Vem,…

20120621-112115.jpgE lá se foram 2 anos… Foram, não, vieram — com você. É muito tempo. É pouco tempo. É, na verdade, um tempo bom o nosso. Os dias antes de te conhecer, parecem outra vida; os dias adiante, um sonho. E, mesmo assim, eu estaria mentindo se dissesse que não sei viver sem você — a vida me deu isso —, mas quem disse que eu quero?

O que você quer? O que nós queremos?

Sim, eu quero viver com você; eu sou mais feliz. Eu quero que você seja mais feliz. Eu acredito que nós somos mais felizes assim. O que interessa não é a burocracia do dia a dia, tão pragmático. O que eu quero são os dias ditosos ao teu lado.

O que importa é que o meu amor já fez bodas faz tempo. E o meu coração — eu nem sabia — casou com o teu no dia em que te viu.

…me dá a tua mão?

 

Desnamorados

Ele não a ama, é visível no modo como disfarça uma distração enquanto ela fala. E ela fala, pergunta, explica, segura o seu rosto como se o vento pudesse levá-lo para longe. Mas a verdade — ela não sabe — é que procura ali naqueles olhos entediados uma gota, um risco, qualquer lampejo de um sonho que ele, de fato, nunca foi.

Ele já está a léguas dali. E não a ama. Inventa problemas que não existem porque não tem coragem de dizer a mais simples das verdades. Tem medo que ela chore e faça um baita de um drama. De novo. Medo, não: pânico! Mas o medo maior e visceral é o de ficar sozinho. Ele às vezes quer que ela suma, mas não aguenta a solidão e sua falta de propósito.

Deus, como ela é chata! Insuportavelmente grudenta — ele pensa. Ela não se dá conta do quanto ele é ranheta. Ele vai transformando sua falta de coragem em mau humor, dia a dia. Ela atinge níveis psiquiátricos de ciúmes.

Vão se casar, provavelmente. Depois de alguma briga concluirão que é o melhor porque… é o melhor. Uma cerimônia simples é o que ele quer, mas o véu dela já tem uns dez metros.

Vão se casar, mas não agora porque o trem chegou e ele se despede com um semi-beijo — um pé na plataforma, outro já dentro do vagão do metrô —, enquanto ela jura que é feliz.

Zen

Acordei e logo peguei 3 pedras que me enchiam bem a mão — senti-lhes o peso. Respirei fundo… Com leveza, em cada uma escrevi “delicadeza”, “gentileza” e “compaixão” e as pus no chão do jardim, onde é o seu lugar.

— Amor, meu grande amor,

Entre hiatos e distâncias, resta sempre
o amor; sempre a imagem lenta
de um olho-no-olho por sobre a taça,
o arabesco dos dedos entre os talheres.
É sobre as mesas que os laços
se estreitam e se renovam,
quando largamos garfos e facas
e pousamos as mãos, sempre nuas,
sobre a toalha branca. — O amor é noturno
e tem sabor de café da manhã.

(para Fabi)

Marieversário

Lá pelos idos de 2002, conheci várias pessoas de suma importância em minha vida, cada uma por um ou mais motivos, tempo, estação. Eu era então uma força bruta, quase violenta na minha vontade de sentir, amar e ser — muito do que eu fui e sou e fiz marcou as minhas relações comigo e com os outros para sempre. E então veio Marie. Enorme, abrangente, bela e plena, como deve ser o amor. Marie nunca esteve certa, ela sempre esteve ali. E me mostrou que o amor vem antes da crítica, antes da dúvida, antes da prática. Marie me mostrou que o amor não tem raízes, o amor é a raiz! E que ele é tolerante, mesmo não sendo conivente. Inclusivo, mesmo que reservado. Zeloso até quando — e principalmente — ausente. Marie deu forma à minha força bruta e me ajudou a enxergar que o amor é Deus — não o contrário. Por isso e por tudo é que, em Marie, nunca perdi minha fé.

Te amo tanto e te amo sempre, Marie, meu grande amor.

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!

Oi, tudo bem?

Eu não tenho mais 15 anos. Quando você chega, eu não rio nervoso. Não mostro mais minhas qualidades como se fossem parte da minha coleção de figurinhas. Prefiro que você veja logo os meus defeitos. Prefiro estar nu. Se você passar por eles, então podemos conversar.

Mostrarei minhas boas faces uma de cada vez. E devagar, para que você se acostume a elas, para que você não ache que eu sou mais do que sou. Eu não posso com a expectativa, ela me sufoca. Ela me tira daqui de onde estou e me leva para onde não posso estar — é uma tortura.

Venha com a calma das nuvens e a urgência das chuvas. Seja como aquele vento que carrega lufadas, abraços mornos que cavalgam lambendo a campina verde, e te banham de ar. Mas não me carregue, que eu custei a caminhar.

E se você conseguir ver o que eu não mostro, ler o que eu não escrevo, ouvir o que eu não digo, não me conte! Espere, vá com calma, tome cuidado. Que para te conhecer, eu vou me conhecendo aos poucos.

Babilônia

Diretamente do 11º andar, o meu jardim! E minha inabilidade em tirar uma foto decente com uma câmera compacta e tanta luz contra.

Fomos eu e a super-mãe sexta passada ao CEASA atrás de vasos, terra e plantas de gente grande — sim, porque as pequenas, a gata-exu não perdoa. E depois de enfiar tudo num carro comum e passar horas arrumando e espalhando terra pela sala, eis o resultado.

E agora eu tô torcendo para que os bambus resistam à adaptação. O variegata (menor, à direita na foto) se ressentiu logo no dia seguinte, e pareceu secar um pouco, mas já demonstra sinais tímidos de recuperação. Essa dobra no topo do caule, que não é natural, agora me pareceu meio brutal porque a ponta é a que tá sofrendo mais para se recuperar. Eu aproveitei e tenho borrifado água na folhagem. O mossô (grande, à esquerda) tava lindo e verdejante, mas, faz uns dois dias, resolveu amarelar um pouco e tá perdendo folhas rapidamente. Pelo que eu pesquisei não é incomum acontecer e depois de adaptado as folhas nascem todas novamente. Oremos!

Os gatos, como se vê, já estão perfeitamente integrados à paisagem. Integrados demais, a julgar pelas marcas de patas na terra dos vasos…

Lorem ipsum

No fim do ano este blog completa 10 anos. Por incrível que pareça, ele conserva todos os seus posts, desde o início. Muito já não condiz com a realidade e o seu começo soa ridículo, mas sei lá, já foi realidade um dia — caminho, escada.

E eu sou taurino, né? Tenho essa coisa de carregar tudo comigo.

Eu sinto que perdi um pouco o jeito, não tenho mais a mesma vontade de escrever aqui. Mas pela primeira vez sinto necessidade, como quem volta às aulas de dança ou à natação. O exercício me ajudava, tanto nas horas boas, quanto nas ruins, mas foi um pouco por cansar da lamentação que eu fui largando. Isso e um sentimento besta de por que e pra quem eu falava tudo isso.

Pois bem. O problema da lamentação não era o blog, era eu, como todo o resto. Como sempre, como todo mundo. Assim como o legal não é o blog, sou eu — ele me reflete, em partes, blocos, em fluxos, em silêncios. Minha filosofia é barata, mas é minha. E às vezes minha rima até é rica. Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons — mas aí quem disse foi o Chico, eu só acredito.

Sem hipocrisias. Quem não quer se expor, não mantém um blog. É (também) um exercício de ego, bem ou mal explorado. E pensando bem, deixe que digam, que pensem, que falem, como diria Jair Rodrigues. Não tô devendo nada pra niguém.

Desjejum

É sobre as mesas que os laços se estreitam e se renovam, quando largamos garfos e facas e pousamos as mãos, sempre nuas, sobre a toalha branca. — O amor tem sabor de café da manhã.

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Segunda-feira, dia internacional do #mimimi, da saudade, da dieta, da preguiça, da to-do list, de perder a hora, de acordar pra vida… e também do novo. Quer dizer, dia de tudo aquilo que a gente um dia vai fazer. Mas hoje, não; amanhã, talvez. Melhor seria chamar de dia do de novo.

(E calhou que hoje é o Dia Internacional da Mulher, mas poderia muito bem ser o dia internacional da TPM. A semelhança é patente: em qual outro dia um homem não sabe muito bem se o que vai dizer inspira amor ou ódio?

Enfim.)

Pra mim, segunda-feira é o dia do sonho acordado. É aquele dia em que você não quer, mas tem que; ou quer, mas não tem como. Ou como @giulieta disse hoje: “na segunda feira me sinto uma penélope desfazendo e refazendo as rendas das cores tecidas no final de semana”. Perfeita.

É assim que eu me sinto. E são tantas as cores, os sabores e o que sentir que a abstinência é quase uma síndrome; um ensaio do vazio. Me pego pensando no que estou sentindo e no que estava sentindo e no que (acho que) vou sentir e sei que essa é a armadilha que eu mais tenho que evitar. Então, contrariando a preguiça, a languidez e a melancolia, pra mim as segundas-feiras têm de ser cheias, ocupadas, movimentadas. Só assim pra eu me arrastar pra fora do perigoso devaneio e manter o fim de semana com seu encanto intocado, preservado no que ele é, simples e precioso, sem ponderações inúteis; mas lá, no fim de semana.

Ainda assim, segunda-feira é o dia de uma música na cabeça, no repeat. Uma tentativa sentimental de agarrar o tempo pelo rabo.

Ironicamente, o tempo taí pra ajustar tudo, tecendo seus dias com calma e paciência, correndo solto feito rio. (E rio represado transborda, inunda, invade, afoga.) Só é preciso seguir a trama, sem medo de se perder ou se enroscar. A sensação de deslocamento é ilusória, já que o tempo e o espaço das coisas nos habita (e não o contrário, como se crê). Pois o aqui e o agora é um só — somos nós.

Algumas considerações

Ontem eu fiz uma escolha aparentemente simples, mas importante; rápida, porém muito pensada; sem alarde, só que perceptível: escolhi a mim. Tenho feito essa escolha com frqüência.

Se tem uma coisa que eu aprendi é que não interessam os grandes motivos ou situações, é o gesto que importa. Nunca abra mão de si mesmo porque você é o que sempre vai te fazer mais falta. Ceder é importante? Claro! Mas quem muito abaixa, mostra a bunda, já dizia o ditado. Ninguém te preserva quando a corda aperta, então não a deixe apertar. Aliás, nunca deixe que cheguem com ela perto do teu pescoço. Fora isso (o que é de medida absolutamente pessoal, admito), doe-se o quanto quiser e puder, de peito aberto — faz a vida valer a pena.

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Eu já desisti de explicar pra faxineira que nariz de porco não é tomada. Já tô na fase de achar ótimo quando ela vem, faz a faxina e não estraga nada. Por que eu vou perder meu tempo explicando que a fruteira não é porta-treco e que a bandeja (linda!) que enfeita o móvel não é o lugar dos fones de ouvido (enormes) do piano? Afinal de contas, eu tô falando da pessoa que resolveu guardar a furadeira dentro do cesto de roupa suja. Quédizê…

Taurino sofre!

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Os gatos agora resolveram mordiscar as pontas dos lápis aquareláveis que ficam em cima da minha mesa. Eu duvido que o gosto disso seja bom, mas vai entender.

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Levei uma surra da menina ao meu lado ontem na esteira. Sabe o Coiote correndo e o Papa-léguas disparando? Marromeno. Humilhação pura. Eu suando em bicas; ela linda, loira, gostosa e perfeita.

Fui comentar com o instrutor amigo e ele emenda:

— É, a genética masculina favorece!

Pausa.
Engasgo.
Espanto.

— Cumequié?
— Ela é operada.
— Quer dizer que ela é ele, digo, era ele? Agora ele é ela?
— Ahã!
— Sensacional!

Fiquei pensando se deveria ou não contar pro resto da mulherada da musculação, mas achei que já havia inveja suficiente no ambiente — sério, ela era um avião, zero cara de traveco.

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E quem diria: eu estou correndo, e bem. Sim, senhoras e senhores, 10Km em menos de 1h ou meus batimentos não sobem o suficiente pra atingir a zona de queima. De banha, claro.

Bye bye, pneus! Foi uma longa e compartilhada existência, mas vocês vão; eu fico. E as calças caem, que eu já não tenho mais furo nos cintos.

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Eu queria que o resto fosse assim fácil. Mas é mais fácil perder peso que ganhar juízo. Enfim, uma conquista de cada vez.

Libera me

Liberdade é uma coisa engraçada, né?

Metade das pessoas que se consideram livres, na verdade, estão sempre fugindo. E boa parte das que anseiam por liberdade, na verdade, elas mesmas se prendem — seja lá ao que for.

Eu penso, do alto da minha ignorância, que estar livre, de fato, é estar em paz com seus próprios grilhões.

Além-mar

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

(Cais, Milton Nascimento)

Ele dorme.

E eu, confesso, tenho medo. Medo de que, se o acordar, isso me desperte do meu sonho. Ah, porque eu sonho, sempre sonhei. A diferença é que hoje, ao invés de negar o sonho (ou a realidade), tenho a cabeça nas nuvens e os pés no chão — passar dos 30 e fazer as pazes com seu ascendente tem lá suas vantagens. Eu sei que vou sonhar, eu sei que se ele sumir eu vou ter que me virar na minha ansiedade, mas sei também que eu sou o dono das minhas escolhas e que tudo está aí para ser sentido.

E sei mais. Sei da solidez do meu abraço, da certeza do meu beijo, sei que sou exatamente isso que eu tento e represento ser na encenação de mim mesmo: um porto, uma certeza; terra firme. Eu me invento. E já está na hora de assumir — e não encenar — a minha natureza. Nem por isso não sou livre. Pois quem olha o porto não percebe que este é uma ilusão do imóvel; não nota, desatento, que a água que banha o cais nunca é a mesma e que, portanto, nunca está no mesmo lugar.

O que temos… não sei o que temos. O que ele tem não sei tampouco, pois não me pertence. Sei o que sinto agora, neste exato momento: felicidade, na forma de um calor gostoso, de querer bem; algo que me impele contra a distância. Sinto um tempo devagar quando ele não-está e um não-tempo quando enrosco os dedos em seus cabelos ou acompanho o vai-e-vem do seu ronco, como ondas de um mar profundo tombando em minha vasta costa. E mais não sei. Quando respiro fundo, não importa.

Todo barco retorna ao cais. E quando ele não está, o vento traz do mar o seu perfume.

Jardim

Juntou seus papéis embaixo do braço, meteu alguns sonhos nos bolsos, apressado, e foi para a rua — era a vida que passava.

+

Algumas coisas que sinto não permito que ganhem palavras antes da hora, nem mesmo em pensamento, pois suas formas são como prisões. Seria como podar uma planta precipitadamente, impedindo-a de crescer e abrir todos os seus ramos.

Outras, arranco logo é pela raiz.

Desapego

A sensação é de entrar na sua própria casa abandonada. Olhar para teias de pensamentos e sentimentos empoeirados — alguns dos quais a gente tenta inabilmente varrer para debaixo do tapete — e não saber muito bem por onde começar.

Acho que é esse o problema: ter motivo. Porque, na verdade, acho que eu espero uma grande inspiração para voltar a escrever. Senhoras e senhores, ela não existe. O problema de um blog sem tema definido é que você não tem onde se agarrar a não ser em você mesmo.

Oi? E quem disse que eu quero isso? Ironicamente, escrevo logo depois de dizer que “acho que é hora de fechar as janelas…” E teve quem pensasse que eu me referia a desligar o computador ou me preparar para a próxima chuva. Ou não. Melhor assim. Mas as janelas eram outras.

Aqui não existem mais algumas parcerias de outrora. Não sei nem o quanto de mim ainda existe, e não digo das palavras, mas do ato. E, no entanto, ainda sou meu melhor parceiro. É que de repente, entrar aqui e escrever me pareceu tão anacrônico…

Mas sigamos. Navegar, navegar…

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Os gatos seguem cada vez mais lindos e cada vez com mais personalidade. Apesar da melancolia com que olham pela janela muitas vezes, acho que eles sabem ser felizes. A Menina com certeza, o Rabicó tem um olhar mais humano que às vezes me espanta. O que será que eles sentem? — o pensamento não me interessa nem o meu.

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As flores resistem bravamente nesse calor modorrento e compõem a minha mais linda metáfora.

Viver e morrer numa noite transfigurada

Faz tempo, mas eu sou lento.

Passou meu aniversário e eu nem disse nada. Muita coisa rolou, na verdade, mas eu tenho deixado passar. Sei lá.

Três grandes ondas mexeram comigo na semana do meu aniversáro, em medidas e porporções diferentes e ortogonais. Três grandes vagalhões, cada um me pegou de um jeito.

Chegando aos trinta e três, gosto cada vez mais dos meus aniversários. Não pela festa em si, mas pelo momento. É quando eu morro e vivo ao mesmo tempo. É quando melhor deixo que algo em mim caia por terra e outro algo se alevante. E há, na alegria, um quê de esperançoso que inunda essa melacolia que ronda os meus dias.

Fiz o que queria. Desconfiio que nunca terei uma casa grande o suficiente, então vou lotar o espaço que tiver. De amor. Lúcido, bêbado, tímido ou desbragado. É disso que eu gosto! De rostos felizes, olhos brilhantes e multi-apetites saciados. Eu gosto é do riso farto.

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Perdi um amigo. Não era um amigo particularmente íntimo, acho que nunca nos demos essa chance, infelizmente — pra não ser injusto nem com um, nem com outro. Não importa. Pessoalmente, me doeu muito mais a dor inflingida aos amigos em comum do que a que era minha de fato. Eu sei que é estranho dizer isso — e até socialmente questionável —, mas é um fato que não posso negar. Não sei se é a relação comparativamente mais tranqüila que eu desenvolvi com a morte nos últimos anos e se ela, portanto, não me afeta como à maioria, ou se eu não me deixo afetar. Não sei, não sei. Fato é que eu sinto falta da pessoa enorme de quem meus amigos sentem falta, mais do que daquele pedacinho de pessoa apenas que eu pude conhecer. Não sei se pra alguém isso vai fazer sentido, mas é o que eu sinto — ou o que eu acho que sinto. Eu apenas gostaria que tivesse sido diferente, se é que era possível. E tenho sentimentos bons, desejos de boa viagem, acho que é o mais importante.

+

O concerto foi do caralho! E você perdeu. Você perdeu muita coisa, na verdade, mas isso é apenas o que eu acho. E é justamente pra não ficar achando que eu abro mão — assim você não perde nada; nem eu.

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Te ver não foi fácil. Dois anos e quatro meses depois, eu achei que estava pronto — e estava! —, mas não foi fácil. Talvez porque reencontrar alguém seja reencontrar a si mesmo, alguém que não existe mais.

Lua cheia

“Ó, lua branca de fulgores e de encanto,
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo,
Vem tirar dos olhos meus, o pranto,
Ai, vem matar essa paixão que anda comigo.

Ai, por quem és, desce do céu, ó lua branca,
Essa amargura do meu peito, ó vem e arranca,
Dá-me o luar da tua compaixão,
Ó, vem, por Deus, iluminar meu coração…”

(Chiquinha Gonzaga)

Cine-ópera

Vão dizer que não é o mesmo que assitir no teatro — e não é mesmo — e que as câmeras não favorecem o gênero teatral — o que é verdade em muitos casos mal dirigidos, mas em alguns outros há bons resultados. Só que poder assistir a uma montagem de ópera com qualidade internacional e elenco estelar, na telona do cinema, com som e imagens cristalinas em alta definição por 15 mangos (meia), desculpem, mas é sensacional.

La Sonnambula, de Bellini, com Nathalie Dessay e Juan Diego Flórez nos papéis principais foi um presente para começar a semana com os pés um pouco acima do chão. Vale a pena conferir a programação — eu já perdi três, argh! — e assitir algumas dessas montagens do Met porque, com certeza, pelo menos cada uma das passagens para assistir vai sair bem mais cara.

Porque às vezes é preciso ser triste

Longe de querer fazer apologia ao sofrimento, uma tristezinha às vezes cai bem. Foi o que eu vim conversando com os meus pés no caminho do cinema até em casa, por entre esquinas e caminhos tortos.

Assisti finalmente O Leitor. E não pretendo avaliar o filme — há várias outras palavras muito mais precisas que as minhas por aí — além do sentimento que ele me inspirou: tristeza. Tristeza em ver a vida desperdiçada. Tristeza nas escolhas, nos caminhos, na culpa, no arrependimento, na dor, no rancor, na incapacidade do perdão. Uma história em linhas tristes. Uma história que não é minha, mas é humana essa capacidade de criar ecos e eu chorei pela personagem, chorei com ela, imolada para expiar a minha própria tristeza.

É por isso que às vezes eu gosto de um bom filme triste. É pelo descarrego. É porque ele — assim como uma massagem consegue aliviar uma tensão quando não conseguimos relaxar — também tem o poder de descarregar nossas pequenas tristezas, os desgostos diários, aquelas pequenas porções de dor ou raiva que guardamos e não choramos porque, afinal de contas, nem é para tanto. Mas de onde vem, senão daí, a expressão lavar-se em lágrimas?

Hare Krishna

Quando não tiver mais nada
Nem chão, nem escada
Escudo ou espada
O seu coração acordará…

(Mantra, Nando Reis)

E acordei com meus olhos felizes a procurar a luz de cada canto. Tive sonhos de um amor improvável, mas em sonho possível — e o que importa? Ao invés de acordar rapidamente, conversei com esse sonho, entorpeci-me de suas cores.

Procurei aquele CD com músicas felizes que a tristeza me fez guardar em um recôndito fundo de gaveta. Fui injusto com ele. Não tive escolha, nem sempre a felicidade faz bem. Quando não se está pronto para ser feliz ou essa felicidade é datada, ela dói tanto quanto qualquer outra dor. E as minhas foram muitas, muito minhas. Mas eu aprendi a olhar para o céu dentro de mim. Entendi que felicidade é um desejo e que um desejo é realidade — a minha realidade. Mais ainda, uma alegria não se torna triste porque suas cores desbotam. Assim é o amor.

Veja a rosa, por exemplo. Mesmo que lhe tirem as cores, o viço e lhe caiam as pétalas. Mesmo olhando agora para esta flor que murcha lentamente no solitário em minha mesa, quando fecho os olhos ela permanece rosa. Assim como todas as flores que recebi, em flor ou não. Como um mantra.

Instantâneos delitos de paixão

Olhos nos olhos, borboletas no estômago, suor nas suas mãos urgentes. Tudo isso marcando uma inesperada cena de amor a dez passos do metrô.

— Você tá falando sério? — ela debocha.

Era uma vez o encanto. Passei pelos cacos e desci a escada, desgostoso como quem sai do cinema sem ter seu final feliz.

+

Um dia são teus olhos nos meus, em brasa — e mais nada. Outro, teu sorriso sem graça. Nosso caso daria um curta de comédia romântica, se tivesse romance.

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Sentiria inveja se não sentisse uma certa devoção por casais felizes. É como se eu observasse um pequeno milagre, perdido em mim com minha estesia; minha epifania.

(um pouquinho) Mais do mesmo

Eu confesso que estava quase caindo em tentação e ia comentar e citar novas e inquietantes declarações sobre o caso estupro-aborto-excomunhão, lidas algures. Mas a verdade é que nem a Santa se entende (se critica e se contradiz) — justiça seja feita que eu li um belo exercício de retórica vestido de compaixão (ou vice-versa) no jornal deles, mas aí desviamo-nos do fato. Pra que é mesmo que eu vou dar corda?

Eu vou é torcer pela menina.

Né?

Sabe por que eu adoro cartunistas? Porque enquanto eu estrebucho pra dizer o que penso, o que acho, tal e coisa, coisa e tal, eles fazem uma tirinha genial e encerram o assunto.

Tipo isso. Gênio. Obrigado, Angeli.

ange09032009

…et in terra pax hominibus bonae voluntatis

O chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, Gianfranco Grieco, afirmou que a decisão da Arquidiocese de Olinda e Recife de excomungar os responsáveis pelo aborto da menina de 9 anos — violentada em Alagoinha (a 230 km de Recife) — foi correta. A declaração foi publicada nesta sexta-feira pelo jornal italiano “Corriere della Sierra”. (Folha)

Aconteceu o que eu temia. Esta foi a semana dos absurdos — deve ser o calor, sabe; eu tô delirando. Tinha, né? Tinha que ser a Igreja Católica. Tinha que ir alguém lá e excomungar quem tá tentando salvar a vida de uma menina de 9 anos, que estava grávida de gêmeos e corria risco de vida porque foi estuprada pelo padrasto, de 23, que também estrupou a irmã dela, de 14, portadora de deficiências física e mental, e que as assedia há 3 anos. Eu não consigo imaginar um quadro mais dantesco.

“É muito, muito delicado, mas a Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até à morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência de uma criança”, disse Grieco. (Folha)

Ah, não?! Que engraçado, eu jurava que foi essa mesma Igreja que bancou a dita Santa Inquisição, que condenou o sistema heliocêntrico, ameaçou e prendeu Galileu — um cristão fervoroso — e que queimou Giordano Bruno na fogueira, tudo em prol da “verdade teológica”. Que mais? Olha que a lista é vasta! Quer dizer que aborto em casos hediondos não pode, mas tacar fogo pode? Hipocrisia não é pecado?

Eu não sei excomunhão condena alguém ao inferno — considerando que essa pessoa acredite no inferno, claro —, mas eu espero que não. Já pensou, depois de tudo isso, ainda por cima ir parar no inferno e dar de cara com essa corja? Esconjuro!

+

Um update. Ah, desculpa, mas não vai dar!

Ela comentou comigo, de bate-pronto: quer dizer que excomungar mãe e médicos (preocupados com a vida da menina, num sentido muito maior do que apenas a sobrevivência a uma gravidez de altíssimo risco) pode, mas excomungar um extuprador não pode?

Ontem, dom José declarou à reportagem que o aborto é mais grave que o estupro, e por isso a Igreja Católica condena o primeiro caso com a excomunhão automática. (…) “Católico que é católico aceita a lei da igreja. Quem não aceita é católico mais ou menos, e isso não existe”, disse. Para os médicos, a continuidade da gestação de gêmeos poderia ser fatal à menina, que pesa cerca de 30 quilos. (Folha)

Claro. Esse realmente é um argumento de peso. Pena que seja hipócrita, desumano, impiedoso e tão cristão quanto um tijolo.

“Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus seis anos.” (Rivaldo Mendes de Albuquerque, 51, médico, católico praticante)

Pois é. Um excomungado é muito mais cristão do que um punhado de bispos. Será que é preciso dizer mais alguma coisa?

Ditabunda

Tem todo um bafafá rolando por causa do tal editorial da Folha, lá por meados de fevereiro, né? Pois é, eu só fiquei sabendo mesmo por causa da celeuma. É o jornal e seu revisionismo tacanho — e oportunista, vamos combinar, para um jornal que sempre se orgulhou de ser de centro-esquerda —, são os intelectuais de esquerda inflamando-se indignados — e, se menos oportunistas, também parciais, como todo discurso inflamado —, é o militar reformado fazendo comparações superficiais, é o jornal de novo, perdendo definitivamente a isenção e a elegância. Enfim, é o pau comendo, para variar. A única expressão realmente sensata, pacrece-me, foi a de Fernando de Barros e Silva, na própria Folha, que veio elegantemente ilustrar o quanto todo mundo está errado.

Mas uma coisa que me chamou a atenção no meio da argumentação toda foi a intrigante definição de valores: quer dizer então que existem ditaduras melhores que outras? Me digam… Não, me digam com sinceridade! Eu não sabia que ditadura de direita era diferente de ditadura de esquerda! Vou tentar me lembrar disso da próxima vez que toda e qualquer liberdade humana for ameaçada. Ora vamos, uma ditadura só e melhor que outra quando somos a favor dela. No fim de contas (de corpos, se preferirem) dá na mesma. E acho que hoje podemos afirmar com tranqüilidade que qualquer ditadura — tenha ela o background histórico que tiver, e aí, sim, temos uma questão de fato para discutir, não para justificar, mas para entender, incorporar e evoluir socialmente —, eu repito, toda ditadura é vil.

Isso dito, podemos seguir adiante sem pisar no mesmo buraco?

Missiva

Hoje senti sua falta, daquele jeito resiliente, que resiste a uma caminhada, dois copos de cerveja, faxina e arrumação de armário. Foi quando desci a rua e a tarde caía. Fazia um calor modorrento e o céu parecia pintado de um azul improvável, com uma lua pendurada, rindo insolente. Tanto lembrei de outras luas, já sem rostos, que senti minhas mãos vazias. Mercedes cantava nos meus ouvidos e eu ensaiava alguns passos, alheio, para não cair em mim.

De repente, me senti pequeno e inútil. É sempre assim quando acontece, me torno miúdo, quieto, melancólico. Sei das peças que eu mesmo prego em mim — essa é uma delas, antigo sucesso dos palcos; hoje é só reprise. Já não me aborreço porque sei que passa depois de uma boa noite de sono, geralmente. Então faço como os livros do móvel da sala: empilho-os no chão para que cada história escolha seu caminho e os devolva cada um ao seu devido lugar. Tiro coisas e troco de lugar, bagunço tentando me organizar. E então durmo com a mão no peito, procurando um papel para você na minha vida.

Eu só queria que você soubesse.

We apologize — and yet, we don’t.

Às vezes, simplesmente é muito. É quando aquelas defesas, tão fragilmente erguidas, despencam. É como encarar a audiência nu, sem piada nem gracejo, sem toalha, sem jeito. E nenhuma audiência, por mais crítica que seja — e nunca o são tanto assim —, é pior que o próprio espelho.

“…Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei, ó maninha…”

Cinza

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou…”

Carnaval traz sempre um quê de ressaca, mesmo quando não se bebeu — o meu caso. É um sentimento de vazio, quase tristonho, de quem quis muito e acabou meio sem querer no final. É aquele beijo que você quis roubar. Aquele rosto que levou teu olhar e não devolveu. Ou a cantada que você recebeu. O sorriso que alguém te deu e você não teve onde guardar. Não há bolsos no carnaval, a gente só leva o que consegue pendurar no pescoço. É uma alegria que, mesmo não sendo forçada, não é natural. Tanto desejo parece que esgota a gente e acordar na quarta-feira é sempre um pouco gris.

Acho que nosso problema é querer viver um eterno carnaval, como se não fosse possível ser feliz fora da folia. É a loucura que se instaura, fantasiada de razão, já que nada disso vale a pena, pois no carnaval — não me leve a mal — nada é certo, nada é prometido, apenas o querer constante e insaciável é permitido. E nosso desejo continua bloco afora, por entre uma gente que nem se vê, se abraça e se beija e caminha sem rumo, sem jeito, sem fim.

Mas no entanto, é preciso cantar. É preciso encontrar novos carnavais. E algum deles há de ser menos folia e mais canção, menos tristeza e mais sorriso, menos saudade e mais coração. E que o Carnaval seja apenas uma lembrança de dias gostosos de uma felicidade sem motivo. Uma fantasia de nós mesmos onde a gente achava que sabia e cantava cantigas de amor, quando o que buscava, sem saber, era um canto de paz.

“Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe…”

Oscarito

Eu nunca tive realmente muita vontade de assistir à premiação do Oscar — eu nunca fui um fã que preste, é verdade. Daí que quando, pela primeira vez eu tenho esse impulso, devo agradecer à maravilha que é a internet e suas trasmissões… well, piratas. Porque claro que eu cancelei a TV a cabo por falta de uso (fora o preço abusivo).

Pena que mesmo assim eu não me toque do horário da cousa — não é que eu esqueci, eu não sabia mesmo! Mas valeu pelo gran finale ao ver o Sean Penn levar o douradinho. Não valeu pela Meryl Streep — quero meu dinheiro de volta!

Got Milk?

Nasci em meados dos 70, mas acho que só comecei a acordar no finalzinho dos 90, já que na adolescência a gente só pensa que sabe das coisas; a adolescência é um sonho — ou um pesadelo. Talvez por isso a questão toda da emancipação do movimento gay pra mim seja apenas… história. Mais ou menos a diferença que deve ser quando eu penso no período da ditadura e quando meus pais é que pensam. Eles tiveram amigos presos, eles conheceram gente que sumiu ou fugiu às pressas pro exterior, e isso porque nunca pegaram em armas. Da mesma forma, as histórias mais tristes que eu conheço do mundo gay não são minhas. Minha saída do armário foi tão simples quanto dizer: “mãe, você sabe que teu filho é gay, né?”, e apresentar meu primeiro namorado, ou levar o outro pra almoçar numa casa cheia de família italiana num domingo de Páscoa; sem exagero. Não tenho mérito nenhum nisso. Eu tenho é sorte, muita sorte de ter nascido numa família amorosa e tolerante, que tem lá seus vários problemas, mas que nunca tratou esse tipo de diferença como um fantasma, um estigma.

Isso não me livrou de ter meus próprios fantasmas, entretanto. As maiores opressões que já sofri até hoje foram minhas, frutos de insegurança, medo, carência, etc. Mas sobretudo, o sentimento que a gente compra do mundo de ser errado. Tudo isso cai por terra quando você se sente pronto pra (se) enfrentar. Com 16, 20, 40 anos ou mais, há sempre um processo de emancipação, em relação ao mundo ou a si próprio.

E é por isso, acho eu, além da lírica humana (que atenua certas cruezas históricas) e da interpretação irretocável do Sean Penn no papel principal, que Milk me pegou em cheio. Porque não dá pra ficar indiferente quando você vê sua natureza sendo atacada impiedosamente, num exercício de hipocrisia sem limites. Muito menos quando de dentro da minoria uma voz se ergue, uma luz se acende, uma esperança se impõe. Isso é épico. Isso mexe com a gente.

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Deixei os gatos ontem assistindo Aristogatas na TV, na esperança de que eles ganhassem um pouco de bons modos.

A julgar pelo rolo destroçado de papel higiênico que eu encontrei esta manhã, não gostaram nem um pouco do filme.

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Acabei de ver que este ano sai uma refilmagem de Star Trek. Vai ser um fiasco, os personagens não terão o mesmo jeitão, eu não sei como o enredo terá a mesma força depois de tanta ficção científica e uma horda revoltosa de trekkers vai se inflamar contra o que eles dirão ser indigno da memória da USS Enterprise — eu vou ficar de olho no Sr. Spock.

Vai ser lindo, mal posso esperar!