Infantil

Mico-leão-dourado, ilustração de Laurabeatriz

Se pedir pra ir,
Eu fico.

Gosto mesmo
É de paparico.

Sou todo de ouro,
Mas não sou rico.

Pode me chamar
De Chico.

Mas meu nome mesmo
É mico.

(Lalau)

Adoro! Sou absolutamente encantado pela linguagem infantil. Essa é uma dica para quem tem filhos pequenos. Ou pra quem tem sobrinhos — eu quase tenho dois, daqui a pouco, uns 15 dias, vira plural. Ou pra quem, simplesmente, não esqueceu o que é ser criança e o quanto isso é maravilhoso. Eu digo que repouso na infância. Quando ser adulto cansa, fecho os olhos e lembro dos dois discos que gravei no coral infantil quando era moleque — lembro de cada música de cor, inclusive o rap final com os nomes de cada um. Corro, brinco, esfolo o joelho no meu alegre desatino, mas (e portanto) não perco o prumo. E reanimo. Levanto pronto pra outra.

Porque ser criança é ver mais cores, sentir mais cheiros, fazer e ouvir mais sons, brincar de amores. Ser criança é aprender sem que o limite nos obrigue, sem que a culpa nos castre, sem que a dor nos doa mais do que o devido. Crescemos aprendendo a nos colocar no mundo, mas muitas vezes esquecemos de nos colocar em sintonia com nós mesmos. E perdemos aquela segurança calma, aquela certeza sem porquê. Pois veja, só há uma coisa mais contagiante do que um sorriso de criança: o seu — experimente!

Brasileirinhos — poesia para os bichos mais especiais da nossa fauna e Novos Brasileirinhos são o trabalho esmerado de um pai poeta (Lalau) e uma mãe artista plástica (Laurabeatriz). Linguagem simples, porém sensível. Tão sensível quanto as vivas cores que ilustram algumas espécies ameaçadas de nossa fauna. Conheço a pessoa por trás das letras. Conheço as outras letras por trás do post. E só não as invejo porque, quando as leio, há uma criança que sorri.

Uma pena eu não poder colocá-las todas — letras e cores — aqui.

Engrenando

“Há dois corpos, como há dois eus: um eu transcendente percebido no mundo na forma de eu empírico. Há um eu sujeito e um eu objeto. Isso quer dizer que há um eu que não está no mundo, e porque existe um eu que não está no mundo ele pode ver o mundo.”

(Michel Henri, in O Corpo como Objeto de Arte)

Rapaz a coisa tá ficando séria! O instante em que recebo o presente aí em cima — sim, meu anjo, é a minha cara, obrigado! — é o exato momento em que ergo a mão e aponto justamente o contato empírico com o mundo que outro alguém perdeu. Antes, converso seriamente e desenterro, realinho as desventuras do meu amor-próprio — tento servir de espelho para a contraparte, como já precisei e muitas vezes ainda preciso — enquanto a outra discorre sobre o Maltratado Coração. E esses são apenas dois dos casos. Muito tem se cruzado através de mim, ultimamente.

Parece absurdo e um tanto petulante — tipo assim, foda-se —, mas hoje eu me sinto como uma grande engrenagem. O fato de eu girar faz com que quem em mim encoste também gire. Tempos atrás, eu me lembro, comentava algo semelhante em tom desgostoso. Comparava-me a um catalisador, que provoca a reação, mas que no fim não participa. A imagem mudou. A essência parece a mesma, mas não é! É algo primordial que mudou — e só deus sabe onde; será o sol amarelo e brilhante dentro de mim?

Talvez seja mais simples — e como tudo o que é simples, torna-se fundamental somente na medida em que é sentido —, talvez a diferença esteja em sentir-se posicionado. O importante é que hoje eu sinto que giro, não estou parado — sem que isso me torne melhor ou pior que ninguém. E me parece que esse mero fato também muda o mundo ao meu redor. E, embora eu gire o mundo em meu entorno, é nele, no contato preciso e fiel com a realidade que me cerca que encontro o torque que impulsiona minha roda viva. Joga-me pra dentro, gira e me expande — porque eu sempre me expando, mais cedo ou mais tarde.

A delícia é que tudo parece — e talvez seja — uma imensa ciranda.

I’m too damn bold! :P

Só há um caminho para apreender a real dimensão do Paraíso. Munido de muita e incontestável fé, pedale, siga perseverantemente sem olhar para trás e você ascenderá. Somente lá, no topo, compreederás — fruto da iluminação ou de uma baita hiperoxigenação cerebral — por que aquele maldito bairro de onde vens se chama Aclimação! :P

Aviso aos navegantes, Atlântico Sul, Brasil

Eu não entendo mais é nada! Primeiro a porra do domínio resolve mandar meus e-mails pro limbo — mudam-se os scripts, redirecionam-se os e-mails e voilà. Depois, o domínio muda tudo de novo e o que não valia agora vale, o que valia não vale mais — desmudam-se os scripts, desredirecionam-se os e-mails, meuszóvo! Qualé?! :P

Em resumo: Mandou e-mail — ainda mais se foi pelo formulário — em junho? Então, manda de novo.

Rumbling-loving-thoughts

Mas falando ainda de amor-próprio, ou sua falta — eu ainda me espanto com as similitudes, sintonias e afins, embora eu tenha me cercado delas, ultimamente —, estava eu lendo a crônica que a Lindona escreveu (antes que eu me esqueça, vá lá e leia!). Acho que quem se amarga pelo passado tem pouco amor a si próprio ou, pelo menos, se empenha em atirar no próprio peito. É uma maneira de se manter preso, atrelado a algo que não está mais ali, ao invés de olharmos para o que nos constitui que é sempre o que fica: nós mesmos. Senão, por que é tão difícil abrir mão de algo que, na realidade, não temos mais?

Uma conversa com uma pessoa querida e amada foi o que me fez olhar novamente para esse detalhe que foi — e tem sido — tão importante pra mim: amor-próprio. Peguei-me garimpando os argumentos para o que dizia em mim mesmo. Porque é com tanta intensidade que eu sempre me entrego ao objeto amado que muitas vezes me esqueço que existe um eu aqui dentro que também necessita e merece carinho — e um outro ali com tempo e espaço próprios. Mas como fazer? Amar menos? Não, amar melhor. Mas como? Como se pode dosar amor? Não é algo que se meça a conta-gotas, meu deus!

E foi então que pensei. E se num exercício mesmo aplicássemos o amor, que está prestes a nos atirar — e o fazemos de bom grado — em espaço aberto, antes a nós mesmos? Como uma mãe que testa a temperatura da mamadeira no próprio punho. Sorvemos o amor pra saber que gosto tem. Foi mais ou menos isso que espantado, confesso, acho que me peguei fazendo. Loucura, não? E o amor diminuiu? Não! Doeu? Doeu. Mas eu recebi a dor devida com uma serenidade que não sabia que tinha, no fim das contas. De alguma forma, eu soube até agora o que fazer e isso é muito estranho — tão estranho que eu me pego aqui emaranhado com um monte de impressões, hipóteses, dúvidas, a medida que o que sinto me molda.

Não sei… eu sei que sou assertivo até no apresentar das dúvidas, mas algum sentido deve haver perdido aí no meio do processo. É doido, mas acho válido — e sem para isso racionalizar. Proponho apenas um test-drive sentimental. Sentir o pulso e o impulso próprio do que sentimos antes do gozo da entrega — quem sabe aí também a tensão sustentada não dá mais sabor. Senão, de que adianta amar feito onda se todo vagalhão, no mais das vezes, só faz quebrar (a cara) na praia?

(será que é por isso que Afrodite nasceu das espumas do mar?)

O que será que me dá?

Joana francesa
(Chico Buarque)

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Eu não sei direito o que ligou aqui dentro — sei como —, mas agora que ligou não quer mais saber de desligar, não. Eu tô um perigo! Socorro!

Catarse sobre o tema recorrente de um passado

“— Estou de costas para você, estou inquieto. Não, minhas mãos estão absolutamente serenas. Abro espaço na prateleira e coloco com precisão o Don Juan; pronto. Preferiria ser amado, preferiria ser famoso a perseguir a perfeição através das areias. Mas estarei condenado a provocar desgosto? Serei um poeta? Presumamos que sim. O desejo acumulado por trás de meus lábios, frio como chumbo, caiu como uma bala: a coisa que imito nas mocinhas fazendo compras, nas mulheres, a pretensão, a vulgaridade da vida (pois amo tudo isso) atinge você quando lanço — apanhe-o! — meu poema.”

(in As Ondas, Virginia Woolf)

O lado negro da força

Não, não e não, Guilherme! Você NÃO VAI encostar o dedo nesse servidor antes de entrar de férias! Sai desse corpo, geek, que ele não te pertence!!! :P

Da arte de ser mineiro

Bom dia sol! Bom dia céu! Como vão pássaros? Olá flores… bom dia asquelmintos, olá platelmintos… lalalalalaaaaa…

Zen noção

Ah, sim… o que vocês estão ouvindo aí é uma versão do Cânone em Ré Maior de Pachelbel para (não sei quantos, acho que dois ou três) kotos, um intrumento tradicional japonês, mas não sei a sua origem. Originalmente, esse cânone — não sabe o que é um cânone, leia aqui, mas ignore os links, sim? — foi escrito para três violinos e baixo ostinato, ou seja, um instrumento (cello, cravo, etc.) fazendo a base harmônica em uma linha que se repete, obstinadamente, durante toda a peça.

Notem como a primeira frase melódica apresentada isoladamente no início da peça, na região grave, é repetida durante toda a peça enquanto as outras vozes executam variações sobre o tema, uma atrás da outra, tornando a peça cíclica, estruturada, interligada e, na minha opinião, totalmente zen.

Entre a ação objetiva, o descabelamento sem porquê e o questionamento existencial, zen é o que eu estou tentando para o momento. Taí o mantra. Let it be.

Vem cá meu nêgo!

Então… sabe quando você tá andando pela Paulista, DEPOIS da parada, alguém te segura pelo braço e você vê que é aquele garoto da universidade, aquele que já te olhou algumas vezes, mas que nunca veio falar com você, e que te apresenta para o amigo — quem? —, e que te olha fundo — como? —, e que diz que já te olhou outras vezes — ah, é? —, e que diz que quer te beijar — mas, hein?! —, e que não te dá tempo de olhar pro lado?

Pois é, eu também não sabia — uia!

Cem mil impropérios contra Deus, o destino e o mundo

eu não tô legal. ponto. sem mais explicações. ponto.

(e a vontade é de só voltar a escrever nessa porra quando eu conseguir desatar os nós que sei lá quem do alto escalão resolveu reservar pra mim ou eu mesmo dei e não eu não tenho como desfazer o que fiz desdizer o que disse embora eu quisesse porque eu não acho que ficou claro e vê eu poderia ter sido muito mais enfático no que queria do que simplesmente sincero e não eu não sei o que fazer também não sei o que dizer eu só queria entender mas isso não me é dado eu só queria uma chance mas ela também ainda não veio sabe-se lá quando virá eu não sei ninguém sabe nunca sabe e isso parece piada de mau gosto só sei que nesse ínterim eu vou continuar tentando e querendo ser feliz porque eu demorei muito pra aprender a gostar de mim e eu sei que o que tem aqui dentro é muito mas muito bom e agora que gostei não quero parar pois esse é um direito meu e irrevogável e ai do puto que tentar tirar isso de mim)

Cisma

Já viu alguém brigar com Deus? Pois eu enfio o dedo na cara do barbudo volta e meia. Hoje foi dia — acho que vou pro inferno. Mas se nenhum caminhão misteriosamente desgovernado fez arremesso de ciclista à distância, acho que o grande fodão — se é que o há — pelo menos respeita minha argumentação. Humpf!

Em tempo, todo baixinho é invocado — eu também posso ter meus dogmas, mas prefiro chamar de axiomas — e os poodles não são excessão.

Linha cruzada

O meu problema não é que eu penso demais, tampouco que eu sinto demais — eu sou intenso, sou verdadeiro e inteiro assim, não quero ser de outra forma. O meu problema é a maldita bagunça que eu faço com os dois canais. Aí, fode. Quando eu tento olhar para o que sinto racionalmente, é aí que eu faço bobagem. Enfio os pés pelas mãos, acho que estou pensando e ajo sem pensar. Um horror.

Por que não sentir, simplesmente? Por que a pressa? Por que a angústia? Por que o medo? Por acaso vou atear (meu) fogo em Roma? Bah! Força é justamente o que surge da absorção do que é indeciso, não decidido. O que está pronto e consumado, assim sedimenta. O que é dinâmico, movimenta.

So, let’s get a ride. Quem se importa com o ponto final? O importante é o caminho. Acho que a manhã de sábado é um excelente dia para pedalar loucamente. Ibirapuera, faz tempo que eu não te vejo.

Amor e ódio

Eu amo — eu disse AMO! — aquela tiazinha velhinha miudinha com cara de boazinha que canta no Ó do Borogodó às quartas-feiras. Aliás eu adoro tiazinhas velhinhas cantoras da velha guarda. Com voz de velha, voz enrugada, já curtida em muita roda de samba nessa vida. Queria levar pra casa.

Eu odeio — você não tá entendendo — pedaleiras e aquele sonzinho MIDI hediondo de quinta categoria. MORRA, MIDI! Digo, não entendo como alguém que toca bandolim prá caralho faz um desfavor ao samba (canção, chorinho, seresta, etc.) tocando uma pseudo-guitarrinha com sons de pseudo-trombone, pseudo-flauta, pseudo-piano. Isso é pseudo-música! :P

Adoro cerveja. Odeio — ai! — ressaca.

Dialing on dial

Como eu quero
(Leoni / Paula Toller)

Diz prá eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você. Sério.
*
Dramas do sucesso
Mundo particular
Solos de guitarra
Não vão me conquistar
Uh, eu quero você
Como eu quero
O que você precisa
é de um retoque total
Vou transformar o seu
rascunho em arte final
Agora não tem jeito
Cê tá numa cilada
Cada um por si
Você por mim mais nada
Longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor

Porque eu ainda preciso — e vou! — aprender a perder o controle nessa vida.

* Ela mandou corrigir. Preciso mesmo acertar uns erros — ou será errar alguns acertos? Mas como? E porque, diabos, eu fui ligar o maldito racionalismo a essa altura do campeonato? Foi tão difícil desligá-lo e eu tava tão bem sem ele…

Danou-se!

“Metroviários de São Paulo decidem permanecer em greve por mais 24 horas.”

Rapaz, agora é que eu se fodi! :P

A descoberta do mundo

“O processo de escrever é feito de erros — a maioria essenciais — de coragem e preguiça, desespero e esperança, de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada, não conduz a nada, e de repente aquilo que se pensou que era “nada” era o próprio assustador contato com a tessitura de viver — e esse instante de reconhecimento, esse mergulhar anônimo na tessitura anônima, esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação) precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito. O processo de escrever é difícil? mas é como chamar de difícil o modo extremamente caprichoso e natural como uma flor é feita. (Mamãe, me disse o menino, o mar está lindo, verde e com azul, e com ondas! está todo anaturezado! todo sem ninguém ter feito ele!) A impaciência enorme ao trabalhar (ficar de pé junto da planta para vê-la crescer e não se vê nada) não é em relação à coisa propriamente dita, mas à paciência monstruosa que se tem (a plante cresce de noite). Como se se dissesse: “não suporto um minuto mais ser tão paciente”, “a paciência do relojoeiro me enerva”, etc. O que impacienta mais é a pesada paciência vegetativa, boi servindo ao arado.”

(Clarice Lispector)

O exercício atemporal e descontextualizado de escrever. Um espaço só meu. Longe do registro diário e mais próximo do que é sensível, maturado e absorvido. O nascimento do princípio onde surge a Scripta.

Pra (eu) não esquecer

Não importa a estrada, faça chuva ou faça sol, vento ou trovoada — cá dentro ou lá fora: eu (também, mas principalmente), tal e qual um belo vinho, sou tudodebom.com.

Retificação domingueira

“Eu tenho a impressão”, uma pinóia! Desde algum horário entre sexta-feira e sábado que os meus e-mails @cantorum.com — ou seja, todos — simplesmente não chegam. Desgraça pouca é bobagem.

Como eu prefiro acreditar em duendes a crer que as pessoas estão ao menos recebendo alguma mensagem de erro, fica aqui o recado e o pedido: antes de atirar pedras ou achar que eu não te amo mais, por favor, reenvie sua missiva substituindo @cantorum.com por @mundissa.com e/ou use e abuse do formulário de contato. Eu juro que respondo. Grazie.

Defeito

Eu tenho a impressão que a sexta-feira 13 fodeu com os meus e-mails. Alguns e-mails deveriam ter chegado no sábado, mas nenhum chegou. So… keep trying.

Intervalo

Entre um ato e outro, um copo d’água, um descanso. Essa ópera tá com muito desencontro. Enquanto eu rumino as tropeçadas que a vida me apronta — sem a menor disposição de trasformar esse espaço que eu gosto tanto em um muro das lamentações — e reafino a orquestra vocês ouvem um pouco de sentimento. Fui cuidar de mim e já volto, com saudade.

Na trilha: “Sentimental Saraband”, Simple Symphony, Op. 4, de Benjamin Britten.

“…Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.”
(Camões)

Todo o sentimento
(Cristóvão Bastos – Chico Buarque)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Eu tinha de tentar
E ainda agora não sei ao certo
A esperança do ato, intento, gesto
Pra não desconectar

(só não achei que seria tão difícil)

Outras horas

— A COMPLEXIDADE das coisas torna-se mais presente aqui na universidade — disse Bernard —, onde o movimento e a pressão da vida são extremos, e onde a excitação de simplesmente viver se torna cada dia mais urgente. A cada instante, pesco algo de novo no fundo desse enorme saco de surpresas. O que sou eu? Indago. Isto? Não. Sou aquilo. Especialmente agora, que deixei uma sala e pessoas nela conversando, e as lajes de pedra ecoam sob meus passos solitários, e contemplo a lua que se ergue, sublime e indiferente, por cima da antiga capela — torna-se claro que não sou uno, nem simples, mas complexo, múltiplo. Em público, Bernard borbulha; em particular, é um ser secreto. É isso que não entendem, pois agora sem dúvida falam de mim dizendo que lhes escapo, que sou evasivo. Não entendem que preciso passar pelas mais diversas transições; preciso estar atento às entradas e saídas de vários indivíduos que desempenham alternadamente o papel de Bernard. Sou anormalmente consciente das circunstâncias. Jamais consigo ler um livro num vagão de trem sem perguntar: Ele será um construtor? Ele será infeliz? (…) Pessoas que dão impressão de serem simples e, de modo geral, boas (pois parece haver virtude na simplicidade) são as que se mantêm em equilíbrio numa distância igual das duas margens, em pleno rio. (Vejo instantaneamente peixes com os focinhos em uma só direção, correnteza disparando em outra.) (…) Mas você compreende, você, o meu eu, que sempre acorre a meu chamado (seria uma experiência atroz chamar e não aparecer ninguém), você compreende que o que andei dizendo esta noite só superficialmente dá uma idéia de mim. Por dentro, no momento em que me mostro incongruente, sou também um ser integrado. Simpatizo de modo efusivo; contudo, sento-me como um sapo numa toca e recebo com frieza o que aparecer. Poucos dentre vocês, que agora discutem sobre minha pessoa, dispõem dessa dupla capacidade de sentir e de raciocinar. (…) Vocês todos estão envolvidos, comprometidos, atraídos, as energias concentradas em suas capacidades — todos, exceto Neville, cujo espírito é complexo demais para que apenas uma atividade o imobilize. Também eu sou por demais complexo. No meu caso, algo sempre flutua, desvinculado de tudo.

— Sim, tudo agora é propício. Estou disposto. Posso escrever a carta tantas vezes iniciada. Acabo de entrar; atirei longe chapéu e bengala; estou escervendo a primeira coisa que me vem à cabeça, sem me preocupar e colocar a folha em posição correta. Será uma pequena obra-prima brilhante, que ela deverá julgar escrita sem pausa e sem qualquer rasura. Vejam como as letras são informes — e bem ali, uma mancha descuidada. Devo sacrificar tudo à rapidez e à negligência. (…) No entanto, também devo dar a impressão de que, embora ele — este que não sou eu — escreva de modo improvisado, precipitado, existe uma sutil sugestão de intimidade e respeito. Preciso aludir às conversas que tivemos — trazer de volta alguma cena lembrada. Devo também parecer-lhe (é de máxima importância) alguém que passa de um assunto a outro com a maior facilidade. (…) Preciso do efeito rápido, ardente, fluido, exercendo-se de frase em frase. Em quem estou pensando? Byron, naturalmente. Sob alguns aspectos sou como Byron. Talvez um pouco de Byron ajude-me a encontrar o melhor tom. Lerei uma página dele. Não; é monótono, é descosido, é formal demais. Agora, começo a pegar jeito. Agora, sinto pulsar minha mente (nada mais importante que o ritmo, quando se escreve). Agora, começarei sem interrupções, na cadência mesma do impulso.

— A coisa, porém, se achata. Esgota-se. Não consigo ímpeto suficiente que me conduza por entre as transições. Meu verdadeiro eu afasta-se de meu eu factício. E, se me puser a reescrever ela dirá: “Bernard está posando de literato” (o que é verdade). Não, escreverei a carta amanhã, depois do café.

(in As Ondas, Virginia Woolf)

Luz de velas

Quem disse que um solteiro como eu não tem também seu jantar de dia dos namorados? Falta namoro, mas sobra amor de ambos os lados. Enamoremo-los! :-)

Ganhei até presente! E não poderia ser mais apropriado: geléia da pimenta! Lambuzemo-nos, pois! ;-P

Vocês duas são apaixonantes, sabiam? Sem tirar nem por, letra e gesto, deram-me tudo (de mim) o que eu precisava.

O dono do bolo

Se tem alguém que tinha que nascer neste dia de 12 de junho, este alguém é ele! :)

Um beijo imenso, meu querido, e toda a felicidade que você puder carregar nessa roupa de palhaço! <:o) A mesma felicidade que a tua amizade traz pra mim.

Apaixonado

Minha Namorada
(Vinicius de Moraes / Carlos Lyra)

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste para você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

Porque algumas pessoas têm o dom — meu amor, eu te beijava fácil! E certos e-mails deveriam ser impressos, gravados, suspirados, dobrados e guardados na carteira, nequele lugar onde muitos hoje beijaram um retrato.

E o que eu faço agora com essas lágrimas? Obrigado, lindona. Do fundo do coração (te amo!), muito obrigado!

Dream a little Dream of me

Sonho. Entra o meliante, ilustre desconhecido, pela porta que deixei aberta e vasculha meus bolsos adormecidos na poltrona em busca das chaves do carro. Mas eu sei que não são essas — antes fossem — as que ele leva quando o relógio toca, em cima da hora: Socorro! Fui roubado…

Inconsciente, você já foi menos óbvio.

Dia dos namorados?

Nada a declarar. Nem a favor, nem contra — embora, eu tenha ótimos argumentos em ambos os casos. O meu problema é que eu sempre tenho argumentos demais! De que adianta?

O QUÊ?! AAAAAAAAAAH!!!

Eu tô passado, passaaaaaaaaaaado, bege listrado, uma coisa assim onrron.com! O que não faz uma quina virada pra lua, não? Como tem gente com sorte nessa vida!

Escuta aqui, ô barbudo, acho bom você dar uns petelecos em quem tá contabilizando as minhas boas ações aí em cima porque ESSA, além de sigilosa, não vai sair de graça, não! Inveja é uma merda? Então, SE VIRA! Eu quero a parte que me cabe desse latifúndio. :P

Mas, hein?

Como é que foi o diálogo? Ah, sim, a pessoa tem que ouvir dessas coisas. :P

— Mas você não tá com frio? – ele perguntou.
— Não, eu tô com tesão. Com frio, não – ela respondeu.
— …

Marie, o que você colocou naquela feijoada, posso saber (onde vende)?

A Caesar, meu semblante romano

Foi no ano passado — eu me lembro bem — que ele entrou pela primeira vez naquela sala. Ele e mais dois pares de olhos, um felino, outro sereno. Olhava os livros, a luz, o amarelo e o azul das paredes protetoras, o colchão convidativo. Pensava na confusão dos seus dias e nos medos das suas noites. Ou seria o contrário?

O gato, meio a contragosto, cedeu seu trono acolchoado para o menino que, sem saber como nem por que, desatou a falar. Nunca falou tanto. E ele que cantava o ar que respirava, respirou talvez pela primeira vez a vida que guardava. Das suas quimeras ele ordenou enredos, achou motivos, desenterrou verdades — as suas, tão secretas, tão encapadas que ele mesmo desconhecia — e encontrou alívio. Ela o escutava. Com as mãos moldava aquele menino bruto, abria caminhos, dava brilho, dava corpo àquela imensidão. Ele nunca soube como, mas sempre soube que ali podia brincar com seu espaço, andar pelo seu tempo sem que este escosasse, nem que aquele o faltasse.

E foi então que ele pegou sua capa, seu maior orgulho, e começou a desfiá-la até que da fibra fez-se um fio tão fino e tão forte quanto teia. Ela fez com que ele o enrolasse. Com as mãos ensinou-o a tecer não mais uma capa, mas toda uma realidade. O menino sorriu. E nos olhos dela ele viu o sorriso de um homem, o homem que ele sempre quis e nunca soube ser, mas que naquele instante aprendeu a tecer. Com as próprias mãos, com o fio do seu próprio amor.

No seu caminho, o menino-homem hoje veste a jaqueta que ontem foi capa. Há uma etiqueta no bolso interno, aquele junto ao peito, bordada com o nome dela que ele aperta firme sempre que algum vento tenta derrubá-lo e não consegue. Nessa horas ele pára, olha para trás, novamente menino, sorri e pensa com fervor: “Obrigado, Marie“.

Feliz aniversário, meu anjo.

Transdimensional

Vou dizer que sou feliz. Mas não que rio à toa. Rio porque tenho motivos, os que a vida me deu e eu aprendo a cultivar. Vou dizer também, contraditoriamente, que sou triste. Mas só porque um princípio valida o outro. E choro, pois todo solo, além de sol, precisa também de chuva para ser fértil. Nem Yin, nem Yang. Os dois. Em um. Mas não pleno. Não, ser pleno me limita, encerra, finaliza. A imperfeição, a incompletude são molas motrizes.

Vou dizer que meu prazer em falar só é suplantado, talvez e às vezes, pelo meu deleite em ouvir. Falem! Digam! Pois se é no olhar do outro que melhor o vejo, então é na sua voz que apreendo sua mais fina essência. E só então ouso tocar o limiar de seu universo.

Mas para cada mundo, um espaço-tempo. O difícil mesmo — mas também o mais rico — é aquilo que, pela própria natureza, me torna andarilho. Percorrer mundos, vencer distâncias e, assim, conectá-los. A existência do caminho reside no ato de trilhá-lo. Da mesma forma, uma porta só é real no momento em que a atravessamos. E é a comunicação — o fluxo, a troca —, o vivo estado transitório das idéias que, enfim, nos mantém gravitacionalmente ligados.

Baba, baby! Baba!

Aaah!!! Vou comer pavê de kiwi amanhã! :) Senhor, dai-me (muito) apetite! Gordo é uma desgraça até quando é magro mesmo. Não tem jeito, alma não emagrece. :P

Mulher, prepara o prato fundo!

Lavando a roupa suja

Chove. Copiosamente. Não poderia ser de outra forma: hoje é dia de lavar roupa suja, colocar pingo nos “is”, e reescrever uma história que foi mal interpretada — escrevi em um papel que não era meu e eu nem sabia. Mas não interessa se o quadro era outro do que me foi pintado. Porque eu me importo demais, mais do que com o que pensam de mim, mas com o que as pessoas de quem eu gosto sentem.

Não, tem certos papéis aos quais eu não me presto. Não me presto e não deixo que me vistam a carapuça. Eu não sou assim — graças e deus!

Ó, céus!

O Blogger morreu, é? Vai voltar, não? Xiii… vou tomar sol, então. :P

The Matrix Reloaded

“You already made the choice. Now you have to understand it.” (The Oracle)

Parece bobagem, mas foi o momento que mais me chamou a atenção no filme. Questionamentos que surgem do conflito dos personagens entre determinismo e livre arbítrio. Mais além, transportando para o (nosso) mundo real, o que me pega — e não só a mim, acredito — não é o fato de eu ter ou não escolha, mas a dúvida se essa escolha já foi feita. Como entendê-la, se nem toda escolha é consciente? E como negar o que, apesar de inconsciente, é tão verdadeiro quanto o que sinto, vejo e toco?

Sonhos sonhos são II — assim eu espero imensamente

Neste eu estava casado. Recém casado, acho, com um japonês — nada contra, mas eu simplesmente nunca me imaginei com um. Ok, até aí tudo bem, só que eu fui morar com o dito na casa dos meus sogros — já daí deu pra eu sentir que tava me controlando pra não acordar. Casar e ir morar com os sogros japoneses… estranho. Pra completar dormíamos na sala, nosso colchão — é, colchão — dividindo espaço com o colchão do meu cunhado que, graças a deus, não vi nem o rosto. E eu incomodado. A gota d’água foi ver, pela porta que dava pra cozinha, minha sogra discutindo acaloradamente com meu sogro em alemão, enquanto meu… esposo (?) me olhava e sorria candidamente, deitado ao meu lado. Eu olhava pra ele com um sorriso pra lá de amarelo e pensava, não sei se no sonho ou à beira do sono: “Eita, isso aqui tá bizarro demais!” E acordei.

Ô, inconsciente! Pô, o céu é testemunha de que eu tô aqui, abrindo mão do controle, deixando você fluir, abrindo os meus canais, escutando, sentindo. Mas você tá abusando, não fode! Isso já é deboche!

Se isso é um sonho premonitório eu quero sonhar com o divórcio. :P Marie, acuda!

Mantra

É incrível como a cabeça da gente se acalma e o coração se aquieta quando o estresse diminui — os dois conseguem até conversar sem me rasgar no meio, ora vejam só! Tudo o que era insuportavelmente sem solução e indefinido passa a ser meramente algo ainda não absorvido. O segredo está na respiração — sempre na respiração —, já diziam os iogues, dizemos os cantores e eu digo agora pra (minha) vida: *RESPIRA*

Tem gente que bebe — e não divide comigo!

Primeiro um maluco de sei lá onde me deixa um comentário em castelhano achando que eu sou psicólogo — não achei outro motivo pro cabra vir chorar as pitangas sobre a relação com a filha de um casamento rompido. Agora um outro — patrício, ó, pá! — me deixa um comentário de Lisboa, mas em inglês, só e então somente porque o post se chamava “Gato enjaulado“, me perguntando trocentas informações sobre os gatos selvagens europeus! COMO É QUE EU VOU SABER???

Daí a gente solta aquela do Manuel e do Joaquim e ninguém sabe por quê!
Politicamente incorreto, sei… :P

Alívio

Passa o recital — tudo dentro do esperado. Almoço. E me dá uma moleza dos diabos…
Agora é acelerar a marcha e recuperar o que ficou encavalado por conta da cantoria — digerir a (merecida, embora eu relute) bronca que eu levei em regência. Urgh! Ai, que desânimo… respira, levanta, VAI!