Esperança furta-cor

As Estrelas
(Pablo Neruda)

Dali, dali, assinalou o sineiro,
a multidão viu para esse lado
o de sempre, o noturno azul do Chile,
uma palpitação de estrelas pálidas.

Vieram mais, os que não haviam nunca visto
até agora o que sustinha o céu
cada dia e cada noite,
e outros mais, outros mais, mais surpreendidos,
e todos perguntavam, onde, aonde?

E o sineiro, com grave paciência
indicava a noite com estrelas,
a mesma noite de todas as noites.

Segundo o Velho Testamento — me disse a mulher do ônibus —, após o dilúvio, Deus prometeu a Noé que nunca mais o mundo seria destruído daquela forma e, como símbolo de sua aliança com a humanidade, criou o arco-íris. O que em sua simplicidade poderia ser descrito como um fenômeno meteorológico — o desabrochar da luz em sete cores contínuas, liberadas pelas gotículas d’água ou cristais de gelo em suspensão na atmosfera — é, mais que tudo, símbolo de sorte, esperança e fortuna a muitos olhos.

Mas há que se tirar os olhos do chão.

© Beth Viveiros (http://fotolog.net/faerie/)Hoje, em São Paulo, quem se atreveu a elevar sua visão e encarou um sol a pino, muito acima das nuvens, foi presenteado por um céu coroado de sete cores. Um halo — disseram os jornais — que por mais de duas horas circunscreveu o astro-rei. Um disco de luz furta-cor.

Lá onde o vento sopra sempre gelado eu vi a promessa de uma reconciliação. Do quê, com quem, não sei. Talvez com o Tempo, um dos deuses mais lindos.

Creio que, como o arco da aliança que se fechou em torno do sol, também um ciclo tenha se fechado e que 2004 seja a promessa de mudança. Para melhor. E espero que mais pessoas pensem assim. O dilúvio acabou.

Pelo sim e pelo não, em 2004, olhe para o céu!

Obrigado, violinos, por este dia
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz azul do ar.

(Vários Nerudas. Leiam-me.)

O dia não é hora por hora,
é dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.
Isso acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

Chove sobre a areia,
sobre o teto
o tema da chuva,
os largos eles da chuva lenta
caem sobre as páginas
de meu amor sempiterno,
o sal de cada dia,
regressa chuva a teu ninho anterior,
volta com tuas agulhas ao passado,
hoje quero o espaço branco,
o tempo de papel para um ramo
de roseira verde e rosas douradas,
algo da infinita primavera
que hoje esperava,
quando voltou a chuva
a tocar tristemente
a janela,
depois a dançar
com fúria desmedida
sobre meu coração e sobre o teto,
reclamando
seu lugar,
pedindo-me um cálice
para enchê-lo uma vez mais de agulhas,
de tempo transparente,
de lágrimas.

Este sino roto
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça de bosque,
cor do dia nas folhas.

O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.

Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,
não congrega
junto a sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender.

Não um caso doentio,
nem a ausência de grandeza, não,
nada pode matar o melhor de nós,
a bondade, sim senhor, que padecemos:
— bela é a flor do homem, sua conduta
e cada porta é a bela verdade
e não a sussurante aleivosia.

Sempre ganhei, por ter sido melhor,
melhor que eu, melhor do que fui,
a condecoração mais taciturna:
— recuperar aquela pétala perdida
de minha melancolia hereditária
— buscar mais uma vez a luz que canta
dentro de mim, a luz inapelável.

Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora, nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.

Vim aqui para contar os sinos
que vivem no mar,
que soam no mar,
dentro do mar.

Por isso vivo aqui.

(Últimos Poemas (O Mar e os Sinos), Pablo Neruda)

O saco do barbudo — highlights

Quem não se lembra do saudoso Traço Mágico que a finada Brinquedos Rei fabricava — sob licença da Ohio Art — há, sei lá, uns vinte anos? O cidadão que inventou essa moda certamente ficou rico. Pois o tal brinquedo não só ainda existe lá fora como eu tenho uma prima em Nova Iorque capaz de me mandar um dos vários modelos de presente de Natal. Prá viagem! Aqui tá dizendo “Ages 4 & Up”, então tá valendo! A criança grande agradece saltitante! :D

O ouvido se deleita ao som de Olivia Byington e o seu Canção do Amor Demais. A prova de que sopranos levinhas também podem cantar MPB, é só saber fazer. Arranjos de um bom gosto impressionante e uma afinação surpreendente. Biscoito Fino, claro!

Um quadrinho azul e um ideograma — “vitória” — prá reforçar a cabeceira.

Sachês artesanais de lavanda feitos-pela-minha-tia para perfumar as vestes e encantar meu sono.

O último Harry Potter que, digam o que quiserem sobre o texto, sim, eu sei que tem muita litaretura infanto-juvenil superior em vários aspectos — eu li Monteiro Lobato, O Gênio do Crime, entre outros —, mexe com a minha imaginação infantil.

Os brinquedos vão na bagagem e é assim que eu embarco prá 2004 logo mais.

E Deus disse:
— Fiat UTF-8!
E o caracter se fez.

Se não pode vencê-lo, engana-o! Pronto. O servidor agora tá mandando o seu navegador escolher a codificação certa — a culpa é dos cabeçalhos de data, cuspam neles, cuspam neles! — não interessa o que ele ache do assunto. Ainda tenho que lidar com o bug do Movable Type cá deste lado — humpf! —, mas pelo menos vocês podem ler novamente o fruto de minha idiossincrasia sem o auxílio da inspiração divina. Voilà!

Ho! Ho! Ho!

Astral bom para o taurino que pode contar hoje com um clima ameno, confiável, sensual. Muitas luzes para iluminar seu canto, seu coração e sua paz, que pode ser distribuída generosamente entre os que perderam o caminho. É o mito do Sol invicto que retorna, eterno, reiniciando a vida de novo. (Folha)

Diz aí se isso não é um horóscopo natalino? :)

E este ano eu não tenho nenhuma mensagem inspirada, talvez porque 2003 tenha sido um ano de conquistas interiores. Inspiração na melhor acepção da palavra. Foi um ano prá aprender a cuidar de mim. Um ano difícil em muitos sentidos, mas um ano caminhado. Se antes eu já sabia o que eu queria, hoje eu sei mais. Se hoje ainda não sei exatamente como querer, pelo menos já sei muito de como não querer. Hoje eu sei melhor e é isso o que importa, afinal, para o ano que vem. Carrego a sensação de força construída em certezas, em passos aprendidos, não fabricada em torno de inseguranças. Saio de 2003 feliz e agradecendo primeiro a mim porque eu fiz por merecer. Depois, a quem esteve ao meu lado, mesmo sem eu pedir, e mais ainda àqueles que me são amados e irmãos — e sabem eles quem são, pois faço sempre questão de dizer pessoalmente.

E se há algo em mim prá dar é minha luz que dou, mas não mais do que o pouco que de mim se desprende, nem menos do que o que em mim não faz falta — a medida do equilíbrio —, mais o desejo de um porvir melhor “e o peito cheio de arte a todos aqueles de boa vontade”. Que 2004 seja um ano iluminado.

Amém! Shalom! Saravá! Namastê!

Arremedos de Don Juan

É triste, mas o mundo da sedução vai de mal a pior. Muito, na minha opinião. Deu de eu conferir as cantadas enviadas a um concurso promovido por uma empresa de telefonia celular com ares de descolada — por sinal, essa mania de mostrar gente descolada fazendo bico em campanha tá começando a dar no meu saco.

A curiosidade matou o gato, mas dessa vez foi de desgosto. Rapaz, eu temeria pela minha vida se usasse a grande, avassaladora maioria das cantadas que, pasmem, foram pre-mi-a-das! Por exemplo, como você reagiria se fosse abordado criativamente — ai! — com algo como “Cerveja..R$2Caipirinha..R$5 Entrada para a boate..R$25 Ficar com você ….NÃO TEM PREÇO!!!”? Pior, essa: “Se meu motor deslizasse nestas curvas. Gata, seria um shumarcher so para te segurar no braco.” Coitado, derrapou feio na curva.

Mas nem tudo é desilusão. Se alguém ainda tem humor e aquela falsa mas cativante modéstia prá chegar dizendo “O que uma garota legal como voce está fazendo em uma mente suja como a minha?” é porque ainda há esperanças na humanidade.

De minha parte, nem posso reclamar. Não é no celular que minha vida corre e, vez ou outra, numa madrugada baladeira, ainda há — com sorte — quem me chegue com olhos brilhantes e sinceros dizendo, simplesmente: “sabia que você tem um sorriso lindo?”. Aí é que eu sorrio mais ainda. :)

Metropolitano

Eu odeio o teu trânsito, São Paulo.
Mas adoro teus arranha-céus de vidro vestidos de céu.

O Pinóquio dos sete mares

Lendo alguns dos contos das Mil e Uma Noites, narrados pelo Carlos Heitor Cony, é que me dei conta: Sindbá, o marujo, deve ser o pai de todas as histórias de pescadores — apesar dele ser comerciante —, o fundador de toda uma tradição.

Sim, porque eu tô prá ver criatura mais loroteira do que esse aí. O bichinho nunca morreu no mar deve ser por causa do nariz de madeira que boiava. Rapaz, quanta cascata! :P

Magneto

Correndo, caminhando no Ibirapuera com a minha melhor versão blasé. Óculos escuros. Camiseta Hering. Olhando prá frente. Na minha. Absolutamente tranqüilo e na minha. Juro! Ponto. Pois o cidadão veio sei lá de onde puxar papo. Ok. Claro que ele era virginiano. Claro que ele tinha 19 anos. Claro que ele era interessante… Claro que ele tinha problemas e mais claro ainda que ele não disse, mas depois de marejar os olhos, nem precisava — como é que um virginiano encouraçado como aquele, que nem me conhece, chora na minha frente, explica?

Tá, eu fico feliz e me envaideço, sim, em saber que, se o fulano não saiu de lá melhor ou aliviado, pelo menos saiu com novos ares — e eu, aí sim, saí correndo, rapidinho! —, mas, poxa, alguém pelamordedeus me explica essa atração fatal. Eu NÃO preciso desse tipo de encosto, mas mesmo quando não procuro eles me acham! — tô fugindo, ligeirinho…

Tem mais algum taurino no recinto que padece desse mesmo distúrbio ou sou só eu?

A.A. — Ai-meu-deus-alguém-me-ajude Anônimos

Ouçam o apelo desesperado desta ovelha desgarrada! Estou descontrolado! Meus reais não mais me pertencem! Compadeçam-se do meu triste martírio e, quiçá, eu encontre a luz — ou pelo menos não encontre o fundo do bolso.

Mas mais do que tudo, para o meu próprio bem, se alguém me vir parado sobre a calçada da Neto Discos — aquele antro abominável de perdição a R$6,00 — que me lance sem dó nem piedade sob o primeiro elétrico que estiver subindo a Augusta! Já tenho mais horas de óperas prá assistir do que o Ministério da Saúde considera salutar.

Eu faço graça — eu faço é drama, sou bom nisso —, mas o sorriso vai de uma orelha à outra. :-D Nunca meu dinheiro rendeu tanto! O que é de gosto é regalo da vida, já dizia minha mãe, e esse ano eu consegui me organizar prá quitar minhas dívidas, comprei algumas das coisas de que mais precisava e outras prá me fazer feliz, da melhor maneira possível. Em suma, eu mereço cada mimo.

E agora deu! A próxima extravagância só daqui a um mês, à beira da praia, respirando aquela bossa-nova que faz parte da brisa daquele lugar. Sabe? Aquele da “coisa mais linda que vem e que passa”? Daquele “calor que provoca arrepio”? Ah, Dindi…

Ó, raios!

Putaria à lusitana soa tão douta a estes ouvidos brasis. Mas, valha, eu já vi uma porção razoável de blogs de cunho punhetesco, só que nenhum com uma audiência tão… hm… grande. O povo não cansa de meter-lhe — epa! — comentários. Não sem mérito.

Um pirulito grande e rosado a quem adivinhar de quem foi a dica. ;P

O que não tem remédio, remediado está

Já dizia a minha, a sua mãe, a avó do outro, enfim. O fato que é esse blog padece de um bug agudo. Só posso lamentar. Enquanto o povo do Movable Type não resolve essa porra ficamos assim: eu escrevo, ele fode. Ou não, eu largo de escrever e vou pintar aquarelas na parede. E enquanto todas as coisas a serem ditas permanecem indizí­veis — verdes e invisí­veis — saboreio mais um momento, uma fatia de segredo. Porque cada minuto é um passo. Não sou um livro. Não sou um retrato. Sou o desejo intraduzí­vel intraduzido atrás do bordado de uma camisa de linho branco que observa o mundo entre a trama de ser e estar. E fazer.

E se você está vendo caracteres aliení­genas, no Internet Explo[rer|der], vá no menu Exibir -> Codificação e selecione Unicode (UTF-8) — no Netscape não lembro, se vira que tu não é quadrado. :P

Perdido

Hoje. A última, derradeira e anacrônica aula.
Não tem viv’alma nessa porra de instituto. :-\

Mais tarde. Sumiço. Alforria praiana. :-D Anda, relógio! Anda!

Quem sou eu? Onde estou? Tudo é tão estranho…

Tá se sentindo deslocado? Déjà vu? Falha na Matriz? Não, sou eu de mudança do Typepad de volta pro bom e velho (e lento) servidor meu. Porque acabou o perí­odo gratuito, sabe? Acabou a mamata. E se for prá pagar, prefiro pagar uma hospedagem onde eu posso escovar cada bit do meu domí­nio. Mas o serviço é de primeira e eu recomendo.

Enquanto isso eu me debato aqui com essa porra que ainda não percebeu que os 2595 posts — agora 2596 — e 3223 comentários estão em unicode (utf-8) e não em iso-8859-1. Meuszóvo! Já não me bastassem as milhares de lí­nguas no mundo ainda foram inventar mais umas tantas maneiras de colocá-las em letrinhas?

Eu mereço

Eu não sei por que cargas d’água insistem em me desejar que eu crie juízo. Particularmente, sou da opinião de que se eu criar mais juízo acabo virando padre, e padres comem criancinhas. Isso dá cadeia!

Eu desejo que criem sorrisos. Vários. É mais fácil. :D

O trenó à frente das renas

Só prá eu pagar a minha língua — Fer e Zel, já podem atirar suas pedras :P —, passei pela Neto Discos, a saber, a mina de ouro da Augusta, e comprei nada mais, nada menos que CINCO DVDs de ópera numa tacada só. O montante? 30 “reaus”. Só. Seis cada. Devia ter levado mais uns três. Acho que vou voltar lá. Socorro!

No (meu) saco de Papai Noel, algumas preciosidades:

Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Com Birgit Nilsson, Jon Vickers e Ruth Hesse, Theatre Antique D’Orange (França), regência de Karl Böhm. 1973. Só mitos em gravação histórica.
Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilèa. Com Mirella Freni no papel principal, Orquestra do Teatro Alla Scalla de Milão, regência de Gianandrea Gavazzeni. 1989. Não conheço o regente, mas quem não conhece o Alla Scalla e melhor, quem não conhece Mirella Freni?
Sansão e Dalila, de Camille Saint-Saëns. Com Placido Domingo, Shirley Verret e Wolfgang Brendel, coral e orquestra da San Francisco Opera e regência de Julius Rudel. Cadê a data? Se Shirley Verret fizer Dalila tão bem quanto fez Carmen, valei-me deus!
Don Carlo, de Giuseppe Verdi. Com Placido Domingo, Mirella Freni e Luis Quilico, The Metropolitan Opera, regência de James Levine. 1983. Pois é… prá você ver, seis reais!
Semiramide, de Gioacchino Rossini. Com June Anderson, Marilyn Horne, Stanford Olsen e Samuel Ramey, The Metropolitan Opera e regência de James Conlon. 1990. Esta é uma das infelizmente pouco produzidas óperas sérias de Rossini. Não sou grande fã da June Anderson, prá ser bem sincero, mas quem liga? Ainda tenho os bárbaros Marilyn Horne e Samuel Ramey!

Mas sabe, não peguei nada de Puccini. Nem Mozart. Nem Mascagni. Ô, senhor, então…
Detalhe: só falta o aparelho de DVD. Alguém se habilita? Eu já fiz a minha parte. :P

“E tudo nascerá mais belo,
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris.”

“Exibir as suas cores é um direito seu.” É o que diz o cartão postal de coluna de boteco que ele me deu. Adorei. Pelo gesto simples, pela associação e pelo fato delicioso da minha cor amorenada — que deus não me deu, mas os genes encomendaram e o sol mandou entregar.

Mais ainda porque gosto de cores. Todas elas. Das suas exuberências às suas delicadezas, temperaturas, seus infinitos tons e possibilidades. Miríade alimentar de um meu sentido esfomeado. E de cada uma delas sou um pouco. Se o amarelo me envolve desde a infância e o vermelho me alavanca, o azul me refresca o espírito e o verde me dá força, enche meus olhos d’água e de esperança.

Quais são as suas cores?

Concatenado

Manhã de sol. Corte de cabelo (ufa!). Olhares desejosos (não meus) — brilho na vaidade. A cidade, seus carros, um viaduto. Vó. Bis(es). Metrô. Cabelos negros e olhos brilhantes. Uma escada que sobe e outra(o) que desce. Um pescoço que vira — opa, dois! A transitória beleza transeunte — definitivamente, vou me mudar prá Higienópolis, quiçá Pacaembu (vamos?). Almoço. Conversa. Compreensão. Repreensão. Mão. Museu. Exposição. Arquitetura — beleza pura. Japão de um lado. Um moça que come tinta do outro. Digressões artísticas (arteiras?) sobre as dificuldades do relacionamento amoroso e um sorvete Parmalat. Mais transeuntes de beleza transitória — é de propósito? Plataforma de pés inchados. Micropoesias no metrô. Ônibus quente. Chuva fria. A vida de um dia, assim, em retratos.

The voyage out

O primeiro romance. A primeira viagem, onde tudo começou. “Era tudo muito real, muito grande, muito impessoal, e depois de um ou dois momentos ela começou a erguer o dedo indicador e deixá-lo cair sobre o braço da cadeira como se trouxesse de volta alguma consciência de sua própria existência. Em seguida foi tomada pela estranheza indizível com relação ao fato de estar sentada numa poltrona, de manhã, no meio do mundo.” Mais uma incursão pelo universo escrito de Virginia Woolf.

Mas eu fico mordido quando contam a história já nas primeiras páginas do prefácio! Aquela sobrinha dela, futriqueira, não tinha nada que abrir a boca e contar que a personagem morre. E como. E onde. Desmancha-prazeres! Só de birra eu vou ler Harry Potter antes.

Onomatopeido

Não sei, Zel, mas palavras como tapa e cachoeira prá mim têm os sons que lhes valem. Assim como murmúrio, sussurro, cicio, chiado, ronco, mugir, coaxar, bisbilhar, estrondo, ribombar, reco-reco, tique-taque e pum, que não tem cheiro, ainda bem. ;)

Tão sutil, tão galante

E eis que um ilustre desconhecido me manda uma mensagem com uma só imagem ilustrando seus belos e fartos dotes pessoais — tudo, exceto seus lindos olhos azuis, porque não os tinha mesmo — e com um único e econômico dizer: “topas”. Não se deu nem ao trabalho do ponto-de-interrogação — decerto pensou que a única resposta cabível fosse a da sua cabeça (a outra).

*suspiro*

Eu sinceramente não sei se rio ou se choro — o que será que eu tô fazendo de errado? é o cabelo? é o sorriso? é o perfume? Alguém, por gentileza, avisa esse povo que não é assim que funciona — não comigo —, que lingüiça eu compro no açougue? Pois.