Ô, notícia boa!

:: País Basco adota união civil com adoção

O parlamento basco adotou ontem uma das legislações mais modernas sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo de todo mundo. A nova lei da região autônoma espanhola iguala os direitos de todos os casais, sejam eles héteros ou homossexuais, casados ou não, morando juntos ou não e permite a adoção mesmo para casais de gays ou lésbicas.

Para tanto basta que os casais se inscrevam no Registro de Casais de Fato e não é necessário que vivam ou tenham vivido juntos. A lei permite também que o filho de uma das partes seja adotado pela outra, podendo ser um parceiro do mesmo sexo.

Ah, tá vendo?! É um povo esquentado até as tampas, mas pelo menos não fica enchendo o saco das pessoas com esse moralismo hipócrita. Muito melhor do que ficar se punhetanto — quem dera fosse só isso — às escondidas como aquele povo da TFP. :P

Beabá

Quer entender como funciona um coração taurino (que nem os taurinos mesmos controlam)? Então, comece lendo o que ela — Balla, a princesadisse mui acertadamente sobre o assunto.

E daí vem falar comigo. Quiçá, se você olhar atentamente em meus olhos e além deles, talvez ali encontre um fragmento do que significa intensidade.

Testemunha oscular

“Sabe aqueles dias em que você perde
completamente a vontade de beijar na boca?
Então. Não faço idéia de como é.”

(Luis Pinto Costa)

Apropriado, muito apropriado. Aliás, atesto, comprovo e — ui! — assino embaixo. ;)

Pathetikós

Sobre ser patético — que ele afirma e eu, por acaso, vi hoje —, lembrei que estava pensando na origem do assunto dias atrás. (O que será que o Houaiss diz sobre isso?)

A música ocidental até o período barroco e antes do sistema tonal, ainda hoje muito utilizado, era baseada em modos musicais: seis escalas de sete notas baseadas erroneamente nos modos da Grécia antiga. Erronemente, mas mesmo assim se espelhando naquele ideário. Cada modo tinha, segundo eles, uma disposição emocional, causava algo ao espírito do ouvinte, o que deu, no Barroco, argumentos para a Teoria dos Afetos na música — e ainda hoje consideramos acordes menores tristes e maiores alegres, não?

Éthos e Páthos são dois termos muito presentes quando se pensa no que a música daquele período representava:

etos . [Do gr. éthos, ‘costume’, ‘uso’, ‘característica’.] S. m. 2 n. 1. Modo de ser, temperamento ou disposição interior, de natureza emocional ou moral. 2. O espírito que anima uma coletividade, instituição, etc. 3. Sociol. Antrop. Aquilo que é característico e predominante nas atitudes e sentimentos dos indivíduos de um povo, grupo ou comunidade, e que marca suas realizações ou manifestações culturais.

patos . [Do gr. páthos.] S. m. 2 n. 1. O patético expresso na fala, em escritos, acontecimentos, etc.: o patos das tragédias gregas. ~ V. pato.

patético . [Do gr. pathetikós, pelo lat. tard. patheticu.] Adj. 1. Que comove a alma, despertando um sentimento de piedade ou tristeza; confrangedor, tocante: “Quando vai embriagado para o mar, …. chora de entusiasmo no meio da borrasca e faz discursos patéticos ao oceano.” (Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal, p. 114.) 2. Que revela forte emoção; apaixonado: apelo patético; gesto patético. 3. Trágico, sinistro, cruel: O quadro patético dos retirantes não lhe saía da memória. ~ V. acento – e nervo -. • S. m. 4. Aquilo que é patético. 5. Anat. V. nervo patético.

Mas, veja: o patético é, portanto, presença obrigatória e mera conseqüência dentro da história da música — seja na sutileza do Barroco ou no arroubo do Romântico — e permanece diametralmente oposto ao significado do ridículo. Sendo a música sempre o fruto de costumes, idéias e valores de um povo, mas tendo sempre uma influência tão subjetiva e interna, não tinha como escapar de ser, também, patética.

Assim como eu.

A rota do indivíduo

Mera luz
Que invade a tarde cinzenta
E algumas folhas deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho
Que esquenta
O coração gelado
Quando venta
Movendo a água abandonada
Restos de sonho
Sobre um novo dia
Amores nos vagões
Vagões nos trilhos
Parece que quem parte é a ferrovia
Que mesmo não te vendo te vigia
Como mãe, como mãe
Que dorme olhando os filhos
Com os olhos na estrada
E no mistério solitário da penugem
Vejo a vida correndo parada
Como se não existisse chegada
Na tarde distante
Ferrugem ou nada
(Djavan / Orlando Moraes)

Obrigado por estar aí, meu amor, nas minhas horas de aflição.

Inferrrno!

Ah, quando o mau humor bate mesmo — o que é raro, quem me conhece sabe — eu fico um entojo! Tudo incomoda: o acaso, o ocaso, o descaso. Daí, eu vou pro meu quarto que ninguém me merece assim por perto porque eu mordo, firo e não é pouco — e não é cuspir sapos, é ser cruel mesmo, tô fora! A sorte é que dormiu, passou.

Claro que isso só acontece quando eu tô sensível, mas a impressão que dá é que TUDO resolve acontecer quando eu tô sensível. E depois ainda dizem que homem não tem TPM. :P

ARGH! Até esse post incomoda. Tchau!

Ora, vejam só!

Dei pra cronista, agora? Quem diria…
Será que eu consigo o mesmo lirismo com as contas que andam mordendo meu calcanhar? Sei não, acho que daria uma coisa mais dantesca. :P

Memento

Ela me trouxe boas lembranças.

Quando éramos crianças, meus irmãos e eu, visitávamos todo fim de semana a casa de nossos avós. Sábado a materna, domingo os paternos. E domingo, claro, era dia de macarronada, da boa, caseira do incício ao fim, com direito à camiseta manchada e tudo o mais. Depois ainda perguntam como eu cresci fortinho (e fofinho também — sim, eu era beeeeem rechonchudo!): a versão italiana do leite ninho com solzinho, sabe como é?

O orgulho de minha avó paterna era, e ainda é, o pequeno ipê amarelo em frente à casa, com seus galhos delgados e folhagem delicada. Sempre havia alguns beija-flores ali por perto, em plena Vila Mariana, mas certa feita — não me lembro agora se meu avô ainda era vivo ou não — um deles resolveu eleger o ipê como morada. Não só elegeu, como espantava qualquer ser alado que por ali se aventurasse. Era trabalhador o bichinho, saía logo cedo e voltava no fim da tarde, religiosamente. E pousava, esbaforido e elétrico, sempre no mesmo galho, em frente à janela e de olho na rua. Olhava pra cá, olhava pra lá, pra cá e pra lá, pra cá, pra lá… pra cá… pra lá… pra cá… pra lá… e adormecia. Uma coisinha de nada empuleirada no galho, longe do alcance dos gatos da região e do nosso que imagina se a gente não queria ver o danadinho bem de perto. Puro encanto. Devo ter perguntado tudo e mais um pouco sobre beija-flores pra quem quer que se dispusesse (ou não) a alimentar minha incontrolável curiosidade.

Depois de um período ele sumiu. Voou para algum outro galho, acho. Virou memória. Eu acho que beija-flores não nascem nem morrem. Essas criaturas leves e vibrantes, tão cheias de cor e vida, já foram sonhos e viram memórias. Memórias saborosas como tudo o que aquela língua comprida deles toca. Sonhos valentes e palpitantes. Talvez por isso mesmo não possamos ver suas asas baterem, senão em fotos, pois elas os sustentam acima e à margem do tempo e da razão de ser. Vêm e vão não sei de onde, não sei por quê.

Sem sacurescência

Cansei. Deu no saco. O encanto — ou será feitiço? — há muito se desfez. A (boa) intenção (há tempos) mostrou-se inútil. Mas como eu sou teimoso — insistente, perseverante, dedicado, paciente (é, não parece, mas sou) e muitas vezes presunçoso — mantive a porta ostensivamente aberta, a luz acesa e a água no fogão. Porque não se recebe ninguém nessa terra sem café, não é mesmo? Liguei, perguntei, chamei, convidei. O bolo assou, cresceu, esfriou e eu comi, lambendo os beiços. Agora, cansei. Acordei cansado. Desencanado. Desinteressado.

A porta continua aberta, a luz continua acesa, mas eu saí: — Deixe seu recado após o bip! Fui ver o sol nascer na praia, a lua se por nos montes, ouvir ópera em vinis antigos comendo biscoitos de polvilho feitos em casa. É fácil me encontrar, basta seguir a música que eu alardeio no meu rastro. Tão simples quanto seguir a bolinha amarela saltitante, não por acaso a cor da minha camiseta.

E se você vier, traga pão quentinho, sim?

Condolências

— Ei, acho que eu bati meu dedo no seu relógio – pressionando a (dolorida) ponta do meu dedo.
— Ah, não foi nada! – olhando pro próprio relógio e voltando a nadar em seguida.
— …

Depois a criatura aparece enforcada na raia da piscina e ninguém sabe por quê.

Céu estrelado (ai!)

Você já conseguiu descolar a unha de um dedo da mão? Dói, viu? Mas já conseguiu fazer isso nadando? Não, né? Esses esportes radicais é que me matam. Eu não quero nem ver o dia em que eu fizer mergulho autônomo. :P

Alguém dá um beijinho? Na mão… quer dizer… ou não, né? ;)

Elos perdidos

E eu tô descobrindo que tenho mais parentes do que imaginava. O que minha vó já recebeu de ligação hoje perguntando se “aquele é o Guigui” não tá escrito no gibi! Até prima que eu nem conheço veio parar aqui hoje. Heh! Divertido, isso…

Mas deu, né? A brincadeira foi legal, mas deixa eu cuidar da vida.

Vogue

UIA! Que fotão! :) Pra eu pagar a língua quando digo que não gosto das minhas fotos. Dessa vez até eu gostei… Mas precisava o casal lindão me ligar do Rio passando trote e tirando onda? Precisava, né? Tá certo…

Agora — pra não perder o hábito — bonita mesmo tá aquela bateria do nobreak embaixo da mesa, fala a verdade. Coisas de quem tem um pai cruzamento de alquimista com Prof. Pardal.

Aumente o volume

A obra escrita, mesmo as grandes, trata inevitavelmente, até certo ponto, de um apreocupação local, coisa que a música de uma certa forma não faz. Nossos romances talvez não sejam lidos em Alfa Centauro, mas parece possível que algumas de nossas músicas sejam tocadas. Apaixonado pela música mas sem talento algum para produzi-la, eu tento compensar escutando música quase toda manhã antes de começar a escrever, para ficar me lembrando sempre de que a linguagem escrita em papel pode ser quase tão rítmica e penetrante quanto a obra de Schubert, Van Marrison ou Philip Glass.” (Michael Cunningham)

Viagens intergaláticas a parte, se M. Cunningham pode ver a escrita dessa forma e ir da música a ela por que eu não posso ir dela à música, mesmo que não seja (no caso) a minha?

No dial, Philip Glass: The Poet Acts, do filme The Hours.

Meu melhor ângulo

Mas e as fotos, hein? (quem disse que eu tenho o Estadão?) Será que ficaram boas?
O que é? Você já viu artista sem vaidade? É ruim, hein?! ;)

As luzes da ribalta

E não é que saiu a matéria no Estadão? Faltou uma ou outra coisa que eu disse, um ou outro detalhe, mas é isso aí.

Por exemplo, que o Figaro é um álter-ego — e não poderia ser de outra forma, pois a pessoa, vulgo eu, do outro lado da tela canta ópera, não vive dentro dela. Não só o Figaro (que não tem acento, mas todo mundo coloca, então desencana) como a maioria dos blogs, principalmente os que não revelam a identidade do autor. E nem que você queria vai conseguir sê-lo inteiro ali, em uma janela. É uma faceta, um aspecto, uma válvula, um link seguro com um mundo de pessoas desconhecidas. Quer dizer, nem sempre…

O problema é quando a pessoa começa a viver dentro do blog e se esquece de viver fora dele, como acontece nas inúmeras salas de bate-papo por aí. Fazer tipo, usar máscara, todo mundo faz, não só no universo cibernético, mas aqui a tentação é bem mais forte, a maquiagem, bem mais carregada. A coisa toda desanda quando a pessoa tenta, deliberadamente, vender aqui aquilo que não é e espera que as pessoas fora desta realidade a vejam como tal. Na minha opinião, um caso para terapia. Não rola! Quer ser uma coisa fantástica aqui, tudo bem. Mas consegue ser o Clark Kent fora daqui? Ou mesmo o inverso?

Quanto aos comentários, eu gosto deles, sim. Óbvio que quero saber o que as pessoas acham do que eu escrevo. Embora eu escreva muito sobre e para mim ou para quem me conhece, estou escrevendo aqui, não? Então é informação pública. Mas o que irrita é quando você passa horas pensando e remoendo sobre um aspecto pessoal ou uma questão que julga complexa e/ou fundamental, se preocupa em escrever valorizando a reflexão, o debate, a contraposição de experiências ou idéias… e do nada surge algum ilustre desconhecido bradando: “aiiiiiiii… ki linduuuuuu… beijinhuuuuuu…” :-\ Digamos que é meio… broxante. Adoro uma tietagem, jogo confete também, mas tem hora que simplesmente não dá! Presta atenção, né? :P

Invertebrado

“We are family
I got all my sisters with me
We are family
Get up everybody and sing…”

Ah, como é bom chegar em casa com as pernas bambas!
Dançar é a melhor forma de exorcismar certos demônios e dar espaço para outros. ;)

E acabou o aniversário, chega! Agora é mais um ano pra tocar, crescer, tropeçar, rir, chorar, mas — pelamordedeus! — gozar!

“que bela merda”?

Então tá, né?

Eu acho o seguinte: nem todas as fotos ficam boas, mas todos os momentos são lembrados. Isso é o que importa. E é por isso que eu não tenho vergonha de ser feliz, nem de fazer feliz quem tá ao meu lado. Principalmente nos dias de aniversário.

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Parece bobagem, como se fosse um dia como outro qualquer. Passei o dia em casa, vendo o sol passear pelo céu gelado e azul, rasgado de nuvens. Mas a comida tinha outro gosto — panquecas, feitas a pedido —, os sorrisos aqui de casa tinham mais ternura. Passei o dia aqui, curtindo esse carinho, recebendo alguns telefonemas — tias, primos, avó, amigos… Feliz e tranqüilo. Sou família e tenho por que ser. Talvez seja por isso que trato meus chegados como tal. Nesse ponto, agradeço.

Mas agora eu não quero é nem saber: é o meu aniversário e eu quero dançar até que não sobre vértebra sobre vértebra! E vai ser no Bailão, onde toca de tudo, onde eu já conheço, onde não é exorbitante, onde te respeitam e se for pra ser *feliz* que seja lá mesmo. Em algum horário depois das 23h, como de costume.

Bailão — R. Marquês de Itu, 182. Centro.

Making of

equipe.jpg

A irmã vetou a publicação online das fotos do feriado passado — é pra trabalho, como ela disse —, mas o momento “ficha técnica” eu não perdôo: eu, ela e a Nikki. ;) Pena que eu não tenho um scanner de cromo aqui. Tem umas traquinagens ótimas!

Samhain

Morrer. Rasgar de mim mesmo tudo o que é bruto até que só sobre o osso. Até que tudo o mais sossobre. Mais uma vez. Tornar transcedental a despedida do que é velho e consumado. Consumir em chamas rituais o que é roto e desgastado. Hoof and Horn, Hoof and Horn / All that Dies Shall be Reborn / Corn and Grain, Corn and Grain / All that Falls Shall Rise Again. E renascer… Ser de novo o broto e ser melhor. Cantar mais e com mais vida. Andar mais e mais firme. Levar mais e com mais tino. Plantar em mim o fruto da partida. Regar o solo da felicidade prometida. Agora e sempre. Daqui a pouco…

Pai, eu te entrego mais uma ano, o vigésimo sexto. Eu te devolvo para que ele sirva ao chão como serviu a mim. Cego e cansado, eu te dou minha mão. Hoje, me leve até o fim.

Mãe, eu te peço um ano mais, o vigésimo sétimo. Uma vida a mais com muitas vidas mais. Eu te rogo crescimento. Eu te dou merecimento e com ele meus sonhos. Para que sejam bem gestados, para que eu os veja germinados eu te dou meu coração. Deito em teu colo para receber teu beijo: sopro da criação. Amém!

*CHOMP*

Sabe o que é melhor do que se entupir de BIS? Entupir os outros também. Cada um dá energia do jeito que sabe. ;)

O queixo caído

E foi assim que meu queixo foi caindo, caindo… enquanto lia Maturana discorrendo e justificando a linguagem como a origem do humano, fazendo referência ao que acontecia aos primatas bípedes há 3,5 milhões e como evoluíram, comentando que o peculiar do humano não está na manipulação, mas na linguagem e no seu entrelaçamento com o emocionar.

De certa forma é tão óbvio para mim, hoje, faz um sentido corporal, mas nunca tinha encontrado uma argumentação tão… biológica e tão bem estruturada. E isso porque eu estava buscando embasamento para a minha pesquisa acerca do melodrama e sua expressão no canto lírico O que me atraiu foi justamente a visão das emoções copo dinâmicas corporais que especificam os domínios de ação em que nos movemos. Dessa forma, a representação se torna não o que você está sentindo — engano comum — mas a expressão no corpo e, portanto, na voz, do que você deseja trasmitir a quem assiste e que causará interpretações várias, de acordo com a emoção de cada um.

Mas o conceito todo já se tornou interessante por si só. Eu preciso do livro Biologia do Emocional, do mesmo autor, para (pesquisar e) viver!

As emoções

“As emoções não são o que correntemente chamamos de sentimento. Do ponto de vista biológico, o que conotamos quando falamos de emoções são disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos. Quando mudamos de emoção, mudamos de domínio de ação. Na veradde, todos sabemos isso na práxis da vida cotidiana, mas o negamos porque insistimos que o que define nossas condutas como humanas é elas serem racionais. Ao mesmo tempo todos sabemos que, quando estamos sob determinada emoção, há coisas que podemos fazer e coisas que não podemos fazer, e que aceitamos como válidos certos argumentos que não aceitaríamos sob outra emoção. (…)

Falamos como se o racional tivesse um fundamento transcendental que lhe dá validade universal, independentemente do que fazemos como seres vivos. Isto não é assim. Todo sistema racional se baseia em premissas findamentais aceitas a priori — a partit de uma certa emoção —, aceitas porque sim, aceitas porque as pessoas gostam delas, aceitas porque as pessoas as aceitam simplesmente a partir de suas preferências. (…)

O humano se constitui no entrelaçamento do emocional com o racional. O racional se constitui nas coerências operacionais dos sistemas argumentativos que construímos na linguagem, para defender ou justificar nossas ações. Normalmente vivemos nossos argumentos racionais sem fazer referência às emoções em que se fundam, porque não sabemos que eles e todas as nossas ações têm um fundamento emocional, e acreditamos que tal condição seria uma limitação ao nosso ser racional. Mas o fundamento emocional do racional é uma limitação? Não! Ao contrário, é sua condição de possibilidade (…)

Vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções em função de uma supervalorização da razão, num desejo de dizer que nós, os humanos, nos dintingüimos dos outros animais por sermos seres racionais. Mas acontece que somos mamíferos e, como tais, somos animais que vivem na emoção. As emoções não são algo que obscurece o entendimento, não são restrições da razão: as emoções são dinâmicas corporais que especificam os domínios de ação em que nos movemos. Uma mudança emocional implica uma mudança de domínio de ação. Nada nos ocorre, nada fazemos que não esteja definido como uma ação de um certo tipo por uma emoção que a torna possível.

O resultado disso é que o viver humano se dá no contínuo entrelaçamento de emoções e linguagem como um fluir de coordenações consensuais de ações e emoções. Eu chamo este entrelaçamento de emoção e linguagem de conversar Os seres humanos vivem em diferentes redes de conversações que se entrecruzam em sua realização na nossa individualidade corporal.”

(in Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Humberto Maturana, natural de Santiago do Chile, Ph.D. em Biologia pela Universidade de Harvard e Doutor Honoris Causa pela Universidade Livre de Bruxelas)

Tietagem pouca é bobagem

E por falar na caçula — linda, inteligente, talentosa e dis-po-ní-vel, mas se tu folgar, vai ter que se ver com o papai aqui — sabe quem tava lá no SESC, toda, toda, fã inveterada? Wanderleia!

Senhor juiz, pára tudo! Protesto! Essa concorrência (à presidência do fã-clube) é desleal. A filha dela toca na banda, pô!

As horas da Central do Brasil

Comentário, muito lúcido por sinal, da irmã: em alguns momentos a trilha de As Horas lembra muito a de Central do Brasil — sobretudo em alguns trechos de repetidos acordes arpejados.

Uia! E não é que é? Que antena, hein, maninha?

Apesar de você

E aí, inferno astral, já fez as malas? É bom, viu? Porque eu não vou te carregar nos ombros nesse Samhain, não! Já calcei as chuteiras. Pode ir preparando os fundilhos.

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
?gua nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
(Chico Buarque)

Antes tarde do que nunca

Não deu pra avisar: hoje tá tendo Oriashé lá no SESC Pompéia, às 14h — ou seja, now! — e às 17h. Vou estar lá, prestigiando a irmã mais linda que existe. :) E dançando loucamente ao som dos tambores, óbvio. ;)

É pessoal, só pode!

Se você tentou entrar aqui e também não conseguiu, vai reclamar com a Telefônica — e xinga bem, por favor. Acho o máximo! Aquele poço de incompetência resolve fazer manutenção no Speedy aqui da região e simplesmente es-que-ce — é, isso mesmo, não viu, passou reto, oops! foi mal aí — de reconectar a minha linha!

Ah, sim, é claro que Murphy garante que isso aconteça justamente no dia e horário em que o fotógrafo do Estadão passou aqui para tirar fotos para uma matéria. E eu tentando puxar a página do cache, cena bonita, viu? Acho que sai no domingo. Vamos ver.

Minimalismo, o extritamente necessário

Em alguma das conversas sobre As Horas, em algum momento de encontro coletivo, falando sobre Philip Glass, Carpe manifestou uma dúvida sobre minimalismo. Não sem razão, pois o termo sugere algo menor, pequeno, de pouca qualidade composicional. Não é bem o caso.

O termo “minimalismo” surgiu no início dos anos 70 e foi aplicado a várias práticas de composição utilizadas desde o início dos anos 60 (quando eram geralmente conhecidas como “música sistemática”), cujas características — harmonia estática, ritmos e repetição padronizados — buscam reduzir redicalmente a gama de elementos utilizados na música. As origens do minimalismo podem remontar até a música de Satie e as primeiras obras de Cage, e também à música de Bali, da ?frica negra e da ?ndia.

Não se trata, entretanto, de música pequena — com peças que ultrapassam os 90 minutos, “pequena” é o último dos adjetivos a ser usado —, mas de uma música minuciosamente econômica. Várias são as possibilidades de se trabalhar o minimalismo e Steve Reich chega a empregar o termo “música como um processo gradual” que descreve bem uma das características principais do minimalismo: a inclusão ou exclusão, de forma lenta e gradual, de pequenos elementos no processo composicional.

Enquanto outros compositores trabalham suas minúcias composicionais minimalmente dentre tantas abordagens individuais possíveis, posto que o processo é centrado em pequenos detalhes, a abordagem característica, e igualmente severa, de Philip Glass cria alteração rítmica por meio de acréscimo e subtração de subcélulas de uma frase musical; é típico que um motivo forte, rápido, intenso, seja estabelecido através da repetição, e então fragmentos dele comecem a ser repetidos ou omitidos. A repetição é, portanto, um fator muito presente na música minimalista que funciona como pano para aplicação de pequenos contrastes que surgem gradualmente.

Ouvindo a trilha do filme — obrigado, obrigado e obrigado — me ocorreu que o sucesso da mesma se deve justamente ao fator minimalista que ela encerra. A música não pode ser considerada puramente minimalista, mas é evidente a influência do estilo no processo de criação da música — isso sem falar do histórico do compositor. Suas qualidades hipnóticas, à guisa de transe, “ilustram” muito bem os processos mentais das protagonistas, cheio de ciclos e agoniantemente encerrados nos seus cotidianos. Preenche igualmente bem a imagem do rio no filme, com seu ritmo fluido e a aparição recorrente de motivos melódicos e rítmicos e progressões harmônicas semelhantes em praticamente todas as faixas. E como toda boa música incidental ela mantém tensa, vibrante, a representação na tela, amplificando a interpretação do espectador sem nunca roubar a cena — regra de ouro de uma trilha sonora.