La scuola de’ gelosi

Cecilia Bartoli — The Salieri Album“No final do século XVIII, compositores começaram a favorecer o rondó como um meio de permitir que os personagens expressassem seus sentimentos mais profundos e os cantores demonstrassem suas habilidades interpretativas. Salieri escreveu o rondó “Ah, sia già” especialmente para Nancy Storace (a Susanna original em As Bodas de Figaro de Mozart, em 1786) quando em 1783 La scuola de’ gelosi, outro dramma giocoso*, foi escolhido para abrir a recém reestabelecida sessão de ópera italiana no Vienna Burgtheater (…). Em “Ah, sia già” a Condessa lamenta a infidelidade de seu marido antes de declarar seu contínuo amor por ele e sua esperança de reobter seus afetos. Salieri cria aqui uma personagem de carne e osso — uma precursora óbvia da Condessa de Mozart — que dos primeiros compassos de seu recitativo é dividida entre impetuosidade e medo, incerta se deve concordar com o plano do Tenente para causar ciúmes ao Conde com uma carta de amor falsa endereçada a ela mesma (“Chi altrui nel core sa destar gelosia, risveglia amore” — Qualquer um que consegue incitar ciúmes no coração do outro, pode despertar amor). No próprio rondó, verdade psicológica e forma musical unem-se enquanto a Condessa se move da reflexão, introspecção e dúvida para a esperança, e é esta última emoção que prevalece na tranqüila e positiva conclusão.”
(Cecilia Bartoli Online — The Salieri Album)

Eu quero esse CD! Eu preciso disso prá viver, entendeu? Não, não de ciúmes (amor, talvez, quer dizer, com certeza), mas que o Picasso ali embaixo tem razão, lá isso tem: “A arte não é a verdade…”, mas ô mentirazinha convincente! Enfim, a verdade é que a gente grita, briga e bate o pé, mas mais cedo ou mais tarde se rende a um sonho ou outro. E ainda bem, pois são os sonhos que movimentam as pernas (as minhas pelo menos). Então, sonhemos com cuidado e com vontade. E quando não der a gente se acaba no chocolate.

*dramma giocoso é um tipo de ópera que mescla no seu enredo de conteúdo dramático e/ou romântico traços de comédia, muitas vezes representada por certos personagens, como é o caso de Leporello, em Don Giovani, ou de Cherubino, o pajem de As Bodas de Figaro, ambas de Mozart.

Minha alma (ainda) canta

A Saudade Mata a Gente
(Antônio Almeida e João de Barro)

Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E nas redes nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
Mas agora, meu Deus, vou-me embora
Vou-me embora e não sei se vou voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar

A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente

Sinto falta de coisas simples. E como sempre, quando subo prá cabeça não sei dizer direito o que sinto. Aninho-me no peito, então, e ele me parece vasto, tão cheio de reverberações. Há um calor que nesses dias chuvosos sente falta de semelhança e medo do frio, prende-se na memória de um calor de tantos ecos; felicidade de olhos fechados.

É nessas horas lentas que mais sinto saudade do meu sorriso refletido no teu.

O ego, o umbigo e a pimenta no cu dos outros

Sabe qual é a maior fraqueza do cego? É não cogitar a cegueira alheia. Então desculpa se a minha bengala lhe apertou a unha encravada do dedão. Também não culpo a bordoada e o impropério de quem não me viu. Vamos tateando com cuidado.

Mas agora com licença que tá na minha hora. Tá escuro aqui e como você vê — que ironia — tô tropeçando em algumas pedras. Atravessam-lhe o caminho também? Tenho que atravessar a rua. Vai chover, não? Hein, as horas? Não sei, acho que agora. Mas, prazer, quem é você mesmo? Você me conhece?

Ecco!

Piove, piove
Fa tempo che piove qua, Gigi
E io, sempre io
Sotto la tua finestra
E vuoi senza me sentire
Ridere, ridere, ridere
Di questo infelice qui

Ti ricordi, Gioconda
Di quella sera in Guarujá
Quando il mare ti portava via
E me chiamaste
Aiuto, Marcello
La tua Gioconda
A paura di quest’onda

Salve, Adoniran! Das minhas memórias relacionadas à música uma delas é aquela propaganda de macarrão (ou Pomarola, ou Pomodoro…) com aquela italianada toda em volta da mesa catando e rebolando sentado na cadeira, o que deve ser o primeiro, senão o único, samba italiano da história. Tá, com esse meu perfil romano eu nem precisava de propaganda prá lembrar coisa alguma. Tem coisas que só o Bixiga faz prá você.

Eu só não sei se foi a fome ou a chuva que me fez lembrar disso.

Carioquices

Andaram dizendo por aí — muito imparcialmente, por sinal — que eu tenho a cara do Rio, a cor do Rio, o jeito do Rio, que eu devia me mudar pro Rio… Enfim, já que isso não é possível, agora, pelo menos — DROGA! —, aí vai um comentário tipicamente carioca:

Só São Paulo prá começar um carnaval com garoa e frio! :P

Mango chutney

Take a chance on me
(Benny Andersson & Björn Ulvaeus)

If you change your mind
I’m the first in line
honey I’m still free
take a chance on me
if you need me
let me know
gonna be around
if you got no place to go
when you’re feeling down
if you’re all alone
when the pretty birds have flown
honey I’m still free
take a chance on me
gonna do my very best
and it ain’t no lie
if you put me to the test
if you let me try
take a chance on me
(that’s all I ask of you honey)
take a chance on me

We can go dancing
we can go walking
as long as we’re together
listen to some music
maybe just talking
you’d get to know me better
’cause you know I’ve got
so much that I wanna do
when I dream I’m alone with you
it’s magic
you want me to leave it there
afraid of a love affair
but I think you know
that I can’t let go

(refrão)

Oh you can take your time baby
I’m in no hurry
I know I’m gonna get you
you don’t wanna hurt me
baby don’t worry
I ain’t gonna let you
let me tell you now
my love is strong enough
to last when things are rough
it’s magic
you say that I waste my time
but I can’t get you off my mind
no I can’t let go
’cause I love you so

If you change your mind
I’m the first in line
honey I’m still free
take a chance on me
if you need me
let me know
gonna be around
if you got no place to go
when you’re feeling down
if you’re all alone
when the pretty birds have flown
honey I’m still free
take a chance on me
gonna do my very best
baby can’t you see
gotta put me to the test
take a chance on me

Eu acho que amizade é que nem manga: você tem que arrancar a casca, meter a cara e se lambuzar todo; você pode até ficar cheio de fiapos entre os dentes, mas a polpa perto do caroço é muito mais doce.

(ok, ABBA foi foda…)

Patty, a pimenteira

É que é preciso aquiescer
a toda força extrema;
audácia é nosso problema
apesar do grande arrepender.

E depois, é tão normal
que mude o que afrontamos:
a calma vira temporal,
o abismo, molde de um anjo.

Não temamos desvios de norte.
Soem os Órgãos seu clangor,
para que a música transborde
de cada nota do amor.
(R. M. Rilke, Jardins)

Que proteja e que arda.
Mas que não passe nenhum sabor desapercebido.
Obrigado, a nós. Obrigado-nos.

Prestenção!

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

(João Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas)

Legado

Da profissão do poeta
(Geir Campos)

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.
Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio de meu canto.
Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
Sem se tornar com isso menos pura,
A voz sobe uma oitava na mistura.
Não canto onde não seja a boca livre,
Onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo — ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto…
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem a esperança.

Esse é prá eu não esquecer a que vim e as verdades de que sou feito.

E hoje é dia de ouvir ópera. Muita Cecilia Bartoli, muita Caballé, Callas, Berganza, Te Kanawa, Freni, Tank, Nilsson, Ludwig, Norman, Price, Sutherland, Borodina, Stuzmann, Von Stade, Tebaldi, Horne. Muito Nicolai Gedda, Gigli, Domingo, Caruso, Pavarotti, Ramey, Fischer-Dieskau, Terfel, Cura, Björling, Bergonzi, Corelli, Scholl, Di Stefano, Del Monaco, Carreras, Ghiaurov.

E, por que não, Bethânia, que hoje eu acordei com fogo nas ventas!

Construção

Na casa onde eu vou morar não haverá portas para não as bater, apenas janelas daquelas de casas antigas, imensas, iluminadas e arejadas para que se veja tanto o sol quanto a tempestade. Também não haverá carpetes ou tapetes que eu quero sentir muito bem os meus pés no chão e saber onde piso, mas, principalmente, para que sujeira alguma seja jamais varrida para debaixo deles.

Faxina

The Way Things Are
(Fiona Apple)

I wouldn’t know what to do with another chance
If you gave it to me
I couldn’t take the embrace of a real romance
It’s race right through me
I’m much better off the way things are
Much much better if, better by far, by far
I wouldn’t know what to say to a gentle voice
It’d roll right past me
And if you chalk it up you’ll see I don’t really have a choice
So don’t even ask me
I’m much better off, the way things are
Much much better off, better by far
So keep on calling me names, keep on, keep on
And I’ll keep kicking the crap till it’s gone
If you keep on killing, you could get me to settle
And as soon as I settle, I bet I’ll be
Able to move on
How can I fight, when we’re on the same side
How can I fight beside you
So keep on calling me names, keep on, keep on
And I’ll keep on kicking the crap till it’s gone
If you keep on killing, you could get me to settle
And as soon as I settle, I bet I’ll be
Able to move on
So keep on callng me names, keep on, keep on
And I’ll keep kicking the crap till it’s gone
If you keep on killing, you could get me to settle
And as soon as I settle, I bet I’ll be
Able to move on

Passei anos da minha vida tentando me convencer de que eu era uma pessoa legal sem saber que de fato eu era. Saturno tá chegando, é hora de lavar o rosto, criar vergonha na cara e seguir adiante.

O jeito que as coisas são

Uma cena. Você está numa festa. Você conversa animadamente ou não, mas despreocupadamente com uma ou mais pessoas amigas, aqui ou ali, tanto faz. Você dança. As pessoas riem. De repente você olha prá uma delas, bem próxima, que olha prá você num misto de naturalidade e pânico mal disfarçado. “O que foi?”, você pergunta. “Nada”, ela responde. Você segue, mas antes que você se mova ela grita “Pare! Não se mexa!” e você pára. Você não tem idéia de por que ela gritou. Nesse momento você não sabe se há uma abelha no seu pescoço, uma aranha bem em cima da sua cabeça ou uma cobra nos seus calcanhares, mas de repente o chão parece estar repleto de ovos que você não tinha visto. Tudo o que você vê é o que está nos olhos dessa outra pessoa: você tenta, mas não percebe. Você se pega tentando entender como todos aqueles ovos foram parar ali, em um milésimo de segundo, com medo de mexer um dedo. Corta.

Outra cena. Você está dando uma festa. Você ri. As pessoas riem. Aqui e ali, hora ou outra os convidados estão dançando. As pessoas vêm e vão. De repente você se dá conta de que tem gente demais. O barulho é muito grande e prá ser ouvido você tem que gritar. A bebida está acabando. A comida não agradou, embora ninguém diga. Você ouve vozes conhecidas mas indistintas percorrendo o curso da barulheira. Em algum canto um vaso seu é quebrado. Derrubam um cigarro no seu tapete. As pessoas vêm e vão e você começa a ser indelicado. Não era isso que você queria. Não era isso que você tinha planejado. Tudo parece normal, mas estranhamente errado. As pessoas vêm e vão. Você abaixa o som. Começa a recolher a sujeira. Um a um você acompanha os presentes até a porta, a delicadeza da voz disfarçando a preocupação da testa, calando a loucura, encerrando a festa. Corta.

Close. Toda a tensão subentendida ao som intermitente do silêncio entrecortado de uma torneira pingando.

Frêmito

“Nossas bocas estavam tão próximas que o beijo devia ter começado há muito tempo sem que soubéssemos. Você partiu uma palavra em migalhas para me dizer: “Me beija”.

Eu não encostei logo em teus lábios, embora estivessem tão próximos dos meus que uma folha de papel de seda não poderia passar entre eles. Eu os rodeei, devagar. Minha boca, entreaberta, respirava sua semelhante. Demorou. Demorou como demora o tempo amoroso. De tanto respirar, nossos lábios secaram. Eu molhei docemente teus lábios com a língua, e em seguida molhei meus lábios nos teus. Lentamente.”
(Hélène Pedneault, Les chroniques délinquantes)

Já ouviu falar em crise de abstinência? Pois…

Dourado

Nós os perecí­veis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me
(Ainda, Pablo Neruda)

Eu sei, não tenho do que reclamar, mas a gente sempre chia quando pisa no chão frio depois de uma noite de sono quente. É que tudo o que é bom a gente nunca quer que termine ou pare. Mas há a pausa, há sempre o contratempo. Há a época de contemplar e a hora de prosseguir — não se iluda, eu ainda flutuo na primeira instância. E há essa luz dourada em tudo o que vejo, pois os sentidos da memória sabem ser benevolentes e tudo o que sinto parece abençoado — por que não?

Eu agradeci? Disse obrigado o suficiente? Obrigado, Clau, Paulo e Marina — juízo, hein? — pela acolhida familiar, pelo café, pelas risadas, pela cumplicidade. Obrigado, Fá, pelo teto, pelo convite, pela dança, pela conversa. Obrigado, Liz, por estar ali, tão linda e pronta a sair, falar bobagem e discutir sobre as questões antropo-sexo-afetivas das psiquês (bem ou mal resolvidas) humanas, em suma, prá falar da vida, nossa ou não. Obrigado, Meg, pelo carinho, pelo telefonema — não se preocupe, a gente ainda acerta esse esquema.

Fosse só isso e já seria ótimo, já teria sido bom demais. Mas como não bastasse todo o sol e todo o som, foi o verão cruzar o meu caminho ao teu. Pisamos descuidados nessa trilha de mãos dadas, meus pés descalços brincando com os teus. E foi assim que eu me apaixonei pelo teu sorriso, pelo teu jeito de falar, é verdade, pela tua risada, por toda essa vida que mesmo quando carrega a cara amarrada não me engana, faz questão de ser feliz.

“Ainda que chova, ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri”

Nunca se esqueça disso, paixão, porque eu não vou me esquecer, mesmo que tenha de segurar o sol nas mãos prá evitar que ele se ponha. Pois eu carreguei um pedacinho teu comigo e ele tá guardado, áureo, pulsando aqui em mim. Ainda e sempre.

(Ciber-)cu doce

Ninguém merece chegar de férias e passar bem dois dias lutando com o computador e seus programas. Eu já vi bicho de estimação fazer greve de fome quando o dono viaja, mas isso aqui já é ridículo!

Vai, carroça! Tu não tem pêlo, não ronrona nem abana o rabo prá ficar agora com essas frescuras! Vai, anda! :P

De volta do samba

Cheguei. Tão de repente quanto parti, mas completamente a contragosto, se você quer saber. Voltar à vida normal é um porre, ainda mais quando a sua empresa de telefonia celular — mais conhecida como Vivo, não comprem, é uma bosta, não lhe atendem direito, não resolvem os seus problemas, roubam descaradamente os seus créditos enquanto o seu celular não funciona no outro estado sem lhe dar a mínima satisfação e eu espero sinceramente que algum filho da puta de lá leia isso aqui (por favor, meu deus, me dá essa alegria) prá eu poder fazer eles se arrependerem de me terem como cliente, duplamente, no PROCON e ao telefone, se possível — se esmera em lhe tirar do sério, seu quarto virou depósito de caixas de papelão coletadas pela sua mãe para a mudança da(s) sua(s) tia(s) e você descobre que toda aquela chuva que não caiu na sua praia tá lhe esperando em casa porque tem goteira no seu quarto e também no seu banheiro. É a (maldita) rotina cobrando o seu quinhão. Assim fica difícil, é como acordar de um sonho bom ao som de marteladas.

Mas eu não troco um segundo das minhas férias e, se possível, ainda barganhava mais uns dias. A minha presença aqui é meramente física, continuo lá e o lá aqui, impresso em cada terminação nervosa. Quando olho as horas, elas têm sotaque. Meus sentidos não aceitam o que o tempo daqui lhes apresenta. Fecho os olhos e ouço as ondas, o som de muitas risadas, vejo o verde dos morros, sinto o gosto de um beijo. Melhor então é abri-los devagar, imaginando que me sussurram ao pé do ouvido algumas boas e doces indecências.

Muitas felicidades, muitos anos de vida

My Funny Valetine
(Rodgers & Hart)

Behold the way our fine feathered friend,
His virtue doth parade
Thou knowest not, my dim-witted friend
The picture thou hast made
Thy vacant brow, and thy tousled hair
Conceal thy good intent
Thou noble upright truthful sincere,
And slightly dopey gent

You’re my funny valentine,
Sweet comic valentine,
You make me smile with my heart.
Your looks are laughable, un-photographable.
Yet, you’re my favorite work of art.

Is your figure less than Greek?
Is your mouth a little weak?
When you open it to speak, are you smart?
But, don’t change a hair for me.
Not if you care for me.
Stay little valentine, stay!
Each day is Valentine’s Day

O mundo brilha um pouquinho mais a cada vez que você sorri.
Feliz Aniversário, paixão!

Atração fatal

Na primeira semana um chupão, agora uma água-viva… Ah, qualé?! Desde quando meu pescoço é tão irresistí­vel assim? Que coisa… :P

Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes
águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro
caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst

Morre aos 73 anos a escritora Hilda Hilst

“A escritora paulista morreu nesta madrugada no Hospital das Clínicas da Unicamp com falência múltipla de órgãos e sistemas. O corpo da escritora, autora de 41 livros, será enterrado às 16h.” (Folha)

Merda de notí­cia! A essa hora ela bem pode estar à porta de de São Pedro como contando baixarias pros anjinhos, acho eu. Sorte deles. Levaram o gênio poético, lí­rico e bufólico, mas deixaram os livros.

(E o Maluf continua na ativa, inferno! :P)

“My name is Jacaré, qualquer coisa é só chamar!”

Eu não vou negar que é muito cômodo chegar na praia de mãos abanando, alugar uma cadeira ou um guarda-sol — barraca, em bom carioquêish, embora a gente não possa acampar com ela — e esperar languidamente que o Jacaré ou sua centena de comparsas nos interpelem com cervejas, cocos, mates e toda a sorte de bebidas geladas, sanduíches naturais — vocês já notaram que é só não colocar carne vermelha que o povo chama sanduíche de natural? —, queijo coalho na brasa, enfim, tudo o que um bom turista ou habitué da praia necessita para ser feliz. E se você não estiver feliz, há também as tendas de massagem. Recomendo fortemente a que fica sob aqueles chapéus-de-sol — canstanheiras aqui, não? — na borda de Ipanema, perto do posto 10. Uma moça loira de olhos claros, uns trinta anos e mãos de fada. Claro que eu bati o maior papo e claro que eu esqueci o nome.

É uma pena, uma desgraça, de fato, que nenhum dos trabalhadores da areia venda educação porque, puta que pariu, como turista é um bicho porco! Você fuma? Problema seu, praia não é a versão agigantada de um cinzeiro. Se não tem onde colocar a maldita bituca — guimba — do seu cigarro nojento, favor engolir. Latinha não é problema, a cada 2 minutos alguém vai perguntar se a sua está vazia. Os labradores, que não deveriam estar ali, vão querer brincar com a casca do seu coco, mas eles não alcançam a lata de lixo e, se os donos não foram treinados para tal, o que dizer deles, não é mesmo? Por mim, saía multando carioca, turista, estrangeiro até neguinho entender que aqueles latões cor de laranja não são enfeite.

E nessa quem se fode é o coitado do gari que varre, diariamente e sob o mesmo sol que doura a pele desocupada, o cartão postal do qual ele não faz parte. Não orna, sabe?

Estrela do Mar

Dois de Fevereiro
(Dorival Caymmi)

Dia 2 de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá
Dia 2 de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela
Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me prometeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Dia 2 de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá

Salve, mãe!
Senhora das ondas
Estrela do mar
Inunda meus dias com tuas águas
Invade meu peito com teu amor
E cuida — eu te rogo! — dos corações
Errantes que têm no fundo dos olhos
O suspiro perdido das tardes de sol
Em teu manto de areia e prata

Iemanjá, odò íyá!
Minha mãe, Rainha do Mar.