia de limpeza emocional e abertura mental para os taurinos, que ficam mais seguros e aptos a se relacionar numa base de compreensão. A intuição e a sensualidade estarão em destaque no final do dia. Contatos sociais e amorosos profundos e gratificantes. Ouse mais! (Barbara Abramo, domingo, na Folha)

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Concordo. Aproveita então e tira essa pulguinha detrás da minha orelha porque, por mais desencanado que eu esteja, alguns sinais são inconfundíveis. E vou te contar um negócio: se a cada noite de lua vier uma aurora de trovões — não os meus, que fique claro —, se cada parto tiver que ser na base do fórceps, eu tô fora! Não banco, não quero; não, muito obrigado. Para cumprir papéis em mim tão inadequados não subo ao palco, não faço cena. E cuide o tempo dos seus desígnios que eu de estresse já tenho os meus e por ora eles me bastam.

O que as pessoas querem, afinal? Um anjo, um puto, um amigo, um amante, um amor? Cada um, pelo visto, vê o que bem entende. Amor, meu grande amor, as fantasias só funcionam na cama e no carnaval! Não, eu não vou crucificar o meu desejo como se fosse o Cristo dos desejos alheios; de onde vem essa mania humana de expiar através do outro o que há em si? Carrego-o dentro de mim e ele é só meu; faço-o claro, mas cabe a mim entendê-lo, observando novamente a natureza das minhas escolhas. Como é que me disseram? Que eu tenho “um rosto sorridente, leve, e ao mesmo tempo com uma densidade profunda no castanho dos olhos”. É mais certo do que preciso.

Mas não é nada. Isso não é nada, apenas ruminescências de um touro, um tanto ferdinando, solto no pasto.

Heavens! Oh, Goodness… let’s have some drama

Ó dor, ó dor…
Martírio deste meu pobre coração que se confrange ante a cruciante provação que me é imposta. Ó céus, ai de mim! Destino ingrato! Por que me dás a graça que não posso aceitar? Família Caymmi, na faixa, justo em dia de concerto? Ah, cruel… Faz-me sofrer. Estou contrito.

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Murphyfilhodaputadocaralhomalditodesgraçadovaicuidardatuavida!!!

Canção do Amanhecer

Ouve
Fecha os olhos meu amor
É noite ainda, que silêncio
E nós dois
Na tristeza de depois
A contemplar
O grande céu do adeus
Ah! Não existe paz
Quando o adeus existe
E é tão triste o nosso amor
Ah! Vem comigo em silêncio
Vem olhar
Essa noite amanhecer
A iluminar
Os nossos passos tão sozinhos
Todos os caminhos
Todos os carinhos
Vem raiando a madrugada
Música no céu
(Edu Lobo e Vinícius de Moraes)

Dueto para cafuné em sol (ainda) menor.

Dadivoso

Tem dia que se eu fosse rico prenseteava o mundo! Não posso passar numa livraria, numa loja de CDs ou banquinha de camelô que eu já encontro bem uns cinco presentes diferentes prá dar, numa olhada — e dói deixá-los, como filhotes abanando o rabinho. Sabe assim quando você vê o nome da pessoa ali escrito? Pois modéstia à parte eu bem que acerto. O que fode é essa maldita penúria estudantil porque não precisava muito; que sobrasse um pouquinho a cada mês, eu já teria feito muito sorriso destravar por aí. É tão bom dar presente sem motivo ou data certa!

Então dou o que há em mim: pensamentos que embrulho em sentimentos brilhantes e coloridos; entrego o meu sorriso.

Procura-se

Faz meia semana, mas eu já tô morrendo de saudade; parece que faz um mês. É só saber que não tá aqui perto prá imediatamente a gente sentir falta de alguém?

The Fairy Queen

Come all ye Songsters of the Sky,
Wake, and Assemble in this Wood;
But no ill-boding Bird be nigh,
None but the Harmless and the Good.
(The Fairy Queen, Purcell)

Há os que dizem que nasceu loira. Há ainda os que dizem que nasceu emburrada. Provavelmente vai dizer que nasceu velha, mas isso é pura e taurina teimosia. Sem dúvida nasceu linda e seus olhos carregam uma luz de noite londrina; uma luz de passado poético, misterioso, um quê de conto de fada. Não importa. Eu sei que não importa, pois na verdade, no fundo e essencialmente, ela nasceu amando. E foi desse amor inato e ansioso que brotou a força de cada abraço, cada beijo, cada foto; sob o filtro de um olhar apaixonado.

Beth, meu amor, muitos flashes no seu FELIZ ANIVERS?RIO!

Movable Type 3.0

Prá falar a verdade, é um erro tão crasso de estratégia que eu não sei nem por onde começar. Vamos aos fatos, então.

Quem me conhece e conhece esse blog já sabe que eu era um defensor ferrenho do Movable Type que, aliás, é uma ferramentazinha de publicação do caralho. Meu único senão com o MT foi um bug decorrente da mudança de codificação de caracteres dos meus posts prá utf-8, coisa absolutamente normal num software desenvolvido por quem não usa acentos. Tão normal que eu esperava ansiosamente pela próxima versão do dito que, certamente, traria as pequenas correções necessárias para o problema. O que eu não esperava é que o pessoal da Six Apart tivesse o surto psicótico de cobrar uma exorbitância pela versão 3.0. E qual é o grande carro chefe da versão? Um sistema de autenticação gratuito — sabe-se lá deus até quando, pelo andar da carruagem — prá comentários e uma interface super, hiper, ultra, mega lindinha. Em uma palavra: perfumaria.

Ora pois, notaram que eu disse era lá em cima? Era, do verbo fora, de um pretérito bem grandão! Tá escrito im-be-cil aqui na testa do rapaz, por acaso? Com certeza eles acham super normal cobrar US$100,00 por uma licença de usuário não-comercial se você quiser ter mais que um usuário e três blogs. Não muito mais, que fique claro. E olha só, já sumiram com a versão 2.661 lá do site — opa! nossa senhora, como é que esse arquivo veio parar aqui? que coisa… :P — que era bem boa, inclusive. Por que será, hein?

Então ficamos assim, esses doidos achando que tão podendo enquanto cavam a própria cova e eu aqui dando uma olhada no WordPress que é bem interessante… Uia! Ele importa os posts do MT. Uia! Usa MySQL e PHP — no rebuilds! Uia! Montes de coisinhas.

Foi bom enquanto durou. Hasta la vista, Movable Type!

+

Isso aqui merecia um adendo. (a) O MT continua sendo uma puta ferramenta, por isso mesmo deixei a última versão gratuita disponível. (b) Se você não precisa de mais do que a versão gratuita do MT 3.0 oferece então vai fundo, não vai se arrepender (mas eu não coloco mais a minha mão no fogo pela política da empresa). (c) O pessoal da Six Apart tem todo o direito de cobrar pelo extenso trabalho de desenvolvimento do seu produto, mas, (d) como eu disse, é um erro estúpido de estratégia de mercado, pois (e) eles não deviam ter anunciado com tanto alarde a nova versão, muito menos dito (e foi dito) que ela seria gratuita. (f) E se a empresa perder credibilidade desse jeito junto aos seus usuários justo agora, fodeu. (g) Usuário traído é um bicho ruim que só, inclusive eu.

It’s show time!

Super Trouper
beams are gonna blind me
but I won’t feel blue
like I always do
’cause somewhere in the
crowd there’s you

I was sick and tired
of everything
when I called you
last night from Glasgow
all I do is eat
and sleep and sing
wishing every show
was the last show
so imagine I was
glad to hear you’re coming
suddenly I feel all right
and it’s gonna be
so different when
I’m on the stage tonight

Tonight the
Super Trouper
lights are gonna find me
shining like the sun
smiling, having fun
feeling like a number one
tonight the
Super Trouper
beams are gonna blind me
but I won’t feel blue
like I always do
’cause somewhere in the
crowd there’s you

Facing twenty thousand
of your friends
how can anyone
be so lonely
part of a success
that never ends
still I’m thinking
about you only
there are moments when I
think I’m going crazy
but it’s gonna be alright
everything will be
so different when
I’m on the stage tonight

Tonight the
Super Trouper…

So I’ll be there
when you arrive
the sight of you
will prove to me
I’m still alive
and when you take
me in your arms
and hold me tight
I know it’s gonna
mean so much tonight

Tonight the
Super Trouper…

Quando criança eu ouvia músicas sem nem saber de onde eram, quem cantava, quem escreveu. Aliás, esse é um hábito que perdura; precisou sempre muito pouco prá uma música se fixar no meu ouvido, e lá ia eu cantando em idiomas às vezes um tanto bizarros — o tema do coral da Nona Sinfonia de Beethoven (uma ode à alegria) minha mãe diz que eu cantava sem nem saber falar direito, pois era o tema da abertura de uma novela; algo assim. Mas eu sempre gostei de arranjos vocais. Não importava se era brega, mpb ou erudito, eu gosto do trabalho com vozes, a combinação de seus timbres, e eu me lembro muito bem dessa música numa fita cassete velha da minha prima, na casa da minha avó, o baixo brincando com as palavras “super trouper” no refrão, as vozes femininas fazendo acordes fechados no agudo.

Muito tempo depois fui descobrir que era ABBA. Mas muito tempo mesmo, acho que eu já era quase adulto. E, ora vejam só, provavelmente isso (ou ela) explica muita coisa, não? You can dance, you can jive…

+

Claro, tudo isso é pretexto prá lembrar todo mundo que hoje à noite tem o concerto de estréia do Audi Coelum, o primeiro de uma série de três repertórios e seis concertos; dá prá imaginar a maratona? Então, às 20h30 da noite você poderá conferir o nosso esforço lá no Mosteiro de São Bento. Sim, porque você não quer perder a oportunidade de ver aquela abadia se encher harmoniosamente de vozes — quem sabe a sua própria voz vibrando internamente —, nem de escutar um dos mais extraordinários órgãos de tubos (alguns milhares deles, de fato) de São Paulo, construído especialmente para aquela arquitetura. Ou quer?

Diz que deu, diz que dá, diz que deus dará

Bem que me esforço um bocadinho prá me tornar uma pessoa menos alienada. Mas tem dia que o jornal não ajuda; é um desgosto só! Já o primeiro caderno tava uma coisa absolutamente primorosa, de dar crise de choro em coveiro.

Virando a primeira folha, um lindo texto do tetraneto de Dom Pedro I, que pensa que é nobre — onde esse povo acha que vive, hein? —, discorrendo sobre as agruras que hoje sofre a TFP: “Não há mister de uma especial argúcia política para discernir a quem interessa, agora, o silenciamento da TFP no quadro ideológico do Brasil.” Alguém dá um enxadão prá esse desinfeliz, faz favor? Manda ele cortar cana no pró-álcool já que ele tá assim tão preocupado com o progresso do país.

Virando a segunda folha, aquela história do jornalista do New York Times. *Suspiro*. Não bastava o jornal publicar uma materiazinha de caráter tendencioso e mal fundamentada, tinha o governo que dar uma de criança birrenta e dona da bola justo agora. Já não tem polêmica o suficiente? Companheiro, veja bem, era só desacreditar a capacidade obviamente rala do cidadão de discernir a realidade do próprio país da do resto do mundo, ao invés de dar argumento pro povo sair por aí dizendo “tá vendo, mais um Hugo Chávez!”

Tá pensando que acabou? Esta doeu particularmente: Maluf se lança candidato à prefeitura na segunda-feira. A essa altura cortar os pulsos seria perfeitamente compreensível; os dele, claro, prá que nunca mais escreva declarações inflamadas de inocência e corretude, tampouco assine qualquer outro documento de banco suíço. Aliás, eu espero que ele não consiga mais limpar nem a bunda, o que dizer da própria barra.

Daí ainda temos um civil americano degolado por insurgentes no Iraque — o que diabos esse doido tava fazendo lá, meu deus?! —, uma bandalheira nos depoimentos do Pentágono sobre os casos de tortura, freiras de Boston acusadas de abusos sexuais contra alunos surdos — depois o tarado sou eu… — e ONU investigando abusos sexuais cometidos por sua missão no Congo. Mas que beleza! Até o cachorro vai ficar com medo de fazer cocô num jornal desses; ainda bem que eu sei usar a privada.

Ah, esqueci! Tem a foto de um cartaz da Nicole Kidman em Cannes, bem na capa. Os impossíveis olhos azuis da moça tão fora de esquadro; tá parecendo a Brenda de Barrados no Baile, lembra? Ainda por cima detonam meus paradigmas de beleza. Eu não vou nem olhar as fotos do Bernal prá não correr o risco!

Ouvi, ó céus!


www.audicoelum.mus.br

O Audi Coelum dedica sua estréia ao repertório devocional mariano. Esta série restaura uma prática antiga, quando alguns concertos eram realizados nas igrejas exclusivamente para que os fiéis apreciassem a música sacra como meio de se aproximar da essência divina.

A I Série de Concertos do Audi Coelum terá três programas diferentes, cada programa apresentado em duas igrejas durante o mês de maio, que é, para os católicos, o mês de Maria, o mês das mães.

Entre os aspectos diferenciais desta série, é a primeira vez que um único grupo realiza três programas diferentes em um único mês, com um único tema. No primeiro programa será apresentado o Magnificat de Henry Purcell como obra de destaque, junto a obras para órgão. No segundo programa, a principal obra será a Messe de Notre Dame, composta no século XIV por Guillaume de Machaut. Por fim, o terceiro programa da série será encabeçado pelo Stabat Mater a dois coros, de Giovanni Pierluigi da Palestrina e outras obras com acompanhamento instrumental.

Para essa realização, as obras serão apresentadas em formações que irão variar de um ensemble masculino até um tutti de 60 cantores, e um dos programas contará com a participação especial da atriz Esther Góes.

+

O convite está feito. Independentemente do seu credo, é uma ótima oportunidade de entrar em contato com música coral de excelente qualidade e de períodos tão diversos — da renascença ao contemporâneo, precisamente. Fora o fato de me ver lá cantando, é claro. ;)

E se você se interessou, visite o site. Tem o repertório completo dos três programas lá e a tradução da maioria das obras. Mas se você realmente se empolgou, pode ajudar na divulgação colocando o banner no seu blog, convidando o vizinho, a tia velha, o moço da quitanda, enfim, fazendo uma pequena propaganda básica.

Algures

Só prá constar dos autos, uma sensação muito estranha de deslocamento espaço-temporal hoje; segunda-feira? Sai inércia! Queria alguém do meu lado. Alguém legal. Mas assim, dá-me um carinho e vai-te embora! Depois eu te ligo.

Quem é esse estranho que habita o meu corpo?

O primeiro pedaço de bolo

Ah, se todo mundo tivesse uma mãe como a minha… Se até deus colocou a sua acima de todas as outras por que eu também não posso? Mãe é mãe, mas que nem a minha só tem uma! Não dou, nem vendo; empresto, só um pouquinho, no almoço do domingo, no fim de semana aqui em casa, na roda de samba — um espetáculo! —, precisa ver, o melhor colo do mundo!

Rosa rubicundior, lilio candidior

In trutina mentis dubia
fluctuant contraria
lascivus amor et pudicitia.
Sed eligo quod video,
collum iugo praebeo;
ad iugum tamen suave transeo.

Sim, é você que eu procuro todo dia, com lascívia e casta resignação. É você que eu persigo em sonhos, delírios, pelas ruas dos meus devaneios e é em você que eu penso quando escrevo. É que há tanto aqui dentro e às vezes é tão forte que eu não suporto; é quando chove. De repente, e é como um suspiro de exaustão, o céu desaba em muitas gotas, grandes, soberbas e luminosas, e vira rio. Eu não agüento; ele corre e eu respiro.

É por você que eu vivo e morro um pouco a cada dia. É na alegria do teu riso e no fundo dos teus olhos que eu me encontro, mas acho que você não sabe. E é da mesma forma, só que triste, que eu me escondo no teu colo quando faz frio. Porque você é, Amor, a única coisa que verdadeiramente importa. Não algo por que se valha à pena morrer, não! É o contrário, justamente, é você que dá sentido à minha vida; de certa e maravilhosa forma é em você que ela reside.

É por isso que eu te procuro. Aqui dentro, hoje e sempre, eu te procuro, grande Amor da minha vida. Porque todo outro amor é apenas um véu que te esconde; um eco que com esperança e agonia te recria à minha imagem e semelhança. E a cada véu que eu levanto, a cada máscara que eu retiro e quanto mais fundo eu te procuro no meu poço, eu sei, Amor, mais e mais eu ilumino, mais perto eu chego do teu verdadeiro rosto.

Antes que o céu caia na minha cabeça

Deixe-me ver…

Primeiro foi a caixa externa do antigo gravador de CD que caiu bem em cima do teclado novinho em folha e quase o partiu no meio, lançando algumas teclas à distância. Infelizmente os pezinhos de trás do teclado não tiveram o benefício desse “quase”; meu teclado tá manco. Depois me avisam que a tábua de carne da cozinha deu uma de kamikaze e de toda a pia foi se jogar logo em cima da minha xícara grandona de tomar sopa e comer sucrilhos. E como se não bastasse ainda teve aquele potinho duralex que explodiu bem do meu lado, no chão, e espalhou aqueles cacos miudinhos por tudo quanto é canto.

Um milagre o metrô não ter descarrilhado hoje comigo dentro, mas eu tenho certeza que uma daquelas estátuas da igreja tava me fazendo mira, a sacana. :P

Bit Torrent

(ou, uma releitura de Cristo e o milagre da multiplicação dos mp3)

A interface via de regra é uma merda, mas o negócio funciona; e bem demais, inclusive. Depois de baixar todas as nove sinfonias de Beethoven numa paulada só, me pego cogitando a possibilidade de adquirir uma coleção imperdível de 15 CDs do ABBA enquanto o servidor, claro, chupinha The Ultimate Collection, de Barbra Streisand — sentiu o nível? E valha, tem coisa aqui que faz ABBA parecer repertório de concerto! — largue já essa pedra, eu gosto de ABBA.

Me enganei, tá mais prá releitura da maldição do 1406. Abafa.

’tis true

Alas, ’tis true I have gone here and there
And made myself a motley to the view,
Gor’d mine own thoughts, sold cheap what is most dear,
Made old offences of affections new.

Most true it is that I have look’d on truth
Askance and strangely: but, by all above,
These blenches gave my heart another youth,
And worse essays prov’d thee my best of love.

Now all is done, have what shall have no end!
Mine appetite, I never more will grind
On newer proof, to try an older friend,

A god in love, to whom I am confin’d.
Then give me welcome, next my heaven the best,
Even to thy pure and most most loving breast.
(William ‘Xará’ Shakespeare, o taurino. Sonnet CX)

Indeed, isn’t it?

Thy merry gifts

E a criança olhou prá aquela caixa linda e enorme sem conseguir se conter; abriu-a de uma só vez, a mãozinha ansiosa lançando o papel dourado e a fita vermelha no ar. Vários presentes então voaram diante de seus olhos: muitos sorrisos, abraços e beijos sem fim, a língua insistente dos telefones, o riso contagiante e algumas gotas de lágrima pura brilhando à luz da lua cheia que mandaram aparecer. Aquela noite ela dormiu feliz e certa de que nunca antes fora outra; como se a felicidade fosse brincar de roda eternamente.

+

Obrigado aos presentes. E como se não bastassem — e bastariam! — ainda há as lembranças de ouvir, de ler (e de ler nas coisas de ler), de brincar, de passar e de sentir, mais aquele bilhete que de tão maravilhoso faz-se inseparável, as palavras, das bolinhas que badalam em minhas mãos. Obrigado por todo esse amor.

2.8 Turbo

Já dizia Cartola: “Corra e olhe o céu / Que o sol vem trazer bom dia”. Mas não corri. Ao invés disso, abri a janela com a tranqüilidade dos amanhecidos de domingo, embora seja segunda, prá receber essa luz toda que já é um baita presente; que dia lindo!

Cada vez mais homem serei sempre menino, a cada aniversário, porque o que me faz sentir vivo é essa alegria infantil. Sei que não vim aqui a brincadeira, mas é por essa criança risonha que eu reafirmo cada passo; é por ela que luto, que aprendo, que cresço, é por ela que busco, dia a dia, dentro e fora, o meu quinhão de felicidade nesse mundo. E tropeço. E caio. E levanto. E recomeço. Se choro, é prá lavar os olhos, prá aprumar o rosto. Se sorrio, é com um sol aqui dentro e pro mundo inteiro. Mas é prá ela, somente prá ela, que eu dedico o terceiro dia de maio; prá que ela não desista nunca de existir dentro de mim.

Meu Feliz Aniversário! :D

No divã com Figaro

Nem na véspera do meu aniversário eu escapo. Fato é que, quando vi, o amigo de fora, nem tão próximo assim, a quem eu abri as portas da hospedaria já tinha aberto porteiras e comportas bem no meu ombro. E quando isso acontece, bem, eu sou incapaz de oferecer apenas um copo d’água com açúcar.

Mas olha só, eu tenho feito a minha lição de casa e disse tudo o que eu achei que devia, que ajudaria, mas nem uma vírgula a mais do que podia; e, por deus, dessa vez eu fiquei longe, bem longe do vespeiro. Como eu sei? Sabendo. Dá mesma forma que ele sabia que podia parar de se torturar um pouco e encontrar algum contraponto. Quem sabe? Com certeza ele não pensou: “Ah, vou aproveitar que eu tô aqui mesmo e abrir as minhas entranhas pro Gui, ele parece um cara legal.”

Mas existe uma diferença muito grande entre aliviar o fardo de alguém e se encarregar dele, e é por isso que eu estou orgulhoso de mim mesmo. Sabe o que é ver alguém partir melhor do que chegou — você vê a esperança de um caminho nos olhos dele —, mas suas mãos continuam limpas e seu coração não carrega nada que não seja genuinamente seu? E seus sonhos, tão acostumados a lhe mostrar bestagens, fazem-no sem angústia? Pois. Vi uma pessoa com dificuldades em se aceitar chegar e sair um tiquinho mais confiante, curioso acerca de si mesmo e interessado no que tem de bom. Isso (também) me faz feliz.

Mas o que me intriga é o seguinte: o que leva um cara legal, bonito (gostoso mesmo), inteligente, simpático, educado, sensível, delicado, porém masculino e hétero — mulherada, veja bem, não-gay — a procurar refúgio aqui? Sim, ele sabe de mim, eu mesmo disse. Meninas, vocês tão dormindo no ponto! :P (eu não podia perder a chance de dar essa provocada)

E antes que eu me esqueça, por via das dúvidas, vale lembrar, isso aqui não é o divã da Mãe Joana, nem vem! Seguro morreu de velho.

Adivinhe, se gosta de mim

….Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
(Chico Buarque)

Vesti a mesma camisa da véspera e pensei em você. Não, pensar não é o termo apropriado. Aqui em meu quarto, no momento entre a cama e o resto do dia, senti frio; foi quando vesti a mesma camisa de antes e senti você. Teu cheiro, o perfume, se o fizesse com cuidado até a força dos teus dedos estaria ali impressa. Deliberadamente — e não sem um certo esforço — me abstenho de pensar, pois quando penso acho que entendo e daí concluo. Mas a conclusão encerra um fim em seu significado e eu apenas comecei a ser feliz. Então não penso, apenas acho.

Acho que nos demos bem, não acha? — se eu fosse você também não pensaria. Acho inclusive que há um entendimento não verbal que ultrapassa esse momento, mas posso estar enganado. Afinal, quantas vezes já esperei encontrar o que nem sei se em mim havia, meu deus? Então por ora, não espero nada, tampouco busco significados na tua presença envolvente. Seja assim mesmo para que eu possa continuar meu exercício de ser cada vez mais eu. E a gente mostra o resultado ali adiante, à guisa de uma descoberta brilhante. Mas não minto, se há algo que eu sempre espero, invariavelmente, é a chance de dizer adeus e não uma partida omissa.

+

É curioso como mais e mais as pessoas se furtam a um envolvimento afetivo por menor que seja. Parece que conhecer o outro dá trabalho. Ok, dá, mas não vale à pena? A graça toda não reside em aprender os sinais, descobrir os detalhes, encantar-se por cada traço de personalidade que compõe o outro e perder-se ligeiramente nesse universo só prá ver então ecos do outro ressoarem pelas horas do seu dia? Mas parece que não, infelizmente não. O que importa é o lucro rápido, o retorno imediato de um investimento efêmero; esgota-se uma possiblidade como se esgota monoculturalmente um solo, como uma alta da bolsa, como vendedores de guarda-chuvas em tardes de tormenta que se dissipam como fantasmas ao primeiro raio de sol. E eu nem sonhava que o amor pudesse ser tão capitalista.

Pidão!

E por falar em aniversário, quem é que vai me dar o último CD — The Salieri Album — da Cecilia Bartoli? Ah, tá bom, tá bom, pode ser o penúltimo — Italian Gluck Arias — que eu não ligo! :P

De qualquer forma, ouçam isso: “Vieni a me sull’ali d’oro…”. Depois comprem o danado e façam uma criança — eu! eu! eu! — feliz.