E se você chegar com esse olhar maroto, essa cara de safado? Será que eu vou gostar? Eu e minha cara de menino não sabemos muito bem o que queremos, mas teimamos em tentar. Tem que ser carinhoso, é verdade, mas e se for grudento demais? Ah, mas aí eu não quero! Ou quero? Será? Se for assim de tal forma envolvente que me tome o ar violentamente, será que eu vou gostar? — a vertigem, a vertigem; tira-me os pés do chão que eu preciso voar! Tem que saber dizer o que pensa, o que sente, ou pelo menos tentar — tem que querer dizer! — porque essa coisa de “leia nos meus olhos” é linda, poética, romântica, fica ótima aqui nas letrinhas… mas não funciona. Não, não funciona! É como apresentar três exclamações em grande circunstância e esperar que o leitor deduza todo o parágrafo que o antecede — ó, dando um desconto, depois de muito, muito tempo de convívio… um parêntese ou dois. Não, tem que ter atitude, culhões mesmo, porque eu não tô aqui pra brincar. Ah, mas tem que saber brincar também porque não é pra somar agonias, é pra multiplicar desejos, alegrias, vida.
Em suma, que bobagem! Por que você não chega junto — tira essa roupa de expectativas, medos, traumas, mágoas, dúvidas, delírios —, aí a gente vê no que vai dar? Me beija. Mas chegue na hora (certa).

Fim de manhã de sol. Domingo. Pessoas sentadas à frente de um palco feminino, no gramado da Praça da Paz. Tudo para ouvir Dame Kiri Te Kanawa cantar. A orquestra abre alas para a diva passar e ela vem, tão elegantemente ali quanto é fina sua intrepetação doce e delicada do repertório. Para “diva”, aqui, cabe a melhor acepção da palavra. A segurança no palco, o domínio da técnica e mais, a compreensão do estilo em cada peça.

Há muito tempo não sentia o cansaço como uma presença física, às minhas costas, uma mão pesada sobre o meu (dolorido) ombro. Estar em casa — não a casa de destino ainda não encontrado, mas a de origem —, na própria cama, é como entrar no olho do furacão, onde a calma é circundada de tormenta. Qualquer caminho parece levar à tempestade e minhas armas são um edredom, um livro, minhas palavras e esperançosa paciência — mais paciente que esperançosa, devo confessar — o que fiz eu da minha tranqüilidade? adentrei onde ela ainda não alcança?




